quarta-feira, 23 de junho de 2010

Dragões!

Miguel Horta - ilustração para "Os dragões das Furnas" ("Dacoli e dacolá")
Já contei melhor....

quarta-feira, 16 de junho de 2010

E agora?...Podemos ler o mundo?

Foto de Rita Pedro (Moinho da Juventude - "Eu sou Tu")

-O que é ler o Mundo, Avô?
-É entender-lhe os sinais espalhados um pouco por todo o lado.
-Mas todos os lados não cabem aqui no nosso pequeno quintal...Se calhar teremos que procurar noutro lado?...
-Pois...
- Já sei! Encontramo-lo no computador do mano ou na televisão.
- Ou...talvez num livro... – disse o Avô


E de repente, ler deixou de ser uma tarefa apenas lúdica, trazendo consigo laivos de um prazer primordial que só o nosso silêncio interior pode descrever.
Ler passou a ser luta, necessidade de viver, factor de integração e arma secreta numa ascensão social muda, lenta mas imparável.
Ler, abriu horizontes de imagens a pessoas atentas às palavras que no seu recolhimento iam construindo filmes rolando a toda a velocidade, projectados no córtex da imaginação, onde o autor é só uma espécie de argumentista e pretexto para um guião.
Ler, largou a gargalhada e o gozo no entendimento do jogo ou na subtileza da piada e, sem darmos por nada, ler deixou também a alma desgraçada, encalhada como um barco num recife de tristeza.
E ler transportou consigo outras emoções e lembranças, da menina das tranças e dos cheiros do pão de ló da Avó que já não ouve mas lê as receitas de óculos encavalitados sobre o nariz adunco.
Eu li! Eu li os recados da mãe para não me esquecer do pão. E li a ordem do patrão num ofício amarelado. Eu vi-me atrapalhado com as pequenas letras dos contratos que me deixam farto... e lá entendi a bula porque me doía um dente. E enviei mails a toda a gente anunciando como um rei o nascimento do Vicente...e todos os amigos leram alegremente nos ecrãs de plasma digital este pequeno dia de Natal.
E para dizer a verdade eu estou farto de ler os testes psicotécnicos, não os vou preencher! E o professor que me desculpe mas substituí o exame por um poema. Não rima! Mas é sincero: Tas a topar meu? A coisa que eu mais gosto de ler são as mensagens da chavala, ali preto no branco em Times Romano Bold para encher a minha vida de Amor logo pela manhã. E quando o meu filho nascer eu quero que saiba ler a palavra Pai, pois tenho lido muito sobre ela, sem a entender.
E Sónia na solidão da cela, lendo um retrato que não é seu, mas de um homem, Dorien, tão igual a outros que conheceu, tão vaidoso...vai treze: tão violento afinal...
Mas porque é que até no sexo devemos saber ler nas entrelinhas?
Eu agora só quero que me leias um livro em voz alta e me ames depois pela noite dentro, pois hoje é fim de semana!
E sempre aquele sabor a leite com chocolate cada vez que me lembro do corsário escarlate da colecção Emílio Salgari: Juro que li e estava com febre, privilégio de quem se encontra confinado com um livro ao seu lado por imposição da maleita.
“E eles nem sabem nem sonham que o sonho comanda a vida e sempre um homem sonha o mundo pula e avança como bola colorida nos braços de uma criança.” Yô! O Gedeão mora lá no fundo do bairro, batendo sílabas sempre entre dentes, sedentos de poesia numa ilha feita gente. É uma forma de leitura reconhecida pelos os residentes...
E ler impele as crioulas “mais velhas”cansadas subindo a calçada do Moinho para aprender a ler o português na Biblioteca e trazem seus lenços garridos de badia amarrando promessas no cabelo crespo.
E que dizer daquela criança que entretanto descobriu que os livros contêm histórias, mais interessantes que as do televisor, substituindo a Avó que de cansada adormecera, embalada nos contos que em tempos escutara?
E aqueles outros que são tão estranhos que nos parecem tão familiares? Sim, os deficientes. Quem disse que as suas mentes não lêem um mundo normal?
E eu que tenho que mediar o livro com o poder tranquilo dos afectos, adivinhando pelo brilho do olhar o futuro leitor parado à minha frente.
Ler, trouxe consigo o escrever, afirmação gráfica de vontades por estabelecer, fidelidade a vozes que surgem lá do fundo sem explicação, ditando um novo parágrafo ou uma opinião.
E leio o romper do sol em cada dia que renasço só para entender este Mundo onde agora me acho.

-Avô?... Podemos falar agora sobre o Mundo?

(Texto para o encontro da "Casa da Leitura" Fundação calouste Gulbenkian  2009)

terça-feira, 8 de junho de 2010

Guardadores de memórias

Não é novidade para ninguém...Gosto de trabalhar com famílias! E quando isto acontece no museu, melhor ainda. Foi bem engraçada esta oficina que fiz com a Vera Alvelos, os "Guardadores de memórias"; uma outra forma de viver o museu, um programa diferente no fim de semana em que todos podem participar. Esta mossa dupla vai apresentar no Centro de Arte Moderna uma oficina para crianças em tempo de férias: "De casa às costas" . Estejam atentos às inscrições.