quinta-feira, 25 de agosto de 2016

O Projeto "10x10" 2016 já está na estrada!

No verso da fotografia lá estava a dedicatória: "Um amplexo fanucho"
a lembrar que as "Palavras Marcianastambém passaram pela residência..
Acaba de terminar a última residência artística do Projeto 10x10 (Fundação Calouste Gulbenkian); é a quinta vez que esta proposta se repete, reunindo professores e artistas dentro da sala de aula, em busca de um novo caminho pedagógico nas secundárias do país. (vale mesmo a pena conhecer as edições anteriores). A mudança começa no desassossego da ideia, confirmando o cansaço e o insucesso dos modelos estafados. Mas para pensar algo novo, que contribua como uma golfada de ar fresco para a mutação dos modelos pedagógicos, implica uma grande dose de humildade, entrega e permanente reflexão sobre cada questão levantada ao longo do processo. É neste desafio que me incluo, sem reservas, talvez porque sempre acreditei nas miragens, ou porque este ano se comemoram os 500 anos da ilha de Thomas Moro. Vai-se lá saber das motivações de um artista… (dirão alguns). Apenas posso afiançar, de modo egoísta, que esta semana de trabalho numa das belas salas da Fundação Calouste Gulbenkian, realmente mexeu comigo, por dentro na minha prática artística, confirmando o compromisso social e educativo do meu trabalho. Conheci colegas/artistas novos e uma boa mão cheia de professores do ensino secundário, sobretudo a equipa com quem vou trabalhar na Secundária Seomara da Costa Primo (Amadora). Os que vão ficar mais longe, podem sempre contar comigo - sou fácil de encontrar… É sempre um prazer imenso estar com a Dina Mendonça que não se cansa de nos levar a pensar, com a magnífica Aldara Bizarro que sempre traz o corpo para o campo da educação (obrigado por me teres feito dançar de mãos dadas e olhos fechados) ou António Pedro que, com muito pouco (meios simples), nos ajuda a fazer surgir música e comunicação. Vieram outros colegas…como a Carla: perdemo-nos num arquipélago de almofadas, do qual só poderíamos fugir colaborando entre todos. A silenciosa Rosário Costa trouxe a simplicidade da interrogação, por isso aqui fica uma bela foto (com dedicatória) obtida através do método “Pinhole”, capturada no metropolitano de Lisboa. Retive as imagens das montras de Loulé, fixadas por Miguel Cheta, pois trouxeram um Algarve que estava adormecido dentro de mim, para o terreno da residência. Em cima de uma mesa ficou um coração de porco, palpitando…e não para! Não para… 
Ao longo dos próximos meses aqui vos darei conta desta nova viagem!
post scriptum: Temos uma fada chamada Judith...mas dessa falaremos depois... ;)

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

“A importância do brinquedo e do brincar para o desenvolvimento da criança" - Penalva do Castelo

A caixa do lixo
No dia 7 de Julho estive em Penalva do Castelo na sua Biblioteca Municipal num seminário sobre “A importância do brinquedo e dobrincar para o desenvolvimento da criança”, respondendo ao desafio lançado pela minha amiga Joana Pina. A sala estava cheia, com algumas caras conhecidas, lá estavam o Pitum e a Lira Amaral – o tema é muito importante! Gostei bastante de escutar a professora Marta Rosa (IAC) na sua reflexão acutilante e muito organizada. Fiquei fascinado com o trabalho de adaptação dos brinquedos para crianças com paralisia cerebral, apresentado por Fátima Vilaço e Elisabete Pereira da Associação de Paralisia Cerebral de Coimbra – ficou a vontade de me encontrar com estas duas técnicas para aprender mais um pouco sobre a técnica, com vista a uma possível adaptação ao campo da educação artística. A minha intervenção incidiu mais sobre a criação de estratégias lúdicas junto de crianças e jovens com necessidades educativas especiais. Antes de chegar à narrativa da prática em educação artística e mediação leitora junto da diferença, falei um pouco sobre o brincar. Discorrendo em jeito de memória: O primeiro brinquedo é o corpo – Um mamilo ou talvez a luz contra a transparência da pele. Brincar e comunicação fundidos num só gesto, repetido docemente enquanto se cresce. Outros primeiros brinquedos vão surgindo com diferente funções de estímulo sensorial – são rocas, na extremidade dos membros, seguras pelas mãos, que já serviram de brinquedo. O bebé tem à sua disposição uma miríade de brinquedos mediadores da perceção com o mundo. Alguns brinquedos tornam-se objetos transicionais, por serem contentores familiares de afeto, garantindo noites tranquilas. Por vezes os objetos transicionais são batizados (o Chico, o Ninon, o Nhônhô…), passam a fazer parte da família, mas têm uma função diferente na brincadeira. O tempo passa e aprende-se a usar o brinquedo, a brincadeira ganha sentido. E de repente o brinquedo é convocado para a grande dramatização do conhecimento que a criança vem construindo sobre o mundo: a interiorização das aprendizagens promovida pelo jogo simbólico, o faz-de-conta. Os brinquedos-atores são variados: os legos, as bonecas, até pedaços de madeira e cerâmicas toscas representando a família, dependendo da cultura de origem. Em 1980 fiz um percurso no interior da ilha de Santiago para conhecer a cerâmica cabo-verdiana. Quando cheguei a Fonte de Lima, entendi que para além do binde (bilhas tradicionais) existia uma grande quantidade de pequenos bonecos que tinham uma função específica: eram brinquedos que as raparigas adolescentes faziam em barro para os seus irmãos mais novos; na altura da cozedura da cerâmica adulta, elas aproveitavam a boleia para fazer essas preciosidades. Não havia Barbies, nem Playmobil, nem o maravilhoso Lego.
A minha preocupação tem sido mais com o brincar e com o brincador, esse mediador de sorrisos que tanto pode ser uma criança como um adulto ou jovem que se disponha a semear risadas participando no divertimento. Acho que a brincadeira ajuda a arrumar a cabeça – e isto é tão verdade junto de pessoas com necessidades educativas especiais. Ao longo da minha intervenção fui sugerindo a utilização de objetos comuns em brincadeiras com sucesso garantido, como as lanterninhas, os sussurradores, fui referindo o recurso a meios pobres na construção plástica e até de brinquedos (tenho um amigo que é carpinteiro) mostrei uma imagem da minha caixa de lixo que uso para trabalhar o corpo, a par de alguns exercícios de psicomotricidade… Enfim, ficou muito por dizer… Quero agradecer à organização pela oportunidade de participar numa sessão tão concorrida e viva. Como se diz na Beira: Bem-Haja 

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

Andarilhar com a Diferença!

"leituras diferentes" - Sintra - AEEFS
As Andarilhas estão quase a chegar… Nesta edição, a minha participação incindirá sobre a mediação leitora, contos e Necessidades Educativas Especiais. No Sábado dia 27, na Cerci/Beja, vou pegar nalguns livros e contar histórias. Pelas 15h vou estar com um grupo de amigos da Cáritas, caras conhecidas a obrigar a uma escolha afinada das histórias a contar… No dia 28 às 11h da manhã, terá lugar o maior desafio de todos – trabalhar com pessoas com paralisia cerebral. No domingo às 17h vamos ter oportunidade de trocar algumas ideias sobre este campo de trabalho, numa tertúlia que terá lugar na “Casa do Contador”. Quem estiver interessado em acompanhar estas sessões de narração e livros junto da diferença, poderá falar com a organização das Palavras Andarilhas – está prevista a possibilidade de alguns profissionais acompanharem este percurso. Lá vos espero em Beja!

Algumas referências sobre esta área específica de trabalho:
Um Texto

sábado, 13 de agosto de 2016

Ópera na prisão (30 de junho)

Foto: Fundação Calouste Gulbenkian
Foto: Fundação calouste Gulbenkian
Poderia passar uma noite ou um dia todo a falar de como o projeto “Opera na Prisão” de Paulo Lameiro e da sua equipa (Sociedade Artística e Musical dos Pousos) é importante, importantíssimo e aponta claramente o caminho da criatividade como forma de os reclusos se reencontrarem, de voltarem a estar sintonizados com a vida. Vale a pena saber mais sobre este projeto – existe muita informação disponível na net. Foi um privilégio fazer parte da equipa (Aldara Bizarro, Miguel Horta e Sofia Cabrita – Descobrir/Gulbenkian) que realizou uma oficina criativa dedicada ao grupo de jovens reclusos artistas que levaram à cena “D. Giovanni:1003 – Leporello 2015”. A nossa partilha foi composta por uma série de exercícios divertidos de corpo e movimento e por uma adaptação do modelo OVI (Olhar, Ver e Interpretar – sector educativo CAM/Gulbenkian). Trabalhámos duas peças: “Homenagem a Almada”, instalação de Maria Beatriz e “Ouve-me” um vídeo de Helena Almeida. Discreta, Adriana Pardal esteve sempre em cima do acontecimento, para que nada faltasse...Obrigado Leonor Nazaré por me aturares na procura de informação – acabei por mostrar um conjunto de imagens das peças de Maria Beatriz que ajudaram a contextualizar a obra, abrindo novos apetites. Gostei muito do momento em que o grupo alargado partilhou opiniões sobre a obra das duas artistas – afinal, quem tem medo da arte contemporânea? Os nossos participantes gostaram e eu diverti-me, como sempre. 
"Então isto é uma instalação? O que está escrito lá em baixo? Parece uma carta à mãe dela..."
Foto: Fundação Calouste Gulbenkian

sexta-feira, 12 de agosto de 2016

Nare faz voar um tapete

A vida corre tão veloz que às vezes não encontro tempo para vos dar conta em tempo útil de acontecimentos importantes. É o caso da nossa oficina de férias “Lugar habitáculo” que terá a sua próxima realização de 22 a 26 de agosto no Centro de Arte Moderna.  Como se pode pensar um espaço para que seja habitável? Qual o papel do nosso corpo nesse processo de pensamento e aprendizagem? Será que a nossa casa imaginária pode ser uma morada coletiva? O grupo será desafiado a construir coletivamente um espaço habitável, modular, móvel, feito a partir de materiais simples e leves como o cartão, onde a arquitetura e a escultura se confundem – um habitáculo-lugar sempre em transformação. Mãos à obra?! Os culpados são os do costume: Miguel Horta, Maria Remédio, Joana Andrade e Hugo Barata. A nossa primeira semana de oficina de verão correu-nos muito bem - gostei muito da construção da morada coletiva. Mas realmente o momento que mais me tocou foi a nossa visita à exposição “Kum Kapi: Tapetes viajantes”. Eu explico… No nosso grupo tínhamos duas crianças arménias, refugiadas, Nare e Vahagn, que pouco dominavam a língua portuguesa mas que acabaram por se entrosar na perfeição com as outras crianças. Quando entrámos na exposição de tapetes arménios deparámo-nos com um deles (criado por Mekhitar Garabedian, artista arménio, 1977- Alepo) onde figurava o alfabeto arménio. Ora nenhum de nós sabia soletrar aquela escrita estranha). Uma mãozinha tocou-me levemente, era Nare. Depois disse baixinho. “Se quiseres eu posso dizer o que ali está escrito…eu sei” E começou a cantar o alfabeto arménio, uma declinação melodiosa que a todos nos remeteu ao silêncio. A Maria Remédio gravou… E aqui vos deixamos esse momento de rara beleza.


Suavemente o tapete mágico levitou sobre as lajes da sala…

terça-feira, 12 de julho de 2016

Curso Laredo: Necessidades educativas especiais

Exercício de retrato
Está a decorrer na Escola Secundária António Damásio o curso Inclusão, Escola, Biblioteca: Mediação Leitora, Educação Artística e Necessidades Educativas Especiais promovido pelo Centro de Formação António Sérgio e desenvolvido pela Laredo Associação Cultural. Miguel Horta e Maria José Vitorino dão corpo a esta ação de formação que contou já com a presença de Simão Costa numa interessante sessão sobre as potencialidades do trabalho em torno do som (com recurso a tecnologia digital) junto dos alunos com necessidades educativas especiais. Um belo grupo, muito interessado, maioritariamente composto por Professores de Ensino Especial e Professores Bibliotecários, que tem aproveitado bem os espaços de comunicação horizontal, para lançar questões ou partilhar recursos. Este curso surge no seguimento da ação de formação desenvolvida recentemente no Instituto Nacional para a Reabilitação, e é o primeiro de muitos, nesta área específica, que a Laredo pretende realizar em diferentes pontos do nosso país.

quinta-feira, 30 de junho de 2016

Leituras em cadeia: Contar na prisão

Talvez tenha feito ontem uma das melhores sessões de conto deste ano letivo. Foi na escola do estabelecimento prisional de Tires com 36 reclusas e docentes, no contexto do Projeto Leituras em Cadeia. Num primeiro momento escutei as queixas das reclusas sobre a biblioteca do Pavilhão B. As residentes que tinham frequentado a biblioteca prisional do Pavilhão A (onde decorre o projeto Gulbenkian – “Leituras em cadeia”- dinamizado pela Laredo Associação Cultural) queixam-se da falta de livros e de condições para a pesquisa, afirmando que existem grandes limitações à circulação de livros entre a escola e o Pavilhão B. Referem, ainda, que a biblioteca do pavilhão A é mais agradável e organizada. Depois de alguma conversa lá começou a sessão com um momento inicial em que algumas reclusas de origem Guineense e cabo-Verdiana quiseram tirar dúvidas sobre a escrita do crioulo: dei alguns exemplos no quadro e falei do ALUPEC (Alfabeto unificado para a Língua Cabo-Verdiana). Finalmente chegaram os contos! Num diálogo quase horizontal fui dando exemplos de diferentes formas de narração oral: do conto cantado, ao conto com livro na mão, conto tradicional, conto rimado… Contei duas curtas histórias sobre almas penadas (passada em cabo Verde) e outra sobre duas navalhas enfeitiçadas (Jorge Luís Borges) que recolheram o aplauso de todas as residentes da prisão de Tires, presentes na sessão. Não é que estas mulheres me acompanharam cantando o “Vamos à caça do Urso” (um divertido livro para crianças de Michael Rosen - vale a pena ver e escutar o autor!)? Correu muito bem! Bom ambiente no encerramento de ano lectivo na escola do estabelecimento prisional. No Verão, além da vertente formativa e da ilustração, prosseguiremos no caminho das formigas, de qualificação dos meios e dos serviços da Biblioteca, diariamente presente para todas as residentes (reclusas). Mas de tudo isto, vos iremos dando notícia.