quinta-feira, 30 de setembro de 2010

"Recolectores de palavras" vistos por Catarina Rolim

Fotografias cedidas pela Biblioteca Municipal D, Dinis
"No passado dia 25 de Setembro realizou-se o Atelier «Recolectores de Palavras», integrado no projecto da Direcção-Geral do Livro e das Bibliotecas, com a intervenção de Miguel Horta na promoção da leitura e da imaginação. O artista plástico orientou os cerca de 25 participantes, na sua maioria, pais e filhos, numa recolha de palavras, pelo centro histórico de Odivelas, partindo da Biblioteca Municipal D. Dinis. Preparados com folhas de papel, lápis de cera e grafitte, os quatro grupos começaram a sua recolha dentro da própria biblioteca. Pelo caminho, tudo serviu de inspiração: sinais de trânsito, placas de identificação de ruas, tampas de esgoto, marcas de automóveis, caixas de correio, anúncios e jornais. «Desafio-vos a entrar na funerária, terão uma surpresa», declara Miguel, «porque quem lá está também são pessoas». «Paz e mãe» foram as palavras favoritas e recolhidas, e o percurso continuou, por cafés e restaurantes, pelo Largo D. Dinis e pela Associação Recreativa Ajax. Entrando numa mítica casa de petiscos, na Rua do Neto, muitos símbolos e palavras se encontram. «Nunca tinha entrado aqui», referem algumas mães. À florista da R. Guilherme Gomes Fernandes segue-se o café do Odivelas Futebol Clube, regressando à Biblioteca Municipal. Na sala polivalente, o papel de cenário é esticado no chão: formar poesia com as palavras recolhidas. No fim, Miguel Horta autografou alguns exemplares de «Dacoli e Dacolá», o seu mais recente livro infanto-juvenil."
Catarina Rolim in Jornal de Odivelas

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Luzes

Acrílico sobre tela - 120x175

Palavras marcianas

Tenho um carinho muito especial por esta oficina pois foi a primeira a ser integrada no programa de itinerâncias da DGLB, pensada na Beira Alta (Vale de Madeiros) e ensaiada na Biblioteca de Mangualde. Conferida pelos meus pares nas primeiras "Palavras Andarilhas" em que participei.
Trata-se de um jogo em torno dos dicionários, com duas equipas que enviam mensagens em banda desenhada entre elas. Ora vejam:
"Os Marcianos chegam à Terra e falam com palavras muito estranhas…
São palavras difíceis e pouco comuns do Português. É caso para dizer: Que língua é essa tão estranha que me é tão familiar? …Obtuso, Empedernido, Ocaso, Afoito,Lesto... Eis alguns vocábulos que os nossos marcianos utilizam, deixando-nos completamente baralhados. Que farão os habitantes da Terra para entenderem estas criaturas? E como farão para comunicar? Na biblioteca existe um livro mágico que vai salvar a humanidade: O Dicionário!
Num primeiro momento o mediador explica os fundamentos do jogo, dividindo o grupo em duas equipas. A equipa Marciana terá que emitir mensagens em Português difícil com a ajuda de um dicionário. As mensagens serão enviadas em folhas A4 onde figura um simpático alienígena com um balão de banda desenhada a ser preenchido com a comunicação. A equipa Terrestre, que descodificará as mensagens recebidas com a ajuda do “livro mágico”, terá que responder em Marciano, para que os nossos simpáticos visitantes os possam entender. Esta equipa usará uma outra folha A4, onde aparece uma menina terrestre com um balão de BD pronto para ser preenchido com as suas mensagens. Será um vai e vem de mensageiros entre os dois grupos, instalados em locais diferentes da biblioteca.À volta da mesa, uma azáfama, folheando aquele livro gordo: -Estás atónito? (Estás espantado?) Eu aprecio-te muito! (Gosto muito de ti!) Dá-me um ósculo! (Dá-me um beijo!)
No final, o grande encontro entre “Terráqueos” e “Marcianos”. Colam-se as folhas do diálogo, em sequência, numa parede, dando corpo a uma pequena banda desenhada.
Sobre a actividade…
Usando o jogo colectivo como método, parte-se à procura da língua Portuguesa, de acordo com o grau de maturação de cada grupo. Para um nível etário mais baixo, dos 10 aos 15, os objectivos corporizam-se na descoberta de novos vocábulos e sua grafia, a par de todo o debate que aos poucos vai nascendo sobre o significado e sentido das palavras. Com esta actividade também se promove o hábito e o método de pesquisa, tão importante para outras aquisições futuras, ao desvendar o “código de acesso” que o dicionário impõe. Quanto aos adultos, considerando um universo de estudantes, professores e bibliotecários, outras reflexões poderão ocorrer, pensando nesta ferramenta como ponto de partida para uma conversa sobre a língua Portuguesa:
- O dicionário como livro de “autor”, propondo uma visão unilateral da língua Portuguesa.
- O dicionário como instrumento normalizador da língua.
- Como escolher um dicionário?
- Que relação entre este livro e uma pesquisa na Internet?
- Que actividades posso promover à volta do dicionário?
Direitos reservados SPA 17777

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

3 ilustrações do ateliê de Maria Keil

No outro dia, andei a remexer o baú dos trabalhos antigos e dei com algumas ilustrações feitas no ateliê de Maria Keil no princípio dos anos oitenta...

Minha querida fotocopiadora

 Exploração das capacidades expressivas de uma fotocopiadora a preto e branco, criando imagens e inserindo textos. Num primeiro momento, o animador explica que aquela máquina que ali se encontra pode ser usada de forma criativa, pouco habitual. Retirando do bolso alguns objectos, exemplifica, tirando uma cópia. Partes do corpo podem também ser fotocopiadas; as brincadeiras com o rosto e as mãos são sempre divertidas. Segue-se a procura de objectos, plantas (...) que caibam na nossa experiência. Embora o monitor tenha uma “caixa de recursos”, valorizam-se os achados feitos no espaço cultural, pois permitem ir conhecendo aquela grande casa com o pretexto da busca. Até a peça mais comum dará uma cópia interessante. Depois, poderemos transformar as nossas cópias em ilustrações, com recurso a lápis de cor e marcadores de cores suaves. Como temos uma imagem, porque não encontrar um texto para a acompanhar?
Direitos reservados SPA 17777

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Reflexos

 Ao princípio da tarde chegam na carrinha que os vai buscar às aldeias. São caras conhecidas; já antes trabalhei com eles na oficina “Vestidos com Arte” (em colaboração com Tânia Franco). Agora o trabalho é diferente, um pouco mais profundo, em direcção ao Eu. A oficina “Reflexos” trabalhou durante uma semana o conceito do Eu e do Outro em sessões intensas, em que o retrato e auto-retrato foram as ferramentas de base. Partiu-se da identificação do Eu para chegar ao “esquema corporal”, onde vive a diferença entre mim e o outro. Todo este trabalho dedicado às Necessidades Educativas Especiais foi desenvolvido em colaboração com Cláudia Sousa, animadora social (companheira de estrada de longa data), inserido no projecto Ideia.pt* (Progride -Vila Nova de Paiva). Trabalhou-se em frente ao outro e em frente a nós, graças ao professor João que disponibilizou a sua sala forrada de espelhos…aí começou a aventura do auto-retrato. Também se desenhou o amigo que se senta na frente, identificando os sinais que o fazem tão particular. Terminámos a semana pintando auto-retratos sobre tela, à nossa maneira. Mas será sempre difícil transmitir todos os momentos e afectos que povoaram estes dias que havemos vivido.
(*) O projecto Ideia.pt encerra no final do mês de Setembro, deixando um mar de possibilidades por acontecer, especialmente no que diz respeito ao trabalho com as famílias.

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Espinha Azul

"Espinha azul" - acrílico e espinha sobre tela - colecção particular

domingo, 12 de setembro de 2010

António da Hora


Em tempo de Andarilhas, aqui fica mais um registo feito pelos meus amigos do Memoriamedia. É pena o som estar baixinho.

Filactera, meu Amor!

A linguagem da banda desenhada como aliada na promoção da escrita e da leitura
Divirto-me imenso a fazer esta oficina! Quando os participantes entram na sala, já três grandes folhas papel de cenário estão afixadas na parede. Começo por interagir com os jovens, utilizando a simbologia da B.D., desenhando na grande folha de papel. Seguem-se as diferentes expressões do rosto. A cada nova expressão, peço ajuda aos participantes para que escrevam, em “ português de lei “, a palavra que define aquele estado de alma, naturalmente, um adjectivo. A seguir, surgem os balões de banda desenhada (as “filacteras”) traduzindo cada um, uma situação específica. Também aqui, os participantes são convidados a escrever os conteúdos dos balões vazios. Por fim, as diversas expressões onomatopaicas que habitualmente acompanham as personagens, todas traduzíveis em português regular: Aqui o desafio é encontrar o verbo correspondente a cada expressão: ÃO! ÃO! (ladrar). MÉEE...MÉEE (balir). "TIC!TAC!...sabe o verbo do relógio? E sabia que o elefante "brame" ou que o corvo "crocita"? No fundo, a Banda Desenhada acaba por ser um pretexto para melhorar o léxico ao longo de 90 minutos divertidos. Estimula-se o debate à volta do significado dos adjectivos e procuram-se verbos que traduzam o sentido das onomatopeias. Uma actividade lúdica, de cooperação, em que a aprendizagem é feita por meios não formais.

(Oficina integrada no programa de itinerâncias do IPLB)
Direitos reservados SPA 17777

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Sebastião sonhador

Sebastião sonhador e seu irmão mais novo conversavam no quarto contíguo ao do pai.
Eles não tinham sono e, do outro lado da parede fina, o pai tentava dormir, moído pelo trabalho do campo.
Mas as crianças não paravam de falar, num desassossego de grilo conversando na noite.
Sebastião contava a André a visão que tivera de um apicultor retirando favos recheados de mel, das colmeias instaladas no outeiro, bem ali ao lado da casa. E rematava:
- Quando for grande também vou ter colmeias. Ponho todas as abelhas a trabalhar para mim!
Vou começar por uma colmeia, depois vou arranjar outra. Depois de algum tempo já deverá dar muito mel…
E o irmão pendurado na descrição de Sebastião, de olhinho a brilhar, visualizando a ideia toda...
Continuava Sebastião:
- Ao fim de um ano já terei umas dez colmeias! Já imaginaste André? Já imaginaste, as colmeias a abarrotar, e frascos, e frascos de mel a correr doce?…
O irmão sem resistir começa num berreiro:
-Dá-me um bocadinho Sebastião! Dá-me um bocadinho!
O pai, que não conseguia dormir no quarto ao lado, soltou o seu vozeirão:
- Dá mel ao teu irmão, Sebastião! Não sejas garganeiro!
(Uma história que o meu Avô apicultor costumava contar junto à lareira - Algarve)

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Poesia ilustrada

Oficina de promoção da poesia para a infância com recurso a ilustração “ao vivo



O ilustrador/mediador faz uma primeira leitura do poema, interagindo com as crianças que o rodeiam. A mesa onde ele está sentado, tem grandes folhas de papel e um marcador, à espera de serem utilizados.
-“Vou precisar da vossa ajuda para ilustrar este poema”. Aos poucos vamos analisando o poema em conjunto, falando sobre o significado e a grafia das palavras.
No final, a ilustração é entregue aos participantes para que a completem e enriqueçam com cor. Uma cópia do poema será dada ao professor, para uma releitura na sala de aula, relembrando a manhã passada na Biblioteca e a mensagem das palavras. Uma mesa da biblioteca tem sobre ela uma série de livros dos autores trabalhados para empréstimo domiciliário.
Autores: Fernando Pessoa, Tossan, José Fanha, António Torrado, Matilde Rosa Araújo, Luísa Ducla Soares, Virgínia Gomes, Miguel Horta
Duração: 60 minutos
Público alvo: 5 aos 9 anos
Na Biblioteca de Pombal e no Espaço do Tempo (Montemor o Novo) fez-se esta actividade dedicada à família com assinalável sucesso, embora estruturada de forma diferente.
Direitos reservados SPA 17777

sábado, 4 de setembro de 2010

"Do interior da rocha"

"do interior da rocha" - 140x120 - acrílico sobre tela - 1989
Dei com esta pintura minha num site de uma conhecida casa de leilões. Uma peça da exposição "Territórios" (Galeria Novo Século - 1989). Já deve ter mudado de mãos...

O tempo das palavras

Uma oficina onde se promove a escrita imaginativa através de recursos pouco frequentes e descontraídos.


É composta por diferentes momentos de escrita imaginativa na sequencia de outros tantos desafios:
Posso começar por apostar com os jovens que os vou transformar em poetas em 20 minutos! Claro que eles não acreditam…então aparece em cena a minha “máquina da poesia”. Posso trazer uma série de objectos intrigantes e pedir que escrevam a história que eles encerram (“o museu das palavras”). Também posso pedir que me façam um poema nos respectivos telemóveis e que me enviem uma mensagem nos próximos 15 minutos… Ou, pegar nos Emoticons da internet e propor a escrita teatral. Propor uma carta a uma personagem fantástica ou impossível (Epistolar) ou a elaboração de um jogo de cartas para a escrita (jogo das palavras). Posso terminar com um trecho sonoro um pouco abstracto e propor a escrita da história contada no CD (“o som das histórias”). Um conjunto de exercícios (ferramentas) escolhidos de acordo com as características da turma (grupo) com que se vai trabalhar cujo local ideal para a realização será a Biblioteca Escolar ou sala infanto-juvenil da Biblioteca Municipal. O grupo não deverá exceder 25 participantes dos 9 aos 13 anos (nível etário ideal). Recomenda-se que a mesma turma passe por duas sessões desta oficina, solidificando aquisições. Os materiais do ateliê dependem dos exercícios escolhidos. Cada sessão tem a duração de 90 minutos. Os jovens reagem muito bem à publicação no Blog da Biblioteca os textos produzidos; um bom pretexto para se utilizar este tipo de suporte.


Esta actividade nasceu em Montemor-o-Novo na sequência do “programa escolar” de “O espaço do tempo” junto das Bibliotecas Escolares do concelho. É uma das actividades centrais do projecto “Tásse a ler” sob o nome de “Escrita mal comportada”. Está integrada na carteira de itinerâncias da DGLB.
Direitos reservados SPA 17777

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Dacoli e Dacolá - À laia de inventário

Ilustração a lápis para "Dacoli e Dacolá"
Maria Cabral Pacheco de Miranda

Estava eu a dar voltas à cabeça, à procura duma forma de começar a apresentação deste livro do Miguel quando, aos poucos, uma imagem se começou a formar, cada vez mais nítida, e foi tomando conta de mim:
- Já alguma vez exploraram, com certeza, os bolsos de um rapazito de, digamos, 9 anos: de lá podem sair preciosidades do género: um apito, um canivete rombo, um cromo de um futebolista dificílimo de apanhar, uma pedrinha branca com o curioso formato de um dente aguçado (do LOBO, dir-nos-ia o tal rapazito, com ar convincente…), um boneco de plástico com uma cara verde e monstruosa…
Pois bem, à medida que fui lendo os contos deste livro, fui recolhendo, daqui e dacolá, melhor dizendo, dacoli e dacolá, uma colecção de rastos heteróclitos que, aos poucos foram compondo uma espécie de puzzle, com peças que curiosamente iam encaixando umas nas outras, remetendo-me para um mapa mais vasto, onde me fui orientando como podia.
Vou então tentar inventariar alguns desses “objectos”, tentando partilhá-los convosco:
1 – a nostalgia de um “paraíso” que pode bem ser uma infância, como também um certo lugar, entre montes e rios, onde se viveram muitos momentos felizes.
2 – um coração apaixonado e pronto para “pegar fogo” à simples evocação do ser amado.
3 – uma enorme biblioteca abandonada, onde 2 fantasmas assombrados por todos os livros que não conseguiram ler, esperam ansiosamente que alguém os venha ajudar a tirá-los das prateleiras e a folheá-los, para que eles possam, finalmente, conhecer as histórias neles adormecidas.
4 – um salto no tempo e uma visita a uma ilha onde, há 500 anos, os dragões dizimavam as vacas, constituindo um grave problema para os agricultores que lá viviam.
5 – uma rapariguinha com saudades do pai que morreu, com alguma dificuldade em aceitar na sua casa e na sua vida o novo companheiro da mãe.
6 – rastos da passagem de alguns animais – para além das vacas e dos dragões a que me referi, encontrei também uma gata com os seus gatinhos, uma porca preta e talvez…na bruma, um javali.
7 –Pedregulhos que falam a quem lhes encoste o ouvido e consinta em dar espaço ao silêncio.
Estes são apenas alguns dos marcos do território onde se desenrolam estas pequenas narrativas que vale a pena explorar. Num registo realista a que não faltam referências concretas - nomes das terras, das árvores, dos rios e montes, misturam-se pequenos e grandes nadas que constituem a vida das pessoas “de carne e osso”, com as suas alegrias, as suas tagarelices sem importância, as suas lágrimas. No meio desta realidade quotidiana encontramos frequentemente fronteiras permeáveis e naturalmente transponíveis que dão acesso a um outro lado misterioso e menos explicável, onde subitamente mergulhamos e donde saímos tão simplesmente como entrámos. Nesse outro lado as pedras comunicam com as pessoas, os dragões transformam-se em árvores inofensivas, as raparigas apaixonadas tem de ser rigorosamente vigiadas, porque são potencialmente incendiárias…
O tempo da narrativa não é propriamente o do “era uma vez” dos contos de fadas, mas um lugar onde convergem presente passado e futuro…é por isso que o narrador nos pode informar que Daniel, o menino da cidade que queria também ter “uma terra” de pertença irá, em adulto, conhecer e apaixonar-se pela irmã do João, de Canas de Senhorim. Os problemas de um personagem que viveu no tempo dos Descobrimentos, neste caso trata-se de Gonçalo Velho Cabral às voltas com os dragões, podem estar tão próximos de nós como os de João ou Carminho, com quem poderíamos ter cruzado na semana passada.
As ilustrações vão acompanhando as histórias (ou não estivéssemos nós a lidar com um autor-ilustrador), acrescentando pormenores e fixando determinados nós do fio narrativo, para os focalizar segundo um certo ponto de vista.
De resto, ao longo de todas estas as histórias é dado um especial relevo à fixação, que é como quem diz à Memória (com uma função tão relevante no “ofício da escrita” …). A prática deste ofício leva o autor a recorrer à inventariação de palavras antigas, antigos gestos e tradições, ao desenho das emoções que cristalizaram em afectos, tão intensamente vividos que, de certo modo, podem impedir a continuidade do fluxo natural da vida (por ex, a lembrança do pai de Carminho, a lembrança do namorado de Lídia…).
Mas a memória também pode ser reconstrução e reinvenção, dando origem a actos criativos – veja-se, no último conto, como é que João resolve o problema da falta de lembranças significativas das férias, no momento em que se vê obrigado a fazer uma redacção sobre o tema: numa estratégia que imita a do próprio autor, esse rapaz vai recorrer a vestígios, a objectos aparentemente sem valor – e com um búzio, uma barbatana, umas fotografias tiradas na praia, é capaz de se reapropriar da atmosfera, do ritmo, da liberdade, desses dias do verão passado…
Deixo-vos aqui estes poucos objectos roubados a estas 7 histórias. Lendo-as, talvez cada um seja capaz de construir o seu itinerário no território do Miguel Horta, que fica sempre no lugar “onde lhe mora o coração”.
24 de Janeiro 2009

Casa das histórias - Paula Rego - 24 de Julho

Pois eu entrei na “Casa das histórias” de Paula Rego com uma candeia na mão, levando ao colo a boneca “Emília”. Entrei inquieto, não é todos os dias que se contam histórias na frente daquelas telas intrigantes e belamente cruas… Ainda por cima a convite de duas mulheres muito importantes no meu percurso de mediador nos museus: Adriana Pardal e Sara Barriga. Trouxe o contador de histórias e o pintor comigo, conduzindo a abordagem das obras para um terreno mais fluido, de contornos por vezes menos definidos. Relacionar o exposto com o dito de forma criativa deixando o lato respirar…Espero bem que tenha sido do agrado de quem visitou o museu naquele dia e que outros horizontes se tenham aberto com as minhas palavras de contador.
Na primeira sala convidei dois personagens cabo-verdianos a comentar as telas povoadas por estranhas criaturas, terminando com o Hip pop “Bichos” (Gimba). A boneca “Emília” conduziu o público para a segunda sala onde, a pretexto de “Pillowman”, se falou do universo criador de Monteiro Lobato, escritor brasileiro, também ele aglutinador de diferentes histórias corporizadas em livro, tal e qual Paula Rego que as reúne sobre papel e tela. Dei corpo à grande festa no “Sítio do picapau amarelo” ("As reinações de Narizinho") onde o “pequeno polegar” congeminava uma revolta das personagens encarceradas nos livros, enquanto as criaturas do mundo encantado iam convivendo, manifestando as suas peculiaridades. A propósito da obra “Love”, não resisti a contar “Não há fumo sem fogo” do meu livro “Dacoli e dacolá”. Na sessão da noite ainda abordei “O crime do padre Amaro” mas de uma forma muito suave, pois apareceram duas crianças para o conto nocturno e tive que refrear o anjo vingador que saía da obra de Paula Rego para corrigir a desordem amorosa no nosso mundo. Para os mais pequenos terminei a sessão com “O príncipe teimoso”: Caganita!
E bendito e louvado, está este conto terminado…

Aqui fica a opinião (retirada do Facebook) de Carla Proença, companheira das bibliotecas: "Era uma vez uma boneca, uma lanterna, um contador e uma Casa recheadinha de Histórias, pintadas em tela: as que já lá moram e as que o Miguel, entretanto, entreteceu como quem, naturalmente, acrescenta novas telas ou partilha vida e cor com as que já lá estão, ao som dos tons e dos ritmos quentes da Lusofonia, dos valores e dos sentimentos com que faz de questão de se apresentar sempre... Parabéns pelo excelente serão e pelo brilhinho nos olhos que deixou a todos os que estiveram presentes... :))"