terça-feira, 27 de abril de 2010

Agora que minha filha visita os "Dias cinzentos"

Foi hoje que me lembrei de Mário Dionísio. Sim! O tal dos "Dias cinzentos" que li com gosto na minha adolescência. Mas foi numa dessas tardes em que os plátanos espalhavam o seu verde junto com a sua sombra alongada pelo pátio do liceu que, pela primeira vez, a imagem do homem se construiu dentro de mim... Estávamos nos "anos setenta".
Entrou na sala onde Eduarda, sua filha, nos estava a dar uma aula. Levantámo-nos respeitosamente, era assim que a "coisa" se fazia naquela época, e discreto ocupou um canto da sala. Era uma aula de Francês, com a pronuncia afinada com o " Le pelican de jonathan". Passsámos de seguida para a leitura de um texto...não me lembro qual (poderia até ser Jacques Prevert, poeta que Eduarda Dionísio muito apreciava e me ensinou a gostar).
Todos os alunos deveriam ler o techo do texto numa leitura pausada. Eduarda deu uma sugestão bem precisosa para os dias da minha vida logo ali no 5ºano (9º actual) : umas pequenas marcas a lápis, fora do território das vírgulas dariam o espaço para uma respiração ou pausa fundamental para uma melhor expressão na leitura. Quando chegou a minha vez, o nervosismo era muito e senti um hálito perfumado de cachimbo. Mário estava por detrás de mim, qual ponto, repetindo baixinho o texto a cada sobressalto meu. Num atropelo de palavras tropecei. Mário poisou a sua mão no meu ombro restabelecendo a calma. Então venci aquele parágrafo em Francês numa agilidade nunca imaginada. Ainda me lembro do calor da mão, junto com o seu peso.
Anos depois, encontro-me no balcão da "Casa Varela" no meio das minhas compras de pintor. Mário está lá, percorrendo o espaço com os olhos irrequietos, sua postura singular. Cumprimento-o, dando-lhe as minhas latitudes: pinto, conto-lhe. Não perde tempo e pergunta-me sobre a durabilidade dos pigmentos "Sabu", o chamado "acrílico dos tesos". Dou a minha opinião, encostado ao balcão de madeira, espantado por aquele homem que considerava "mestre" (não gosto nada do termo) pedir conselho a um jovem, tendo-o como igual.
Fragmentos...depois, o que lemos ajuda a construir aos poucos a imagem total...

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Abraça-me!

Cada vez que fico em Vila Nova de Cerveira por causa do projecto "Tásse a ler", durmo na casa do artista. O meu quarto tem diversas obras de arte na parede...gosto muito daquela divisão da casa. Em frente à cama, esta intervenção de um artista convidado. Levo sempre este abraço comigo.

sábado, 17 de abril de 2010

Fantasmas em Portimão



Durante duas semanas estive pelas Bibliotecas Escolares de Portimão. Todos prepararam muito bem a minha visita: leram os livros em profundidade pensaram o diálogo comigo. Reescreveram as histórias nas suas múltiplas possibilidades, desenharam, fizeram peças de teatro e tantos outros trabalhos... Perguntaram muito sobre o mar...
Uma forma de trabalhar exemplar! É impossível dar conta aqui de tudo o que foi feito e me emocionou profundamente; com este outro significado acrescido: Portimão é terra de origem da minha família. E que dizer do Bibliotecário Joaquim sempre presente com aquela energia sorridente? Também a Biblioteca Municipal Teixeira Gomes (um escritor de referência no meu imaginário) está de parabéns.
Simbolizando estas duas semanas felizes no Barlavento deixo-vos os meus fantasminhas da turma C da escola Major David Neto. Naveguem pela página destes pequenos leitores que até envolveram os pais na grande produção da sua peça. Entendem o que eu senti?

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Coração


"Coração" - acrílico, peça e resina vinílica sobre tela - 125x180 - 2005

O coração
sabe sempre o seu lugar
magneto simples e pleno
indicando o Norte
sideral

(Miguel Horta in "Transversais")

quinta-feira, 8 de abril de 2010

"sem título"

"sem título" - acrílico e resina vinílica sobre tela
38x48 - 2008 - colecção particular, Ericeira

Esta também é a casa da pintura, o halo que une e dá sentido.

terça-feira, 6 de abril de 2010

Columbina

Foto: Pedro Horta

No dia mundial da poesia o Projecto Columbina ganhou finalmente asas percorrendo os céus de Beja numa iniciativa da Biblioteca Municipal. Antecedendo a "solta" dos pombos, tiveram lugar oficinas de escrita criativa em que o mote foi a poesia. Nas aldeias de Salvada e Santa Vitória as crianças reuniram-se em torno da Máquina da Poesia e fizeram os seus poemas em pequenas folhas de papel, para serem atados às patas dos simpáticos animais voadores. Também na Biblioteca de Beja um grupo de pais e filhos fizeram o mesmo com resultado surpreendente. No primeiro dia de Primavera, logo pela manhã, juntámo-nos na escadaria da biblioteca com os nossos amigos columbófilos e seus animais. Lemos os nossos textos e com um pequeno elástico prendemos os poemas às patas dos pombos;  a uma hora combinada os bichinhos foram soltos descrevendo uma curva no céu. O mesmo aconteceu nas aldeias com a gente reunida no meio da praça. Fomos então para os pombais para receber esse correio tão especial, escrito por gente que não conhecemos. Em Beja estive na Aldeia Columbófila junto com outros 35 participantes, todos de nariz no ar espiando a chegada dos pombos. Lá vem um! O columbófilo faz soar o seu apito e o pássaro poisa no pombal. Com cuidado retiramos o pequeno papel dobrado. (na imagem, estou de pombo na mão antes de recolher a mensagem - uma bela foto cedida pelo Pedro Horta). Depois lemos o poema aos presentes. Estamos a preparar um pequeno jornal da iniciativa com poemas e depoimentos de Columbófilos e participantes. Nada disto teria sido possível sem a dinâmica da equipa da Biblioteca de Beja e a energia de Cristina Taquelim, sempre com a preciosa colaboração de Nelson Batista, técnico de biblioteca e columbófilo.
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