terça-feira, 25 de julho de 2017

Construir a Narração: Inauguração do Convento do Carmo (Torres Novas)

Passo a vida a afinar o olhar, para poder reconhecer o outro. Sem este exercício é difícil entender uma comunidade. Vem esta constatação a propósito do meu último trabalho em Torres Novas, “A Visita”, uma intervenção em mediação cultural que partiu da memória do Hospital Velho desta cidade para chegar aos Torrejanos de agora. Quem me desafiou, foi  João Aidos, que conheço há uma boa mão cheia de anos. Sei que há uma coisa que nos une, o gostarmos de pessoas- ainda temos a capacidade de nos espantar com a expressão de quem habita os espaços, sejam eles latos urbanos ou pequenos e singulares bairros. Mais uma vez, este Engenheiro Improvável me lançou o desafio de pesquisar as histórias dos espaços para que as pudesse devolver à população que os possui, por legado. Andei em torno da memória do “Hospital Velho” (antigo Convento do Carmo), conversando com as mães que pariram naquela maternidade, com os filhos e com os profissionais que lá trabalharam. Neste trabalho de mineração da memória conheci alguns médicos ímpares. O Dr. José Manuel Bento Sampaio (que foi aluno do meu Pai na Faculdade de Medicina) veio de Almeirim, numa das noites que antecederam o evento, partilhou a sua visão do hospital, muito útil para a minha organização do conhecimento. Deixou ficar o seu livro “Memorial do Hospital Distrital de Torres Novas e do Serviço de Pediatria”, que li atentamente. A Dr.ª Ermelinda Júlia encheu-me com o seu afeto, facilitando contactos, acompanhando a construção da minha narração. E que dizer de um serão à conversa com um médico único, de elevado perfil intelectual, o Dr. Carlos Nuno? Também ele contactou com o meu Pai no Hospital de Santa Maria. Deu-me uma visão geral muito límpida da história do Hospital, sobretudo, o retrato humano, referido amiúde pelas mães que ali pariram e por outros doentes que ali foram tratados. No meu trabalho de pesquisa que incluiu residência na cidade, tive a preciosa ajuda do Serviço Educativo do Teatro Virgínia (daqui envio um abraço para a Cláudia Hortêncio!) que me fez chegar às mãos documentação histórica da Misericórdia e dos arquivos municipais. A equipa do Teatro recolheu um conjunto de depoimentos, na primeira pessoa (memórias/histórias), que foram projetados numa sala do Convento, como parte integrante na minha intervenção. 
A instalação incluía, ainda, uma árvore do claustro, que secara entretanto, e se transformou no lugar dos Tsurus, onde cada Torrejano nascido no “Hospital Velho” escreveu o seu nome, o nome de sua mãe, da parteira (quando sabiam) e do pediatra. No domingo à tarde já a árvore estava cheia de pássaros de papel. Cada pessoa que chegava com uma recordação acabava sempre por desfiar a memória, por vezes com bastante emoção. As histórias que recolhi e aquelas que inventei, tecendo um único conto, foram partilhadas ao longo do fim de semana, de mão dada com algumas canções onde a figura da Mãe é central.
Aqui fica um excerto do conto que foi narrado durante o fim de semana.
(...)
Irmãs de Leite

Maria Engrácia, a bela e frágil filha do dono da Farmácia, começou a ter as dores por volta do almoço. Às 10 de noite já entrava no Hospital Velho, não pela escadaria, mas sim pela rampa das urgências. Ao mesmo tempo Maria Sofia, uma moça rija da Meia Via, subia a escadaria, parando para soprar a cada lance. Quando chegou lá acima, quase estava parida. As duas mulheres ficaram no mesmo quarto apertado (que nem biombos tinha, à época) de duas camas em que bastava esticar a mão de um leito para o outro para fazer uma amizade, dando a mão à vizinha, nas horas de aflição. Engrácia pariu primeiro e foi reconduzida à sua cama onde tentou que a bebé que lhe puseram sobre o peito pegasse na maminha retirando aquele primeiro leite colostro com que a vida nos dá as boas vindas. Mas nada. Entretanto chega, desempoeirada Sofia, pelo seu próprio pé, senta-se na cama, a enfermeira põe-lhe a filha nos braços e a criaturinha logo começa a chupar raivosamente no mamilo da mãe. Escutou-se um Chup!Chup! sonoro que invadiu todo o quarto. E Engrácia naquele desespero: "Bebe filhinha, bebe!” Despachada Sofia daquela primeira parte da ceia da filha, virou-se para a vizinha e disse: “Ó mulher! Queres que a minha filha abra o caminho do leite para a tua? Com duas chupadelas ficas logo com as mamas desentupidas!” E assim foi. Sofia passou cuidadosamente a filha para os braços da vizinha e sentou-se na cama com a filha de Engrácia nos braços. A filha de Sofia nem estranhou um peito diferente: deu duas sacudidelas no mamilo de Engrácia, ao jeito dos cabritinhos e Chup! Chup! lá ficou o leite a escorrer. Retirou a filha e entregou a outra menina ao peito da vizinha, que logo sorveu esfomeada o peito de sua mãe. E repetiram a operação para o outro peito. Ao longo dos dois dias que estiveram no hospital as meninas saltaram pelas quatro maminhas sem qualquer problema. “Queres que ela agora prove desta?”. Ficou ali selada a leite uma amizade improvável e duradoura. Anos mais tarde (20 anos), deram entrada no Hospital Velho duas jovens mulheres com o mesmo tempo de gestação, entrando em trabalho de parto quase em simultâneo. Exigiram ficar em camas vizinhas e pariram quase ao mesmo tempo. Primeiro a filha de Engrácia e depois a de Sofia. Não tiveram nenhuma dificuldade em amamentar, mas deu-se a mesma dança de bebés entre maminhas. A enfermeira de turno comenta com a Doutora: “Até parecem irmãs, pela forma como se dão…” “Sim! Irmãs de leite!” - retorquiu a médica. (...)
O Dr. Carlos Nuno
muito atento às histórias que iam surgindo

quinta-feira, 13 de julho de 2017

Na Biblioteca de Pombal com meninos e meninas ciganas...e muitos livros

O trabalho com as crianças ciganas de Pombal continua.  Esta segunda-feira continuei a trabalhar a concentração com alguns jogos de movimento, coordenação; depois, um exercício de voz e harmonias… não tiveram dificuldade nenhuma, claro. Já o trabalho em torno da escuta foi mais agreste. Trata-se de uma cultura muito afirmativa, onde todos os papeis sociais na comunidade são defendidos perentoriamente, com expressão e falando alto. Fala-se alto para que todos escutem o que estamos a dizer e haja, por isso, testemunhas. Falar alto por se ter conquistado o direito à opinião, passando da infância diretamente (quase) para o estado adulto. As crianças aprendem desde muito cedo a interromper as conversas dos pares, afirmando-se. Falar, desregradamente, fora de contexto e alto, tem ainda o sentido de todos saberem que estamos a gostar e a participar socialmente. Este ruído constante não dá jeito nenhum quando se trata de um espetáculo ou sessão de mediação: ninguém presta atenção. Obriga o mediador a ser expressivo, surpreender o grupo, captando a atenção. Mesmo assim, consegui realizar a oficina “Dos sons nascem histórias” e aquele grupo misto de jovens e crianças acabou por inventar algumas narrativas (escritas ou em desenho) surgidas pela escuta dos trechos sonoros que lhes apresentei. Ainda tivemos tempo para repegar “o livro com um buraco” (Hervé Tullet), começando a colorir a fotografia obtida, ponto de partida para um pequeno trabalho autobiográfico. Acabei por fazer, também, alguns desenhos com buraco para experimentarmos como ficava… Aproveito para agradecer a presença da animadora cultural Marli Silva que me tem ajudado nesta intervenção.~

terça-feira, 11 de julho de 2017

Caule condutor

Conceção e realização da oficina "Arte que lança sementes": Carlos Carrilho, Ana Pêgo, Miguel Horta, Sara Inácio, Paula Ribeiro e Patrícia Tiago. 
Da semente ao fruto e do fruto a novas sementes – como podemos semear um novo mundo?.A Fundação Calouste Gulbenkian tem um património muito rico e variado que inclui as suas coleções de arte e as suas “coleções” naturais - o jardim. Esta oficina inspira-se nesse património e nasce das relações entre arte e natureza, procurando lançar sementes artísticas e criativas ao mesmo tempo que nos faz pensar no mundo em que vivemos e sua biodiversidade e sustentabilidade. Durante uma semana, percorrendo o ciclo de vida de uma planta, vamos lançar sementes à terra, fazê-las germinar, cuidar da(s) planta(s) para que cresça(m) e atinja(m) a maturidade até dar(em) fruto. Através de diferentes experiências artísticas, visitas aos jardineiros, leituras, utilização de pigmentos naturais e utilização de técnicas variadas, exploraremos a relação entre arte e natureza até chegarmos a uma obra final, coletiva, de Land Art, fruto de uma simbiose com o jardim e das várias experiências realizadas.
 
 O fio condutor é um caule que nos une, da semente à floração e respetivos frutos. Trata-se de uma oficina holística, que tem como referente 3 espaços da Fundação Calouste Gulbenkian, a saber, Museu Gulbenkian (Coleção do Fundador), Museu Gulbenkian (Coleção Moderna) e Jardim (Coleção Natural). Começámos por nos juntar com uma história Indo Europeia contada no primeiro dia “a Semente”; todas as crianças guardaram a sua semente no bolso para florescer ao longo da semana (talvez a semeiem mais tarde no Inverno…)
Ficha técnica para uma planta imaginária, feita por uma menina bem disposta e imaginativa, durante esta nossa oficina de férias. Não era TPC... Atente-se no detalhe da fundamentação para uma planta imaginária… Relembra como estávamos corretos no projeto 10x10 do Descobrir (Fundação Calouste Gulbenkian) ao propor a abordagem dos temas científicos a partir do olhar dos artistas bem diálogo ativo com os professores de "Ciências". Ver exemplo Aqui.
lembrei-me muito de Seomara da Costa Primo (ilustradora e botânica)  ao longo desta oficina.
Mas voltemos à germinação e aos bolbos, sementes e rizomas que conhecemos no começo da semana. Depois de temos inventado (desenhando e moldando) bolbos e rizomas estranhos que deram a origem a plantas singulares, seguimos para os serviços do jardim para escutar os jardineiros que todos os dias conversam com as plantas. Germinaram as sementes dando origem a um caule, o caule tutor, como nas videiras. Pegando no caule, aproveitámos restos das plantas (ramos, folhas e pétalas caídas pelo chão) para fazer pinceis de diferentes consistências e rasto apenas com materiais naturais. Fomos até ao Oriente e pintámos com tinta-da-China um longo desenho, como o nosso caule, que apresentámos aos pais no último dia de oficina, junto com outras produções da semana. Outros desperdícios encontrados no jardim serviram para fazer ourivesaria faz de conta inspirada na obra de René Lalique (que, em menino e brincou com bichos, plantas e pedras) – expusemos o nosso trabalho num tronco. É verdade… Já alguma vez tentaste fazer um retrato usando apenas o que encontras no chão do jardim ou floresta? Sim! Uma espécie de Arcimboldo feito com colagem. 
Recolhemos  e experimentámos e criámos formas tridimensionais com essas sementes, ramos e folhas, e surgiram uns "deuses" estranhos... Não é que os Egípcios faziam o seu papel com o caule dos papiros do rio Nilo? Olhem! Olhem! Descobri papiros no jardim! O caule cresce e surgem folhas projetando a sua sombra pelo chão, misturando-se com a nossa; brincamos com as sombras como o fez Lurdes de Castro.  Paramos a descansar num ramo do caule que vai crescendo, e lemos Um livro sobre “Sombras” (Suzy Lee). Os mais velhos escutam uma história contada num caule grosso, um tronco, sobre uma “árvore generosa”, e ficam a pensar…
No dia em que apareceram as primeiras flores no caule e mais alguns frutos, fazemos uma grande mandala com o que encontrámos nas nossas deambulações pelo jardim.
 Rostos a lembrar Arcimboldo
 Sombras de folhas projetadas
No último dia um longo desenho, como um caule serpenteando pelo chão do jardim, uniu todas as crianças, encerrando mais uma oficina de Verão do Museu Gulbenkian. Não podemos terminar sem agradecer ao Senhor António, chefe dos jardineiros da Fundação Calouste Gulbenkian, pela sua generosidade e disponibilidade, ao receber os nossos três grupos nos bastidores secretos do Jardim, contado-nos histórias e curiosidades das plantas e animais que ali habitam.

domingo, 9 de julho de 2017

Bairro Leitor: Jardins Colaborativos

Os jardins, ruas e praças devem ser locais de fruição e não lugares de afirmação territorial ou de manifestação de tensões, geradas por um urbanismo que não teve em conta as pessoas na sua génese. Os Jardins Colaborativos são uma proposta para a criação de espaços verdes geridos livremente pelos habitantes/vizinhos, coordenados e apoiados pela Junta de Freguesia da Ajuda. Uma proposta da Laredo Associação Cultural no contexto do projeto Bairro Leitor BIPZIP 2016-2019. O gosto pelas plantas e a vontade de intervir num determinado espaço verde motivam a sua natural ocupação. Isto mesmo vem acontecendo do Bairro do Casalinho da Ajuda, de forma desordenada. Esta ideia simples pretende que os moradores se coresponsabilizem pelo espaço que habitam, sendo proactivos e criativos na gestão dos seus jardins de proximidade. Assim, propõe-se a construção/desenvolvimento de dois jardins colaborativos na Rua Fonseca Benevides, Bairro do Casalinho da Ajuda, conforme imagem. Para que a ideia tenha sucesso, é importante criar a figura do “padrinho” da “madrinha” responsável pelo pedaço de jardim, gerando ideias e propondo soluções com o máximo de autonomia possível. A Junta de Freguesia da Ajuda dará todo o apoio técnico, logístico e orgânico (plantas, bolbos…) necessário à concretização e manutenção do espaço verde. Será necessária alguma formação, nomeadamente no que diz respeito a regas racionais e planificação de canteiros, para além dos conceitos básicos de jardinagem, a proporcionar pela equipa técnica da Junta. A mediação desta ideia no terreno só será possível se realizada por ativistas associativos residentes no bairro do Casalinho da Ajuda, com respeitabilidade reconhecida, que assim poderão ajuizar a escolha dos “padrinhos” e “madrinhas” dos espaços verdes e desbloquear hipotéticos impasses. A academia de Jovens do Casalinho da Ajuda tem, neste processo, um papel central. A ideia agora proposta é extensível ao Jardim do Miradouro, alvo de recente trabalho de requalificação, com inauguração festiva prevista para dia 29 de julho. Atualmente parte da zona reservada a relvado foi ocupada, nos seus limites, por canteiros de flores, numa iniciativa autónoma dos moradores. A distribuição de espaços é apenas indicativa pois deverão ser os moradores, em diálogo com a Junta, a definir a forma de desenvolvimento possível da ideia, como aliás aconteceu no “ jardim do miradouro”. A ideia prevê a instalação de bancos, a construção de carreiros, o plantio de árvores, concomitantemente com as ideias para canteiros a apresentar pelos moradores aos técnicos da Junta de Freguesia. Depois de aprovada a proposta, pela Junta de Freguesia, a Associação local deverá fazer o levantamento dos interessados, das suas ideias e projetos para aprovação.

quinta-feira, 22 de junho de 2017

O que nos disse um retrato...

As nossas Miss Constable
Chegámos ao fim do ano letivo e acho que estou bem feliz com os resultados da minha oficina “O que nos diz um retrato”, no Museu Gulbenkian. Claro que as últimas realizações ficaram mais oleadas com a prática; mais oficinas existissem, melhor seria o resultado. “O que nos diz um retrato” é a única oficina que realizo atualmente para o setor educativo do Museu Gulbenkian, no campo das necessidades educativas especiais, colaboração que iniciei em 2005, a convite de Susana Gomes da Silva. Nestas oficinas, o público foi constituído, maioritariamente, por grupos de participantes portadores de doença mental. Nas primeiras duas sessões, os visitantes foram convidados a conhecer o Museu Gulbenkian e as suas obras de forma descontraída, desvendando, aos poucos, as histórias escondidas “por detrás” de cada peça exposta. 
A conversa em torno dos diferentes retratos é dinâmica, gerando opiniões surpreendentes no público visitante. A riqueza vocabular cuidada, adaptada à composição de cada grupo, deve ser intuída logo no início, sendo fundamental que o monitor possua uma competência da palavra que permita ir do sinónimo até ao adjetivo mais expressivo para uma comunicação bem-sucedida. Mais uma vez a empatia das pessoas que gostam de comunicar com o outro, torna-se evidente numa relação, que embora limitada no tempo, tem grande intencionalidade de afecto.  O Museu é uma “Máquina do Tempo! A linha temporal é estabelecida, não com datas a decorar, mas sim com referências enraizadas na cultura geral (e até popular) garantindo a perceção do tempo na arte e no discurso expositivo: “Um pouco antes deste momento, em que Carpaccio pintou o quadro, Alvares Cabral, chegava ao Brasil” ou “Reconhecem aquele cabelo?” “Faz lembrar a cabeleira do Marquês de Pombal!”. Diz um participante “Pois bem" Respondo, "o quadro foi pintado no ano em que se deu o tremor de terra”  A propósito do “Século das luzes”, um dos núcleos da coleção de  Calouste Sarkis Gulbenkian, toda a visita se torna bastante interessante,  pela intenção evidente dos pintores da época, ao criarem retratos onde se evidenciam os universos pessoais dos retratados, onde a sabedoria, o “bom trato” muitas outras características humanas e socialmente muito úteis se evidenciam. Para cada peça uma abordagem específica com objetivos comuns estabelecidos anteriormente, mas que devem surgir como um rio fluindo na comunicação entre pessoas. Por exemplo, quando abordo o busto de Molière, faço uma adivinha, interpelando os participantes sobre a origem da peça. “Conseguem identificar a personagem ali reproduzida? A cabeleira é verdadeira ou falsa? Vou fazer uma adivinha sonora…” Agacho-me sobre o belo soalho de madeira do Museu Gulbenkian e faço “as pancadinhas de Molière” batendo com os nós dos dedos no chão. Adivinham sempre... Serve este exemplo para mostrar como é importante fazer apelo a todos os sentidos dos visitantes especiais, quando fazemos visitas ao Museu. Depois desta experiência de percurso descontraído pelo museu, durante duas sessões, segue-se a preparação do trabalho em ateliê. 
Cada participante é desafiado a escolher uma personagem de uma peça do Museu. A partir deste desafio, constrói-se a proposta plástica que vai ganhando autonomia e expressão. Aprofundamos, em oficina, a história da peça escolhida, apresentando intertextualidades interessantes ou divertidas sugeridas pelas personagens dos quadros. Surgem as perguntas: “E se eu vivesse naquele tempo? O que faria se a personagem do quadro viesse aos nossos dias? E se eu vivesse na época? Como seria a cidade onde vivia a rapariga do quadro? Em que estação do ano foi pintado?” Todas as perguntas facilitam respostas espelhadas em desenhos originais. Em certos momentos, cai um silêncio enorme na sala – utentes e técnicos estão tão absorvidos nos desenhos que dão corpo ás suas personagens adotadas no Museu, que não dizem uma palavra. 
Depois vem o trabalho com base em fotografias onde o corpo recria as poses das personagens escolhidas. “Lembra-se da posição em que estava o nosso burgomestre?” “Consegue imitar a expressão subtil do rosto da marota da Miss Constable?” São sempre umas figuras divertidas, as que fazemos no átrio do Museu Gulbenkian, quando tiramos as fotografias no meio de outros visitantes… Quase no final da oficina mostro algumas brincadeiras que fiz com ajuda do Photoshop (neste caso o Paintshop Pro). A risada é geral! Todos querem ver as fotos “trabalhadas” dos colegas… Sem darem por isso, mergulharam dentro das peças e as histórias dos quadros passaram a fazer parte das suas existências…

Voltem sempre ao nosso Museu.
São tantas as personagens que vivem no Museu

sexta-feira, 16 de junho de 2017

Mithos a ler. Formação Necessidades Educativas Especiais

Brincando!
Teve lugar a 7 de junho mais uma formação gratuita para mediadores da leitura voluntários dispostos a trabalhar o livro e a palavra junto de pessoas com necessidades educativas especiais. Trata-se de uma iniciativa do projeto Mithos a Ler (parceria entre a Mithos – histórias exemplares e a Laredo) responsável por uma biblioteca comunitária inclusiva em Vila Franca de Xira, um caso raro de um coletivo que aposta na acessibilidade aos conteúdos específicos para e com pessoas com deficiência. O projeto está em crescimento… Pois então, fiz o meu trabalho com um grupo inclusivo e divertido que esteve uma tarde inteira de volta dos livros, de técnicas simples para mediação e ilustração. Trabalhámos vários livros de acordo com os diferentes tipos de problemática mediação, partilhei uma maneira simples de promover o jogo simbólico criando personagens a partir de objetos do quotidiano e, finalmente, propus um exercício de desenho para e com pessoas cegas. Agora é importante dar um salto à Biblioteca Municipal para perceber que elementos da coleção poderão ser requisitados, localmente, para o nosso trabalho.
 brincando aos desenhos 3D
 Ilustrando com e para pessoas cegas
Recursos simples para o jogo simbólico

Desenho na ponta dos dedos

Desenho do Armindo sobre "papel de cebola" - "Cadela"

A propósito do vasto campo da Literacia Tátil
Um recurso que não é novo
mas continua a funcionar

Em 1983 tomei contacto com cegos da ACLB, quando da minha exposição “pinturas de uma viagem a Cabo Verde”, que esteve exposta a poucos quarteirões daquela associação. Ao permitir que algumas pessoas pudessem passar as mãos pelas telas, lendo as texturas e ritmos do meu trabalho, consegui entender um outro ponto de vista sobre o mundo. Mas a grande viragem deu-se em 2012 quando trabalhei no Agrupamento de Escolas de Rio de Mouro, na EB nº2 (escola de referência para cegos), enquadrado numa iniciativa da Câmara de Sintra. É certo que já utilizava outros recursos imaginados para trabalhar com este grupo específico de pessoas (Centro para a Educação do Cidadão Deficiente/ateliê e na oficina “ideias na ponta dos dedos” – Fundação Calouste Gulbenkian), mas a questão da possibilidade do desenho e suas implicações continuavam a agitar as minhas reflexões. Quis o destino que me cruzasse com a professora Elisa Gaspar que partilhou comigo as suas descobertas. Até que um dia uma cadela entrou na sala de aula e um dos meninos cegos fez um desenho da bichinha sobre uma folha de “papel de cebola”. Um resultado espantoso para uma criança com cegueira à nascença! No caso da cegueira adquirida existe uma memória do objeto, sendo a sua representação muito facilitada; na cegueira congénita o desenho é feito pela experiência tátil direta e complementadas pelas descrições escutadas ou lidas em Braile. 
O “papel de cebola” é uma película plástica texturada, percorrida por uma malha regular apertada, que permite registar sulcos feitos com a ponta de um lápis ou outro riscador. Os desenhos são feitos sobre um dispositivo com base de borracha (pode ser napa) com uma peça que se justapõe sobre a película (em Inglês, Sketchpad – a este propósito é muito interessante conhecer o trabalho do arquiteto Chris Downey). Este dispositivo tem sido usado na educação formal de crianças cegas servindo habitualmente para desenhos de cariz funcional (formas geométricas e grafismos próprios do mundo visual). Existe o preconceito de que como não vêem…não vale a pena propor o desenho criativo. O meu desafio foi criar dinâmicas que permitissem a expressão em desenho construídas a partir deste recurso. Rapidamente se entendeu que era possível fazer jogos de adivinha tátil, seguidos de desenho, abrindo portas para registos imaginativos. Este recurso tem um potencial inclusivo muito forte. Concluí, que no geral, o desenho da figura humana sobre o “papel de cebola” executado por crianças cegas, não apresentava diferenças significativas dos desenhos de outras crianças sobre papel, obedecendo às mesmas características evidenciadas nos estudos de Piaget. Foi preciso explicar isto mesmo, muitas vezes… A partir daí, o “papel de cebola” e outros suportes planos, obedecendo ao mesmo objetivo, têm servido para múltiplas descobertas no campos das artes plásticas aplicadas à cegueira (e também de forma inclusiva). Introduzi esta metodologia nas actividades educativas do Programa Descobrir/Fundação Calouste Gulbenkian dedicado a públicos com necessidades educativas especiais no ano de 2012 e em diversos contextos de formação ao longo dos últimos anos. Recentemente, durante uma formação que dei no encontro "Caminhos de Leitura" (Pombal) conheci um grupo de mediadoras sociais de Coimbra que utiliza esta metodologia nos seus trabalhos, à semelhança da mediadora cultural Joana Maia (Mithos) no projeto “Vem calçar os sapatos do outro”. Como sempre o segredo não está na ferramenta mas sim nas metodologias imaginadas e investigadas…
Imagens da formação de voluntários mediadores da leitura
Mithos - Histórias exemplares - Junho 2017
Afinal os cegos ilustram...
Objetos que contam histórias