segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

A lua cheia é no dia 18 de Fevereiro...

Ora, cá vou contar outra vez na zona de Lisboa. Desta vez num lugar com muito significado, o Espaço da Lua Cheia (Teatro da Lua Cheia) no bairro Padre Cruz e, claro...numa noite de Lua Cheia. Portanto, estão todos convidados para esta sessão onde não faltará chá e bolinhos. Um convite da Maria João Trindade (quem não se lembra da beleza que ela fez com o texto de António Torrado: "Xerazade não está só"?). É que Carnide foi durante muitos anos o meu bairro...isto tem quase o sabor de um regresso a um dos bairros mais Lisboetas da nossa capital. Tomem nota: 18 de Fevereiro, 21 horas, Rua de Barcelona lote 128 - cave, bairro Padre Cruz, Carnide. "Kusa ke kusa ki fika kusa nes mundu!"

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Estabelecimento Prisional de Lisboa, ala dos jovens, quarto dia.

Apresso-me a contar as novidades da minha manhã no estabelecimento Prisional de Lisboa com os meus jovens reclusos… Depois das apresentações de alguns livros doados (estou melhor que o professor Marcelo…), decidi começar o dia lendo em jeito de RAP a “Pedra filosofal” de António Gedeão. Aí os presos começaram a fazer um “Beat” , batendo nas mesas e fazendo vocalizações ritmadas num Hipop perfeito. Fiquei encantado. Peguei no “Fala de um homem nascido” e propus que cada um lesse uma estrofe mantendo o fundo musical do Beat. Eles agarraram o desafio e o resultado foi lindo. Depois começámos a brincar com o “Calçada de Carriche”, “Anda Luisa, Luisa sobe” à procura do ritmo da mensagem. Fizeram-me prometer que traria fotocopias dos poemas para eles “trabalharem a cena”. Criado o ambiente, fizemos uma brincadeira em torno “dos sons nascem histórias”; usar a competência da palavra para contar a história sugerida por uma banda sonora aparentemente abstracta. Senti algumas dificuldades na capacidade de desenhar com a língua Portuguesa a historia sugerida. Uns vão tentar escrever o que ouviram, outros desenharão. No final requisitaram dois livros de banda desenhada, um manual de astrologia, um Harry Potter e um livro de Álvaro de Magalhães. A pequena cela transformada em biblioteca vai ganhando vida, está mais limpa e agora ostenta alguns trabalhos dos reclusos na parede. O frio, esse continua terrível. Fazemos as sessões de gorro na cabeça.

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Diário gráfico - gaivotas

Um desenho rápido na calheta da Arrifana

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Diário gráfico - O endireita da Charneca

Numa página, um café em Carnide... Na outra, um "endireita" muito tagarela...

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

"A cor das histórias" no Estabelecimento Prisional de Lisboa

Desenho de um recluso
Continuam as sessões de promoção da leitura e da escrita no Estabelecimento Prisional de Lisboa, um trabalho continuado inserido no programa “Leitura sem fronteiras” (DGLB/DGSP). Ao princípio foi difícil. Agora, vou tendo as minhas conquistas junto dos reclusos muito jovens, cheios de adrenalina. O Crioulo tem sido uma das línguas oficiais destas sessões, passaporte de entrada para o Português. Os meu amigos: António Gedeão, Álvaro de Magalhães e o hipop têm sido grandes aliados nesta invasão da leitura. Já começaram a requisitar livros: banda desenhada, policiais, litratura juvenil. Falta-me banda desenhada e poesia (*suspiro*). De vez em quando recorro a álbuns de imagem (“Eu espero”, “O espelho”), até um “pop up” fez sensação na pequena cela (gelada) transformada em biblioteca. Mas a oralidade dos contos produz os efeitos mais inesperados; já tive que repetir uma história a pedido dos presos… Quanto à escrita, aqui ficam alguns resultados depois de uma sessão de “a máquina da poesia”: 
"A sereia beija a natureza com Amor salgado"
"O Poeta escreve a vida escura de um agressivo"
"A vida é apenas um breve passeio que a morte nos reserva"
"Esperar, esperamos sempre. E que esperamos? Ansiamos sempre o melhor porque tememos o pior"
"Golfinho brinca no mar salgado"
"Rei deixa solidão amorosa..." 

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Traulitada!

A minha primeira experiência na escrita para teatro surgiu de um desafio feito pela Cláudia Sousa do Centro de Atendimento juvenil de Vila Nova de Paiva (Progride, entretanto extinto): uma peça para fantoches sobre o tema do Bulling:"Traulitada!"- Um grupo de alunos do secundário pretendia montar uma peça para apresentar aos mais novos, um pouco agitados. O resultado foi muito interessante da confecção dos fantoches até ao desempenho dos manipuladores de “robertos”. As coisas simples funcionam; os bonecos permitem a distanciação necessária para se lançar o debate a seguir à apresentação.

(...)
Entram dois fantoches, dois amigos conversando numa excitação ofegante:
Zeca : Ó! Ó,! Ó! E o palerma do “Xico beiças” armado em menino lindo da professora? (pronuncia beirã acentuada e trocista)
Luís: É mesmo “totó”...
Zeca: E com aquelas beiçolas mais parece um borrego
(riem-se, trocistas, agarrados à barriga de tanta piada que a coisa tem...)
Zeca: Bora lutar como na televisão...Como naquela cena do “Restelingue”?
Luís: Mas é faz de conta, Zeca... Ouviste? (tom receoso)
Zeca: Sim! Sim! Claro que Sim! (Primeiro “sim” convincente, segundo decidido e terceiro matreiro)
(...)

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Teoria das cores

Um dia a minha amiga Maria José Vitorino lançou um apelo sobre Herberto Hélder: se alguém tinha um desenho ou uma foto que pudessem ilustrar o poema "Teoria das cores"... pois então, resolvi fazer esta ilustração; já lá vão uma série de anos e esta mesma imagem foi partilhada noutros lugares. Aqui fica também o poema.
"Era uma vez um pintor que tinha um aquário com um peixe vermelho. Vivia o peixe tranquilamente acompanhado pela sua cor vermelha até que principiou a tornar-se negro a partir de dentro, um nó preto atrás da cor encarnada. O nó desenvolvia-se alastrando e tomando conta de todo o peixe. Por fora do aquário o pintor assistia surpreendido ao aparecimento do novo peixe.
O problema do artista era que, obrigado a interromper o quadro onde estava a chegar o vermelho do peixe, não sabia que fazer da cor preta que ele agora lhe ensinava. Os elementos do problema constituíam-se na observação dos factos e punham-se por esta ordem: peixe, vermelho, pintor — sendo o vermelho o nexo entre o peixe e o quadro através do pintor. O preto formava a insídia do real e abria um abismo na primitiva fidelidade do pintor.
Ao meditar sobre as razões da mudança exactamente quando assentava na sua fidelidade, o pintor supôs que o peixe, efectuando um número de mágica, mostrava que existia apenas uma lei abrangendo tanto o mundo das coisas como o da imaginação. Era a lei da metamorfose.
Compreendida esta espécie de fidelidade, o artista pintou um peixe amarelo."
Herberto Helder, in Os Passos em Volta

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Pelos campos fora...

“Pelos campos fora…”, foi assim que chamei à minha oficina de Natal na Culturgest, a propósito da obra de João Queiroz, um pintor que muito aprecio. Foram dias serenos aqueles que se viveram na “caixa”, trouxemos os caminhos da floresta, o grito das árvores e o som do vento para dentro dos nossos desenhos e pinturas. As crianças puderam experimentar o grafite, o carvão, a malcheirosa terebintina, a tinta-da-china e os acrílicos. Conversámos sobre o pintor, sobre os passeios pelo campo, sobre a senhora “perspectiva”( vendo como ficamos pequeninos quando nos afastamos numa paisagem feita de fatias) e terminámos com uma pequena exposição, partilhando o nosso trabalho com os outros. Bela maneira para terminar o ano…

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Diário gráfico: Mondego

Tudo quanto é água tem muita importância na minha vida. Espreito sempre as águas á procura de vida: bordalos, achigãs, trutas, tritões, rãs... Busco nas margens sinais de bichos que por ali passaram: lontras, garças cinzentas, corvos marinhos ou até os javalis que desarrumam a terra recolhendo petiscos que só crescem por ali. Gosto das sombras que se estendem sobre as lajes e do murmurar do rio vencendo obstáculos até á foz. O Mondego é um desses cursos de água que atravessam os meus passos, já o encontrei em diversos pontos da Beira Alta. Nesta página do meu diário gráfico, um recanto ao pé da Felgueira, revelado pelos meus amigos Miguel e Joana. No verão passado, partilhei com os meus alunos de desenho este belo lugar de um rio maltratado.

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Canto IV

Uma das experiências mais engraçadas que tive na minha vida criativa foi o desafio de letrista para uma banda rock, os "Beduínos a Gasóleo". Deixo aqui o depoimento que escrevi por altura do lançamento do disco em 2007:
"E, de repente, vi-me envolvido num projecto musical, tendo como pano de fundo o “Canto IV” de Luís de Camões. Os músicos têm um nome estranho, “Beduínos a Gasóleo” e conduzem os trechos habilmente, como se as dunas do deserto, que bem conhecem, fossem as ondas do Mar para onde Camões nos transporta ao longo do seu livro. Ficou logo claro, pela voz de José Carlos Fialho, timoneiro da embarcação, que a obra de Camões não deveria ser vista como um poema de Estado. Disto mesmo me apercebi ao escutar os esboços musicais que convocavam atmosferas e momentos do nosso passado num registo de Rock Progressivo. Foi com grande alegria que soube que Janita Salomé iria emprestar a sua mestria na construção das atmosferas musicais que dariam corpo ao projecto.
A minha escrita...Bem...Essa nunca poderia ser feita em cima dos poemas que aprendemos nos bancos da secundária. Nasceu, num discurso paralelo, como se fora um outro instrumento musical compondo as imagens que agora vos propomos.
Comovi-me quando escutei, pela primeira vez, o momento em que o Infante está sentado na praia olhando o mar e ri-me com a interpretação do Tratado de Tordezilhas. Outros trechos foram feitos na sala de ensaios, envergando já o traje de beduíno por empatia, corrigindo métrica e propondo soluções; lavrando a escrita durante os ensaios. Exemplo desse estar criativo: o “Sonho de D. Manuel”. Belas semanas que se viveram!
Disse-me uma amiga bibliotecária escolar, que o nosso trabalho tem um pendor pedagógico que deveria ser explorado. Fico a pensar nas suas palavras, ecoando em mim outras do meu passado, em que Eduarda Dionísio no Liceu Camões dizia: “Oiçam no poema o ribombar das aliterações dando uma imagem completa da batalha...Boa viagem, Beduínos!"