quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

Como peixes dentro de água

Preparativos para a ecolocalização...
O Projeto 10x10 vai navegando pela Secundária Seomara da Costa Primo, por águas cada vez mais claras. Sucedem-se as avaliações que os alunos fazem das aulas, agora com nota máxima (pedras verdes). A articulação entre as disciplinas começa a estar mais fluída…e o artista mais descontraído. A fase inicial do projeto nas escolas é sempre mais delicada. Entretanto teve lugar uma aula especial em torno do sistema de ecolocalização dos cetáceos, aplicado à educação física. Tratou-se de uma adaptação, mais complexa, do jogo que apresentei com Ana Pêgo na oficina “Moby Dick” (Programa Descobrir/Gulbenkian). Realço o facto de ter sido uma aluna (Maria) a iniciar a aula com um aquecimento (ao som de música escolhida), partilhando com os colegas uma metodologia da dança contemporânea. 
 Começam a surgir os primeiros desenhos de peixes inventados 
ao lado das ilustrações feitas na aula de dissecação e ilustração
Trabalho em grupo: Em busca do peixe imaginário
Na aula seguinte, com a professora Helena Moita de Deus, lançámos o desafio que vai acompanhar o projeto até ao seu final: A invenção de um peixe, uma criatura imaginária, cientificamente coerente. Cada grupo criará o seu peixe “falso”. Os grupos constituídos na aula laboratorial de dissecação, mantiveram-se. Iniciámos o desafio com o visionamento de vídeos muito recentes da NOAA (Office of Ocean Exploration and Research – USA), dando continuidade à visita realizada pela turma ao ROV – Luso. Chamei a atenção para a importância de se construir uma criatura cientificamente viável, concomitantemente com uma argumentação sólida, capaz de questionar os projetos dos outros companheiros de turma. A ficha técnica da espécie, fornecida pela professora Helena servirá como ponto de partida para esta construção que terá a sua representação na aula de educação física, sob a forma de movimento. Os grupos darão corpo às diversas fisicalidades da espécie inventada, das hipotéticas danças nupciais, movimentos gregários, passando pelas posturas em atos predatórios e, talvez, mimetismo ou ainda, simbiose e comensalidade (…). Basta pensar no conceito de cardume para imaginarmos a turma nadando pela escola… (Já devem estar a perceber que nos vamos divertir na aula de educação física… 
 Podem facilmente avaliar o espírito da turma: alegremente ruidoso
 Lendo e registando as falhas...
Depois da corrida, nova leitura de parametros
Esta quarta-feira, na aula de educação física, voltámos aos cetáceos e à duração do seu mergulho e sistema circulatório, comparando com as características da nossa espécie. O Professor Nuno Resende, que distribuiu uma folha para registo individual de diferentes parâmetros, trouxe balões para que os alunos pudessem medir a capacidade pulmonar e  Esfigmomanómetros para medir o batimento cardíaco e a pressão arterial. Depois, no ginásio, seguiu-se um exercício prático muito interessante: “Correr e ler”. A par, os alunos foram convidados a ler um texto científico em que se descrevia o funcionamento do coração; o colega tomava nota de cada erro efetuado na leitura, em seguida, a media a tensão arterial. Depois o aluno, em corrida intensa, efetuava um trajeto que terminava junto à mesa onde o seu par se encontrava. À chegada voltava a medir a tensão arterial e começava a ler o texto, sempre vigiado pelo seu colega, que ia registando os erros de locução. Concluiu-se que, depois da corrida, era maior o número de falhas na leitura. 
 Adoro Matemática!
Nesta aula, como foi conduzida mais pelo professor Nuno, estive a observar os alunos e a interagir de uma maneira diferente com eles. A Larissa mostrou-me o seu "diário de bordo" (Caderno de campo), gostei do que vi e sobretudo do que li. Às tantas, um dos alunos começou a escrever no balão algumas fórmulas matemáticas, uma delas para resolução de equações. Perguntei-lhe porque o fizera. "Adoro matemática!" Respondeu. Judith Silva Pereira (a nossa observadora e "anjo da guarda") estava ao meu lado e gostou do que ouviu. É uma turma muito entrosada e comunicativa, portadora de uma personalidade muito forte: estou a aprender... Assim vem sendo o Projeto... 

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Mediação leitora inclusiva em Braga

Sessão da manhã com jovens da escola Pública
 Workshop sobre mediação do livro e da leitura
Segunda-feira dei o meu contributo na Semana da Inclusão na Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva (Braga) com uma oficina inclusiva da parte da manhã e um workshop (“Mediação leitora e necessidades educativas especiais”). Foi um regresso à Biblioteca dirigida por Aida Alves, desta vez não para uma recoleção de palavras, mas para trabalhar com a diferença e partilhar uma metodologia (e algumas ferramentas) com professores, educadores, bibliotecários, técnicos e mediadores culturais. Da parte da manhã desenvolvi a oficina “Dos sons nascem histórias” com um grupo variado: duas amigas cegas e um grupo de jovens com diferentes problemáticas, acompanhadas de duas professoras muito participativas, para além dos colegas da Biblioteca de Braga. Da parte da tarde conseguimos reunir uma mão cheia de interessados  no workshop. Correu tudo muito bem. Fica aqui uma palavra de apreço para a incansável Maria Peixoto – obrigado.
Objetivos desta breve formação:

  • Sensibilizar para a importância e o papel das bibliotecas como veículos de educação não formal, potenciadores de inclusão social;
  • Identificar o Leitor diferente;
  • Identificar o conceito de mediação leitora;
  • Sensibilizar para a importância do livro e da escrita como formas de valorização do individuo e para a criação de novas autonomias;
  • Identificar metodologias de aplicação da mediação leitora adequadas aos públicos com necessidades educativas especiais.
  • Partilhar algumas ferramentas de mediação
  • Analisar alguns livros existentes nas coleções das bibliotecas

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

Curso Inclusão, Escola, Bibliotecas

Ledmania: lendo as sombras com dedos luminosos...
Está decorrer na Escola Secundária António Damásio mais uma edição do Curso “Inclusão, Escola, Bibliotecas: Mediação Leitora, Educação Artística e Necessidades Educativas Especiais” (2016 – Centro de Formação António Sérgio) Registo de acreditação: CCPFC/ACC-85617/16. Formadores: Miguel Horta, Maria José Vitorino e Simão Costa. Laredo Associação Cultural. Esta ação tem como objetivo a apropriar ferramentas pedagógicas diversificadas para conhecimento mais atualizado e melhor intervenção junto dos alunos, em particular dos que necessitam de apoios educativos e sociais especializados, vulgo com NEE. Abordar diferentes metodologias de intervenção, refletindo sobre os vários caminhos que se apresentam ao professor, educador, técnico ou mediador cultural. Partilhar saberes que se vão adquirindo pelas práticas e pelo trabalho com estes alunos. Elaborar propostas de trabalho a desenvolver em contextos educativos formais. Contribuir para a afirmação de uma Escola mais inclusiva. Um curso com uma forte componente prática. Os docentes inscritos têm demonstrado um elevado nível de participação, testemunhado pelo invulgar número de intervenções on line, através da plataforma moodle do Centro de Formação António Sérgio”. Obrigado Simão Costa por mais uma bela tarde passada em torno do som. . http://www.cfantoniosergio.edu.pt/. Cfantoniosergio@esddinis.pt . 218310197
Simão Costa falando sobre o tablet como interface para a comunicação na diferença


quarta-feira, 23 de novembro de 2016

"Oficinas improváveis" na Rede de Bibliotecas de Torres Vedras

Um belo trabalho em contexto de Biblioteca Escolar
O professor de ensino especial regista a narrativa do aluno.
Bruna está atenta à história sonora, vai escrevendo a sua narrativa com ajuda de uma máquina de Braille
Ontem, 22 de novembro, foi dia de mais uma “Oficina improvável” no concelho de Torres Vedras. Trata-se de uma iniciativa da Biblioteca Municipal de Torres Vedras que envolve várias bibliotecas escolares e unidades de ensino especial em torno da leitura e da palavra. Com uma periodicidade mensal, estas oficinas intervirão junto das crianças e jovens com necessidades educativas especiais, promovendo a utilização do livro e de outros recursos das bibliotecas, numa perspectiva inclusiva. Depois de uma passagem pelo agrupamento de escolas Padre Vitor Melícias numa sessão inclusiva em torno das narrativas sonoras, ontem foi a vez de trabalhar com a unidade de ensino estruturado da escola Madeira Torres. Foi uma sessão intensa, propondo o trabalho em torno dos livros de imagem (álbuns) e partilhando algumas ferramentas de mediação. É importante promover o empréstimo domiciliário junto destas crianças diferentes.

terça-feira, 22 de novembro de 2016

10x10: Quem me dera ser robalo...

Os corpos envoltos nas batas brancas do laboratório misturam-se organicamente com a cor projectada.
 ("Dia Positivo" - Miguel Horta)
O projeto 1ox10 vai fazendo o seu caminho na Secundária da Costa Primo, não sem dificuldades, mas apontando já aquilo que constituirá a partilha final na Fundação Calouste Gulbenkian Numa aula de Educação Física fora do comum, resolvemos dar continuidade ao trabalho dos slides diretos ("Dia Positivo") iniciado no laboratório de Biologia. Propusemos aos alunos que trouxessem as suas batas imaculadas do laboratório e experimentassem o movimento no auditório da escola com as imagens projetadas sobre o corpo. Tenho a certeza que a Aldara Bizarro haveria de adorar a ideia…O resultado foi muito engraçado. De repente tinham a projeção em grande escala daquilo que haviam criado numa em muito pequeno. O Nuno Resende propôs que executassem movimentos orgânicos aos som de “arrival of birds” (Cinematic Orchestra) – um pequeno grupo começou a movimentar-se (dançou!). “Movimentem-se como uma célula!” Incentivou. Depois coloquei “Several Species of Small Furry Animals Gathered Together in a Cave” dos Pink Floyd, o que gerou uma reação imediata de um grupo de 5 rapazes afoitos que, no meio de risadas, fizeram uma série de movimentos afro animais – Gostei bastante! Um pequeno grupo influente ficou mais parado, numa evidente atitude de estranheza (surpresa)… Na avaliação escrita e anónima da aula, a maioria dos alunos achou a aula infantil, não entendendo a relação com a Biologia, chegando a afirmar que queriam educação física tradicional… Um terço dos depoimentos demonstra que alguns alunos vão entendendo os objetivos do projeto. Esta avaliação bateu forte e serviu para uma reflexão profunda sobre o desenvolvimento do projeto, realçando a necessidade de se explicar bem os objetivos e a essência do trabalho. Estes jovens (e famílias) estão muito formatados por anos e anos de ensino expositivo tradicional, seguindo metas estabelecidas pelo poder. Fazer medrar metodologias diferentes, criativas e colaborativas, no interior de uma turma bastante competitiva é uma obra exigente… Nesta aula, o sistema de avaliação com pedras verdes, amarelas e vermelhas ditou a predominância rubra. Mas na aula seguinte, Biologia, foi bem diferente. 

Helena Moita de Deus conduziu os trabalhos com mestria científica. Coube-me coadjuvar a aula em que foram dissecados diferentes peixes (nada que me atrapalhe...). Nesta aula partilhei alguns métodos de desenho para não-artistas. Como fazer um desenho (ou ilustração) de forma simples. Acho que gostaram das soluções simples. (Em miúdo dissecava alguns peixes que apanhava com a minha pequena cana de pesca para descobrir o que haviam comido, qual o isco a usar, e também para entender melhor como funcionavam aqueles fascinantes seres… ) Mostrei aos alunos os diferentes conteúdos estomacais dos animais analisados estabelecendo uma relação com a sua alimentação, territórios de caça, hábitos e reflexos na morfologia evidente destas criaturas. Peixes estudados: Solha, carapau, faneca e truta marisca. Amanhã será lançado o grande desafio desta edição do 10x10 na Secundária Seomara da Costa Primo. Logo, logo, vos revelaremos.
 
 

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Para que se encontrem, basta que ambas queiram

 No dia 18 de novembro, a convite de Filipa Oliveira, tive o prazer de orientar um encontro formativo sobre Museus e Escolas na Fundação Eugénio de Almeida em Évora. Foi um encontro muito concorrido, com professores participativos, intervindo bastante ao longo das três horas de formação que começou com uma visita/desafio à exposição temporária patente no museu. Na véspera escrevi o pequeno texto que aqui partilho convosco, sem saber que professores iria encontrar… Aproveito para enviar um abraço à Marisa Guimarães e ao João Pedro Mateus - obrigado pelo apoio que me deram durante a intervenção.
Uma instalação de Anna Maria Maiolino - "Entrevidas" 
(Parte integrante da exposição "Vantagens e Desvantagens da História para a Vida" - Curadoria de Paulo Pires do Vale).
 Esta instalação com ovos frescos faz a delicia dos visitantes e o afã do serviço de limpeza.
Encurtando a distância entre o museu e a escola
Como é que eu vos poderei convencer que um Museu é um recurso muito útil para o universo escolar? Por aqui, também lidamos com o conhecimento que nos é conferido pela coleção que dispomos. Até somos bastante rigorosos no que concerne à catalogação, conservação e dispositivos expositivos com que lidamos. Mas na partilha do conhecimento somos descontraídos, disponíveis e informais. É que por aqui, usamos metodologias não formais de educação, privilegiando a livre fruição pela coleção que dispomos. O grande desafio neste século de “modernidade líquida” (1) é ter a porta aberta à variedade do Mundo, pois o Museu é uma casa onde deve caber toda a gente! Ter a porta aberta à escola significa refletir na nossa programação as necessidades de partilha do conhecimento, não abdicando da linguagem própria dos museus - a Museologia. De uma forma simples poderíamos dizer que esta palavra significa organizar e disponibilizar a coleção, democraticamente, acessível a todos (2). Esta emergência da comunicação do conhecimento deu origem aos serviços educativos que por ali e por acolá vão dando voz a mediadores de museu (3). Não nos peçam para ir cegamente atrás das metas curriculares ou outras orientações emanadas do poder, pensem no museu como um espaço que vos pertence, lugar de experiências e apropriação do conhecimento ao ritmo natural de cada um de nós – o público. O museu permite o crescimento interior do conhecimento de forma holística, onde cada obra de arte é uma janela aberta para o mundo em todas as suas dimensões, incluindo a 4ª, o tempo de mão dada com o espaço. Cada museu, à semelhança de uma escola, tem pessoas reais que lá trabalham, possui uma coleção específica, tem uma determinada escala, situa-se num lugar específico e tem um estatuto social determinado; todas estas coordenadas definem uma personalidade própria, o que vai ditar o relacionamento específico com a comunidade envolvente. Quem se quer relacionar com o museu deverá conhecer esse universo – se a comunidade educativa quiser estar próxima do museu é só bater à porta. Os museus já estão a fazer o seu trabalho de casa, aproximando-se da comunidade educativa. Como o Tio Alberto sempre dizia: para que duas pessoas se encontrem, basta que ambas queiram. O grande aliado do professor dentro do museu é o mediador cultural (4)É ele que estabelece as pontes, prepara a visita, a oficina, a relação com a escola. Deverá refletir sobre a coleção e espelha-la no plano das intenções dos curricula. É um trabalho de investigação que merece todo o nosso respeito. O Mediador é o anfitrião, o facilitador de uma relação fluída com o museu. A par do ofício da mediação, a programação (sobretudo a educativa) assume um papel fundamental. Pode existir uma programação a pensar na proximidade. Se a matéria exposta parecer complexa, estou certo que a equipa educativa e os curadores conseguirão estabelecer pontes, fidelizando públicos e abraçando novos.
(1) Citando Zygmunt Bauman  
(2) Depois de uma resposta simples, o melhor é conferir com uma opinião académica:
“Conceitos-chave de museologia” por André Desvallées e François Mairesse  -Editores Bruno Brulon Soares e Marilia Xavier Cury
 (3) Conferir a visão de Medição Cultural expressa pela Mapa das Ideias no projeto Museum Mediators, aqui
(4) Denise Pollini, coordenadora do Educativo do Museu de Serralves, diz com imensa graça que não gosta da palavra “monitor” – os mediadores de museu não são monitores de televisão.

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

O que nos diz um retrato?

E se eu fosse Duval de L'Epinoy?
Pronto! Já está montada e testada a minha nova oficina “O que nos diz um retrato” (um belo nome escolhido pela Margarida Vieira), incluída no programa Descobrir/Fundação Calouste Gulbenkian dedicado a públicos com necessidades educativas especiais. A identidade interior como guia para esta nova oferta: O que nos diz um retrato? Para além da evidência do suporte e da técnica utilizada pelo artista, que histórias estão escondidas? Que narrativa está misteriosamente velada por um olhar ou por um gesto congelado no tempo? Como poderei criar uma narrativa pessoal a partir da observação de um retrato? Que efeito tem em mim esta procura e construção de uma narrativa pessoal? Para responder a todas estas perguntas vamos explorar as duas coleções do Museu Gulbenkian interrogando os retratos que aqui estão expostos. A última sessão será dedicada à concretização plástica de autorretratos concordantes com as narrativas que fomos construindo ao longo dos 3 dias. (do programa) Visitas dinâmicas, por vezes com um toque de narração oral, diálogo centrado na contribuição criativa do público. Dada a variedade de públicos e níveis de perceção e cognição diferentes, as ferramentas de expressão poderão ser variadas. Trata-se de uma oficina orgânica, adaptável e alterável de acordo com a “diversidade funcional” dos participantes. Quando alguém olha para nós adivinha as nossas histórias? Quem vê caras vê corações? Se eu te tirar uma fotografia fico a saber as tuas histórias? O que será preciso fazer para uma imagem contar a nossa história? E se eu fosse a personagem que está dentro da obra de arte? Conhecem a misteriosa história da rapariga do colar de coral?...Pois então, cá vos esperamos para vos revelar o segredo”.
Duval de L'Epinoy - pesquisa/desenho de um dos nossos meninos