segunda-feira, 8 de novembro de 2010

A "Máquina da poesia"

Foto cedida pela Rede de Bibliotecas de Almada
Cumprindo apromessa que fiz durante o encontro Eterna Biblioteca em Sintra, aqui fica a prática referida durante a nossa manhã agitada...
O mais interessante de uma receita é ela ser ponto de partida para novos cozinhados a pensar em comensais específicos. Vem isto a propósito da metodologia que uso em “a máquina da poesia” que pretende trazer gente reticente para o terreno da escrita e da leitura de poesia. Ponto de partida, a leitura atenta de "70+7 propostas de escrita lúdica", de Margarida Leão e Helena Filipe (Porto Editora), um livro bem útil para mediadores do livro da leitura e da escrita. Daqui surgiu esta forma de actuar que tenho aplicado com crianças, jovens e adultos em diferentes contextos, das prisões aos bairros “problemáticos” passando pelas bibliotecas públicas e escolares. Um método simples mas que necessita energia mediadora numa interacção afectiva com o grupo de participantes.
Aposto sempre com Eles que os consigo transformar em poetas em 30 minutos! Sucedem-se sempre as expressões incrédulas… Então apresento a minha “máquina da poesia”, que desenho numa folha de papel de cenário, afirmando que se trata de “um mecanismo muito sofisticado”. E lá aparece um grande rectângulo vazio desenhado no papel. Afirmo que a máquina é formada por várias partes e completo o esquema:
Como se pode observar a divisão 3 encontra-se subdividida.
-De que é composto um poema? Que matéria-prima deveremos colocar na “máquina” para produzir poemas? Com que é que funciona esta “máquina”?
-Palavras! Claro. É preciso introduzir palavras.
Peço a cada participante que introduza uma palavra (um nome, substantivo, personagens, espaços, objectos…) na primeira divisão (casa 1): dou o exemplo com a palavra “Palavra” e acrescento “poeta”, “sol”, “onda”, “ideia”… (por exemplo). Com a ajuda de um marcador grosso cada participante escreve uma palavra. Explico de seguida que a casa 2 será ocupada com verbos, a casa 3A de novo com nomes à semelhança da casa 1, a casa 3B com nomes abstractos (exemplifico com: “sabedoria”, “Amor”, “coragem”, “sabor”, “inteligência”…) e a casa 4 com adjectivos.
Ficamos com o quadro preenchido, fruto do contributo de todos.
Claro que as palavras mudam consoante os grupos. Alguns “engraçadinhos” colocam “bagaço” na máquina…mas ela não avaria…
Então dou um exemplo usando o quadro transversalmente para criar uma frase poética: “gato sonha na escuridão amiga” ou “poeta beija livro secreto” (…). Proponho que brinquem com as diferentes hipóteses, mesmo que pareçam estranhas. Poderão colocar artigos e preposições, alterar o tempo dos verbos e, até alterar a ordem do quadro (tabela). E não precisa de rimar para que seja uma poesia.
Acompanho todo o processo de ida ao quadro à procura de palavras e respectiva escrita, puxando aqueles que têm mais dificuldade ou explicando como um nome abstracto se torna num adjectivo (Ex: sabedoria – sábio). Entretanto os “engraçadinhos” já escreveram “Bagaço faz o escritor tonto”… previsível... Proponho que pensem noutra versão: “Bagaço derrota conhecimento profundo”. Porquê? Pergunto. Neste ponto do trabalho é importante que o mediador esteja no meio dos participantes de forma muito atenta. Existem momentos pedagógicos que não se podem perder, nem que seja para explicar a ortografia de uma palavra ou levantando a auto-estima de um participante.
Peço escolham as cinco melhores frases que cada um escreveu. Fazemos então uma leitura em voz alta. Nesse ponto chamo a atenção para as imagens que são convocadas pelos textos, esse é o cerne da poesia: os largos horizontes…não é necessária a rima: Imaginem o desenho que fazem na cabeça!
Proponho ainda mais dois exercícios:
-Quem escreveu versos com golfinhos? - pergunto. Juntamos todos esses versos encadeados num só poema e é feita uma leitura em voz alta. O resultado é muito engraçado.
-Quem escreveu frases com a palavra Amor? - Repete-se o procedimento perante o olhar surpreso dos participantes…tudo em 30 minutos. Vejam lá se eu não ganhei a aposta….
De seguida pego num livro de Haiku japonês e leio… São parecidos com os nossos poemas! – Alguém diz. Pois são…
Como última sugestão, desafio aqueles que não gostam assim tanto de escrever que ilustrem as melhores frases saídas da sessão. Mais tarde, este material poderá ser publicado no blogue da biblioteca escolar ou noutro qualquer suporte.
Na Biblioteca Municipal de Beja, a 21 de Março de 2010, Dia mundial da poesia, os poemas produzidos pelo grupo participante foram “atados” às patas de pombos correio e enviados para freguesias distantes da cidade onde outros autores os receberam lendo as mensagens poéticas (projecto Columbina). Pouco depois, era a vez dos primeiros poetas receberem frases vindas das freguesias da periferia.


13 comentários:

  1. Excelente trabalho, Miguel. Vou começar a cozinhar no sentido da poesia. Caminho paralelo já fazia com as "fábricas de histórias".
    Obrigada por partilhares e não esqueceres esta "militante" da animação das escritas e das leituras comunicantes.
    Teresa Macara

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    1. Que tal tem sido a utilização da "Máquina"?

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  2. É esse o sentido deste "post": Partilhar. Pegar numa metodologia e desenvolver. Poisar no chão e esperar que o outro/a a pegue, acrescentando o sabor do fazer, directamente no terreno.

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  3. Para vossa informação...já visionaram este post 110 pessoas: Boa Poesia!

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  4. Vim de imediato procurar esta máquina que me parece extraordinária.
    Vou usá-la,posso?

    Deixo um sorriso

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    1. Que tal correu a aplicação da "Máquina da poesia"?

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  5. Cristina Fidalgo: Pode usar a minha "máquina"! Peço-lhe só para referir a fonte ou colocar um link. Um abraço.

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  6. "O beijo sincero que o vento leva."
    "A sombra da alma que não nos deixa ter esperança."
    "A voz dele faz-me desejá-lo ainda mais(do que o desejava), mas a incerteza é ainda mais traiçoeira."
    Estas foram as frases que eu nunca pensei que consegui-se nalgum dia.
    Adorei a aula :)
    Obrigada por ter vindo.
    Ass: Aluna da Escola Secundária de Carregal do Sal

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    1. Gostei muito da vossa turma!!! Amanhã lá estarei na escola com a máquina a funcionar. beijos.

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  7. Miguel Horta, como professora de LP, participei em ações da Margarida Leão e Helena Filipe, desenvolvi com os alunos "coisas" deste género... Mas não é a mesma coisa! ;-) Na manhã desassossegada de sábado, na Fundação Saramago, na qualidade de participante de um momento dinamizado por ti..., tudo ganhou novos sentidos! Gostei muito! Obrigada!!!

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    1. Belo legado que estas duas pedagogas nos deixaram... Obrigado Manuela!

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  8. Muito interessante, como motivação para que as crianças e os jovens caminhem ao encontro da poesia.

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    1. Muito obrigado.Entretanto a "Máquina" tem evoluído com diferentes aplicações. Se procurar através da caixa de pesquisa vai encontrar uma variedade de utilizações ... Até em estabelecimentos prisionais e junto de jovens com necessidade de atenção especial...

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