terça-feira, 31 de maio de 2011

Contornos da Palavra

Este foi o segundo ano em que participei no encontro “Contornos da Palavra” em Viana do Castelo. Tenho trabalhado sempre com turmas consideradas difíceis… acho que este ano correu bastante bem. Claro que sempre existe alguma fricção com um ou outro aluno que mantém uma atitude mais incorrecta, mas habitualmente consigo estabelecer a comunicação e a partilha de algumas leituras que faço e acho interessantes para estes jovens (CEF). Este ano houve até uma situação comovente com um jovem que acabou por confessar na sessão a sua inadaptação a Portugal; preferiria estar no país de imigração com a família. Muito das atitudes com que nos confrontamos junto destas turmas têm a ver com o sofrimento interior dos jovens que incapazes de o resolver “assentam baterias” contra nós, educadores. No primeiro ano de participação no encontro foi muito difícil o trabalho no agrupamento de Darque, valeu-me um professor de hotelaria sereno que aderiu totalmente à minha proposta. É preciso planear muito bem a intervenção, escolher bem os textos e manter uma atitude comunicativa próxima, passando a ideia de que a Biblioteca Escolar é um local interessante para se estar, diferente da condição de ensino formal inevitável da sala de aula. Daí a importância de pensar muito bem na colecções das bibliotecas escolares para que exista um pólo de interesse efectivo. Sei que não é fácil, pela dimensão das Bibliotecas Escolares, criar um espaço específico para os jovens mas uma postura comunicativa do “balcão de atendimento” (serviço de referência) ajuda muito. Estamos todos (professores e mediadores) á procura do melhor modo de fazer este trabalho com os jovens… Uma característica do trabalho em Viana do castelo é a presença constante dos Professores Bibliotecários e um apoio efectivo da Biblioteca Municipal: sentimo-nos sempre muito acompanhados.

sábado, 28 de maio de 2011

Sonharte: uma noite passada no CAMB

fotos: por cortesia do CAMB
E que tal dormir uma noite no Museu? Pois desta vez coube-me a mim dinamizar o Sonharte no Centro de Arte Manuel de Brito executando diferentes”papéis” até o sono vencer uma mão cheia de alegres visitantes. Fui mediador de Museus, conduzindo as famílias por entre um pequeno grupo de peças escolhidas, monitor de ateliê levando o público a criar paisagens para adormecer e contador de histórias já no sótão do CAMB com toda a gente deitada nas suas camas. Foi uma estreia este formato de intervenção museológica…para a próxima vou estar mais à vontade. Os tempos de trabalho foram curtos e a mudança de “papéis” exigida, demasiado rápida. Mas reconheço no rosto dos participantes o sinal de um serão animado…

quarta-feira, 25 de maio de 2011

"Tásse a ler"

No dia 7 de Abril de 2011 encerrámos o projecto “Tásse a ler” numa bela festa/exposição que a todos nos encheu por dentro, espelhando o trabalho que realizámos ao longo destes dois anos. Mas um projecto limitado no tempo, embora com continuidade ao longo de dois anos não resolve as lacunas existentes nos nossos locais de intervenção no que diz respeito à promoção do livro e da leitura junto de jovens mais avessos ao tema. Projectos desta natureza apenas permitem levantar problemas e agir num determinado espaço de tempo sobre um pequeno grupo sinalizado de jovens por concelho, considerando o universo total da proposta. A reflexão levantada nos dias do projecto teve e terá consequências para uma prática futura. Ao propor a acção no terreno, todos tivemos consciência da natureza das estruturas com quem teríamos de actuar; os mais atentos entenderam profundamente as dificuldades da articulação entre grupos de pessoas, sintoma dos dias que vamos vivendo. Ao concretizar as nossas intervenções, confirmámos a importância e o poder de propostas das mesmas. Fomos capazes de entender as fraquezas locais e as virtualidades de um vasto campo que se abre para ideias futuras. Confirmámos, na minha opinião, a oportunidade da metodologia de educação não formal junto da população com quem decidimos trabalhar. Não fomos perfeitos, mas elogio a capacidade de articulação entre os cinco municípios, representados pelas suas Bibliotecas Públicas numa capacidade de proposta junto das bibliotecas escolares que a todos nos deve orgulhar. Há assimetrias, bem sabemos. Há tempos e realidades locais distintas e “actores” no terreno diferentes, com capacidades diferentes, mas a proposta passou, com expressões variadas na sua prática.

O projecto esteve aí, no Vale do Minho, as suas maiores testemunhas são os jovens abrangidos pela nossa acção. Senti a sua evolução a cada sessão em que os reencontrei na “Escrita mal comportada”; todos regressavam ao espaço de leitura pública com visível contentamento, afinal a nossa proposta é sempre distinta do curriculum escolar abrindo um espaço de liberdade fundamental para passar o gosto pela leitura. Já sobre o trabalho pontual com turmas CEF e outras sinalizadas nem sempre consigo entender se correu bem, se ficaram sementes; foram sessões pontuais que pela sua extemporaneidade não consigo avaliar sem a ajuda dos meus pares no local. Em todos os Concelhos por onde o “Rio de contos” passou, com mais ou menos público, ficou a sensação de dever cumprido. Thomas Bakk deu o mote irreverente com as suas histórias e eu passei a proximidade com o livro através dos contos, em ambientes pouco habituados à presença da literatura. Uma palavra de apreço para os técnicos que levaram a biblioteca pública à noite dos bares e cafés, disponibilizando livros e outras peças da colecção da biblioteca. Há todo um trabalho invisível de articulação entre biblioteca pública e todas as estruturas onde interviemos, uma coordenação que deve ser mencionada nestas linhas pois dela dependeu muito do sucesso do nosso trabalho. Obrigado.
Uma palavra para um tema que mencionei muitas vezes e que corre em paralelo com as intervenções: a necessidade de um serviço de referência activo, de qualidade; a promoção do livro e da leitura não se faz apenas com acções de mediação (intervenções), ela começa na relação activa estabelecida no balcão de atendimento, seja em biblioteca pública ou biblioteca escolar. Uma atitude pró-activa faz bem à literacia. Identifico esta atitude positiva em algumas bibliotecas com que trabalhei.
O nosso Blog, http://tassealer.blogspot.com/ é testemunha do trabalho e da reflexão, tendo sido consultado por um número significativo de utilizadores. É assim o nosso blog como uma espécie de diário de viagem dando visibilidade às nossas ideias.
Será que conseguimos criar novos leitores?

domingo, 22 de maio de 2011

3 fotos do Encontro Internacional de Narração Oral de Buenos Aires

Contando na sessão de encerramento do encontro
Os "Cuenteros"
Um binde ao Encontro (com refrigerante): Vitória, Vitória! Acabou-se a história!

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Portugal em Buenos Aires

Bem sei que prometi imagens da minha intervenção na Argentina. Desculpem…Só agora começam a chegar e aqui as deixo com algumas notas de rodapé. Este pequeno conjunto de imagens refere-se ao trabalho desenvolvido pelo Instituto Camões, com os recursos disponíveis, acompanhando a minha visita a Buenos Aires. Devo dizer, para aqueles que são descrentes da Embaixada Portuguesa que esta esteve sempre muito presente através da sua Leitora; o Embaixador… nunca o vi. Mas chega-me a qualidade do trabalho desenvolvido pelo número diminuto de pessoas a trabalhar no Instituto Camões para ter uma ideia da vontade que têm de “fazer coisas”. Acho que foi bem produtiva a oficina/conferência que realizei no Instituto de Enseñanza Superior en lenguas Vivas, basta ver o entusiasmo em torno da "máquina da poesia". Foi muito agradável a manhã passada no Colégio de Santa Rosa com os alunos de lingua Portuguesa...Um abraço, professora Rosa! Também, o carinho com que o Clube Português de Buenos Aires me envolveu, tocou a minha essência de contador e criador... Contei para os estudantes de língua Portuguesa, entendendo o empenho do jovem professor responsável; convivi com um descendente luso de bela voz que fez soar os seus fados numa tasca de comida verdadeiramente Argentina. Tive sempre a presença do Victor que de uma cidade do interior (Cordoba) viveu sempre por dentro o meu périplo Argentino. Entendi a angústia da língua que se pode vir a perder… descansem: o Português tem Futuro na Argentina. Uma mulher Argentina acompanhou sempre os meus caminhos por Buenos Aires: Patrícia Orr, eleita aqui como madrinha dos contadores de histórias portugueses na Argentina. Nessa condição, eu e o Instituto Camões oferecemos uma rosa encarnada em singela homenagem….não havia cravos vermelhos… A todos agradeço.
 No colégio de Santa Rosa
 De volta da máquina da poesia
Flores em nome dos contadores de histórias de Portugal 

quarta-feira, 11 de maio de 2011

Sernancelhe

A terra é linda!...Nem imaginam a casa (Turismo de habitação) onde fiquei alojado... Fui bastante acarinhado e não faltou uma surpresa: uma peça de teatro a partir do "Pinok e baleote". Aqui fica a minha ida a Sernancelhe pelas palavras dos outros:
"A Biblioteca Municipal Abade Vasco Moreira em parceria com a Direcção Geral do Livro e das Bibliotecas, através do Programa Itinerâncias Culturais, levou a cabo, no passado dia 23 Março a oficina "O Tempo das Palavras", orientada pelo escritor Miguel Horta. Esta oficina teve como público-alvo os alunos do 5º ano do Agrupamento de Escolas Padre João Rodrigues. A primeira parte do encontro com o escritor Miguel Horta decorreu de manhã na Biblioteca Escolar, onde as crianças lhe fizeram uma surpresa com a representação teatral de um excerto do livro "Pinok e Baleote", seguida da oficina "O Tempo das Palavras", onde o escritor tentou despertar a escrita nos jovens de uma forma informal, lançando mão de uma metodologia de escrita criativa a par de outros recursos menos habituais. Aproveitando a presença do escritor em Sernancelhe, o Município suportou as despesas e presenteou as crianças com outra sessão que decorreu na Sala de Conferências Aquilino Ribeiro, na Biblioteca Municipal. Esta sessão foi dirigida para todas as crianças do 5º ano, respectivos professores e técnicos da Biblioteca. A sessão foi uma conversa aberta com o escritor, onde este falou das suas obras, nomeadamente "Pinok e Baleote" e onde as crianças colocaram as questões sobre os seus livros e sobre a sua vida. Foi uma tarde muito animada e ao mesmo tempo muito cultural para estes jovens, onde tiveram oportunidade de contactar com um escritor que também é ilustrador e um grande mediador de leitura. A presença do escritor Miguel Horta foi escolhida para o dia 23 porque se encontrava a decorreu durante esses dias "A semana da leitura da Biblioteca Escolar". Este evento foi mais uma acção de incentivo à leitura dos nossos jovens em que o Município, através da Biblioteca Municipal colaborou com o Agrupamento de Escolas de Sernancelhe."

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Buenos Aires:Último dia...

Os característicos letreiros do bairro Boca no estilo "filetado"
Bairro Boca
 Crianças brincando debaixo de uma enorme aranha de Louise Bourgeois.
A escultura tem uma barriga com ovos...
 Uma comidita muito curiosa do norte da Argentina: uns pacotinhos feitos de folha de milho, com carne, farinha e especiarias no interior. Coze-se ao vapor e já está!
 Anjos...
Na última noite fui a uma tasquinha escutar Tango
cantado maravilhosamente por este senhor distinto.

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Mi corazón Porteño

Um homem de meia-idade e uma mulher mais velha param na esquina da avenida de Mayo junto à esplanada do “Iberia,”ao ritmo da conversa, esperando que o sinal fique branco para os peões. “Mama, no te quiero escuchar más hablando de Papá!”. O homem está crispado com a sua mãe, suponho. Escuto porque estou à porta do restaurante a fumar, lá dentro é proibido. Passa um táxi negro e amarelo crómio, cor de banana madura. O sinal muda e atravessam na passadeira, o filho sempre gesticulando para a mãe silenciosa. São engolidos pelo buliço de Buenos Aires onde as pessoas caminham mais devagar do que em Nova Iorque. Lembro-me da velocidade dos passos pelo passeio de cimento. A rua está cheia de cartazes por tudo quanto é tapume e os postes que semeiam a rua têm papeis rosa colados anunciando noites licenciosas na cidade “Portenha”. Muitos cafés e restaurantes de diversas origens gastronómicas ficam abertos até tarde, a hora em que jovens migrantes humildes e embriagados percorrem as ruas esquadrinhadas por marginais oportunistas do pequeno crime. Duas quadras para lá e já a cidade é segura.

Conduzem como loucos avenida de Mayo fora até à praça “de las Madres” numa intuição de condução interdita a volantes europeus. Ninguém choca… autocarros de números garrafais anunciando o destino e ostentando cores diferentes evitam táxis no último momento. Uma manifestação ciclista por uma via exclusiva na cidade lança o caos nas avenidas verticais que conferem uma textura característica à cidade do rio da Prata.
Passam na rua os Argentinos, sem medo no olhar, sem excesso nos gestos, vestidos de forma simples e cuidada, largando tiradas com graças quando os interpelamos, gostam de comunicar, são curiosos, bons garfos e …melómanos nas mais variadas cambiantes do Cumbre ao Tango. Carregam secretas as sombras do seu passado contemporâneo e trágico, que surge com força na poesia e na emoção que põem em cada conversa, quando se decidem a falar da sua história. Os cultos são leitores e as mulheres grandes e insinuantes. Os mais velhos participam na sociedade e encontrei muitos jovens empenhados e esclarecidos.
Sacudo o cachimbo contra a parede do prédio neoclássico onde está instalado o restaurante. Sente-se na urbe a presença do princípio de século endinheirado, reflectindo a arquitectura diversas influências, hispânica, Italiana e até afrancesada, o resto periférico é a desordem ruidosa que reconheço de outras cidades da América Latina. Pago a conta deixando algo para as empregadas distintamente vestidas. Hora de voltar ao hotel para uma pequena sesta; uma excursão de Brasileiros barulhentos desinquietou o sono dos hóspedes a noite inteira. Volto à paz, ao “hotel de la Paix”.

domingo, 1 de maio de 2011

"Madres de la Plaza de Mayo" (Buenos Aires)

30000 pessoas desapareceram sob o regime militar Argentino. Crianças roubadas ao ventre das mães e entregues a casais do regime; depois mortas, jogadas ao mar (arqueólogos forenses conseguiram recuperar três corpos provando a verdade) Pais, irmãos e filhos, muitos filhos que tiveram a coragem de se opor à ditadura desapareceram. Por isto falo das “Madres de la Plaza de Mayo” em vez de provar o chá mate ou elogiar os tangos que não sei dançar. Tocou-me bem fundo ver aquelas mães ainda na praça, perguntando pelos filhos, esperando justiça. Aqui vos deixo as fotografias de uma tarde que me fez pensar muito no conceito de justiça que temos no nosso país. Bem sei, foi a olhar a dor dos outros: os meus olhos não se enganaram.
Com o nome do seu filho desaparecido bordado no lenço