quinta-feira, 30 de junho de 2011

A caixa do lixo...

Na maior parte das vezes em que promovo a oficina "Eu sou Tu" levo sempre comigo uma caixa cheia de objectos velhos e variados que irão fazer parte da nossa história...chamo-lhe a "caixa do lixo". A reacção das crianças é sempre muito engraçada. Espreitem aqui o que eles disseram no Jardim de Infância da Charneca (Mafra) numa iniciativa da Biblioteca Mil Maravilhas.Quando passamos para o desenho dos corpos já com estes objectos, as histórias surgem mais facilmente. Sem a "caixa" o trabalho é mais exigente, mais abstacto, daí resultando um desenho bem diferente (ver). Quando trabalhamos com Necessidades Educativas Especiais no Centro de Arte Moderna (sector de educação) por vezes brincamos com as sombras de cada um de nós, desenhando-as sobre o papel de cenário. O resultado é muito interessante, permite interagir com as outras formas que já lá estão sobre a folha. No Estabelecimento Prisional do Montijo foi muito forte esta oficina: os reclusos tiveram que se tocar, procurar uma posição na grande folha de papel de cenário para construir a sua história. Também foi difícil convencer o chefe dos guardas a deixar entrar uma caixa com objectos tão estranhos...mas com a devida vigilância lá se realizou a actividade. Em contexto de Biblioteca Pública trabalho com famílias inteiras sobre o papel de cenário e, nas Casas do Visconde (Canas de Senhorim) até um cão entrou na história depois de se deixar desenhar deitado na folha. Os jovens mais agitados do projecto "Tásse a Ler" também parceram apreciar este desafio. São assim as histórias quando o corpo fala.

terça-feira, 21 de junho de 2011

Os 97 anos de Maria Keil numa homenagem na Casa da Achada

A foto não é boa…tirada com um telemóvel, mas talvez dê a ideia de como eu tenho tentado focar a tua importância na minha vida. Ainda não cheguei a nenhuma conclusão definitiva… Também tu, agora andas com a memória um pouco desfocada…e fico triste: tolhe-nos a comunicação frágil e eu não gosto disso…

A minha casa era lá no outro lado do Jardim da Casa da Moeda, da janela do meu quarto (que foi o meu primeiro ateliê e antigamente,também de António Pedro) via o vosso prédio. Era num tempo em que uma magnífica Magnólia florescia branca com o primeiro calor (a minha Mãe adorava aquela árvore) lá no canto da avenida António José de Almeida. Depois, era só descer apressadamente as escadas e percorrer aquele jardim até chegar ao teu prédio. Tudo numa velocidade jovem e sedenta. Era desta forma que galgava as escadas até à vossa casa, antigo ateliê de Francisco Keil do Amaral e teu…com quadros nas paredes: Ali, o Pitum com papeira, pintado a óleo, um lenço branco envolvendo o rosto da criança e um olhar perdido no sonho. Mais á frente o “ladrão de nabos” que o teu amigo Rogério Ribeiro não achou digno da tua retrospectiva  em Almada…como eu discordo, está lá toda a tua irreverência. Sim! O mesmo despudor com que pegaste num lápis e retrataste o teu corpo gasto a partir da perspectiva dos teus olhos. Sempre o olhar da Pintora tentando arrumar o mundo dentro de si. Isto para não falar das paisagens que nascem a partir de “Roupa estendida no Bairro Alto”, à janela desse ateliê actual, bem próximo da casa de Agostinho da Silva. Mas não falemos desse bairro que me povoa as memórias… Nasci ilustrador no teu ateliê e amadureci o pintor que ainda está por se cumprir. Basta só isto para reconhecer a importância da tua presença; e tu negas: “Eu não ensinei nada a ninguém”. Respeito, fazendo figas atrás das costas…se é assim que queres: não me ensinaste nada que eu não quisesse aprender! Teimaste em voltar continuamente à minha vida, olhando sempre para mim como um criador. Penso que poisas o mesmo olhar sobre o nosso Pedro Morais, também ele frequentou o teu ateliê de ilustração (com Mimi e Colombo) e não pára de nos dar belos desenhos. Agora, vejo-te aqui, entre nós na Casa da Achada, uma amiga de Mário Dionísio, com os teus magníficos 97 anos e penso: este País ainda não te rendeu a homenagem devida. Mas nós, nesta tarde solarenga no coração de Lisboa, em que revisitámos a tua obra, beijamos-te, exactamente como as tuas ilustrações beijam os poemas de Matilde Rosa Araújo.

sexta-feira, 17 de junho de 2011

Quando o corpo inventa histórias...

Poucas vezes tenho a sorte de trabalhar a oficina “Eu sou Tu” com meninos e meninas do jardim-de-infância. Por isso o meu sorriso é largo pois pude fazê-lo na Venda do Pinheiro. Habitualmente trabalho com “meninos” muito crescidos. Esta coisa de criar histórias a partir do nosso corpo é muito divertida; não a devemos deixar só para os grandes... Quando usamos o corpo e o seu desenho estamos a entender melhor aquilo de que somos feitos. É como se o corpo inteiro entendesse muito bem o Mundo em que vivemos. Aquela folha de papel gigante onde nos deitámos para desenhar o contorno do nosso corpo é como se fosse uma página gigante de um livro, exactamente do tamanho que temos. Não foi complicado desenhar…pois não? Os marcadores grossos ajudam muito. É muito difícil explicar por palavras aquilo que se sente quando o nosso corpo faz parte de uma história inventada em conjunto com os nossos amigos da sala. Mas ficamos mais acordados para este nosso “veículo” dos dias. Sabem o que eu acho? Acho que os livros deveriam ser tão grandes como as folhas em que nos deitámos. Assim, seria sempre muito fácil entrar nas histórias: bastava bater ao de leve na capa de um livro, exactamente do nosso tamanho, e a porta abria-se logo. E essa coisa engraçada de criar uma personagem a partir dos corpos de cinco amigos? Um dá uma perna, outro um braço, outro a cabeça, outros amigos dão os pés e, como por magia, criámos alguém para além de nós no papel de cenário. É mesmo um trabalho colectivo! Eu sei que já tinham andado a falar sobre o corpo humano… mas juro que não foi combinada esta minha ida à vossa escola pela mão dos vossos Educadores-bibliotecários… E fomos árvore, pássaro e, até borboleta….a história ainda não parou por aqui. Uma menina da Venda falava de flores que poderiam crescer na relva… tudo contornado em desenho em torno dos dedos da nossa mão. Foi giro passar o marcador por cima do lápis: até parecia que a nossa mão conhecia o caminho certo…
Será que vamos conseguir explicar aos Pais tudo que fizemos?
Beijos e obrigado por um dia bem passado na Venda do Pinheiro.

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Ensaio no Ritz Clube

Hoje o Ricardo enviou-me uma fotografia. Estremeci de surpresa ao ver-me retratado junto com os “Beduínos a gasóleo” durante um ensaio.. Nunca tinha escrito para uma banda de Rock… a experiência foi fundamental para o meu trabalho criativo. Como o meu amigo Gimba diz: “Há sempre uma toada nas letras que se escrevem”. E eu encontrei essa toada para poder conversar com os músicos.  É simples, basta desenhar com as palavras numa partitura invisível. Foi um momento importante na minha vida, agora estou desperto para o casamento das palavras com a música. Obrigado Ricardo!

terça-feira, 14 de junho de 2011

O Centro de Arte Moderna foi à ESE de Setúbal

No dia 7 de Junho a equipa do sector de animação e educação artística do Centro de Arte Moderna (FCG) esteve na ESE Setúbal partilhando parte da sua experiência com os futuros Animadores socioculturais que ali estudam. Um encontro bem produtivo que nasceu de uma ideia de Teresa Barreto, nossa estagiária nas “Oficinas Museu Aberto” e mediadora no Instituto Condessa de Rilvas. Susana Gomes da Silva apresentou o projecto “Intervir”, complementado com uma exposição no átrio da universidade. Juntamente com Margarida Vieira apresentei as oficinas “Museu Aberto”, dedicadas às necessidades educativas especiais. Uma intervenção a duas vozes que se debruçou sobre a problemática das acessibilidades aos conteúdos nos espaços museológicos, caracterizando públicos e questionando mentalidades. Partilhámos a nossa forma de trabalhar; metodologia, conteúdos e objectivos deste trabalho no contexto do Centro de Arte Moderna com os alunos deste politécnico. Da parte da tarde teve lugar uma oficina dedicada ao corpo, em tudo igual ao trabalho que desenvolvemos todas as semanas no CAM. Foi uma sessão muito concorrida e divertida. Ficou a vontade de continuar esta ligação com este lugar de formação de futuros animadores. Nada disto teria sido possível sem a intervenção da Teresa Barreto. Para além de acrescentar conteúdos e energia às nossas oficinas do CAM durante o seu estágio, deixa a promessa de qualidade da futura leva de mediadores que se vão formando. Necessário é, que na sua formação tenham mais ecos do terreno, conferindo um complemento assertivo ao conhecimento académico adquirido.

segunda-feira, 13 de junho de 2011

"Eu sou tu" na Venda do Pinheiro e Santo Estevão das Galés

Um dia bem passado pelas bibliotecas escolares da Venda do Pinheiro levando o “Eu sou Tu” aos meninos e meninas do jardim-de-infância. Acho que se divertiram a inventar histórias a partir dos seus corpos. Lá surgiram umas histórias: “Era uma vez uma árvore com muitos ramos que gostava de comer pássaros”…Ui! Agora ficaram lá nas bibliotecas os seus corpos transformados em personagens em grandes folhas de papel de cenário à espera da continuação das histórias. “Olha ali uma árvore!” Diz o menino aos saltos, feliz. Também vou ficar muito contente quando vir o resultado final. Não se esqueçam de me avisar…

domingo, 12 de junho de 2011

Um estendal de palavras pelos caminhos de Pombal

Querem aprender a minha técnica de coleccionar palavras por esses caminhos fora? Assim começa o desafio dos “Cuentos del camiño” que tiveram lugar ao longo desta Primavera pelas aldeias de Pombal. Recolher palavras para inventar uma história. As crianças do “primário” sentam-se no chão procurando primeiro palavras importantes ou de que gostem muito dentro delas; lá surge “Amizade”, “Mãe”, “Amor” ou “Brincar”; escrevem-nas em tiras de papel. Depois procuramos palavras pelo jardim com a ajuda dos nossos olhos: a palavra “pedra”, a palavra “nuvem” ou uma palavra difícil de escrever para os meninos do 1º ano:”borboleta”. Lá voltamos a registar numa tira de papel. E que tal coleccionar as palavras de um conto? O mediador conta uma história para as crianças atentas ao desenrolar do fio narrativo. E mais um pequeno grupo de palavras escrito nos papeis onde não falta a palavra “bruxa”, “príncipe” ou “verdade”. Por fim decidimo-nos a coleccionar palavras nas colecções dos outros…sim! Os livros são recolhas de palavras…Não é assim? E que bela colecção que fizemos com um poema do António Torrado… Como se têm que arranjar um suporte para construir a nossa história, estendemos uma corda, parecida com o nosso fio narrativo, pela sala de aula ou biblioteca escolar. Depois, é só começar a inventar, prendendo as folhitas ao nosso “estendal de palavras” com ajuda de molas de roupa. Ao princípio é difícil encontrar um sentido para as histórias que vão surgindo. Algumas até são meias malucas. Mas conseguimos! Depois é só escrever numa folha à parte para não nos esquecermos… E pronto: Vitória! Vitória! Acabou-se a história.

sexta-feira, 10 de junho de 2011

Algumas notas sobre "A cor das histórias" e a mediação do livro em contexto prisional

Sessão da oficina "Eu sou Tu" no EPR Montijo (foto autorizada)
O programa “Leitura sem fronteiras” resulta de uma parceria entre a Direcção Geral do Livro e das Bibliotecas e a Direcção Geral dos Serviços Prisionais, pretende levar o gosto pela leitura aos reclusos do nosso país através de intervenções executadas por um pequeno grupo de mediadores. É neste contexto que se insere “A cor das histórias” que venho desenvolvendo há alguns anos. Sessões regulares de promoção do livro, da leitura e da escrita com diferentes grupos de reclusos. Estas oficinas criativas já passaram pelo EP Lisboa (Ala G e E), EPR Setúbal, EP Odemira (feminino) e EPR Montijo. Com a extinção das duas direcções gerais e os cortes orçamentais aplicados, este esforço pela literacia e integração está irremediavelmente em risco..
O perfil do mediador cultural que vai intervir neste meio dita o sucesso do trabalho. Maturidade e capacidade de leitura das pessoas que tem pela frente são duas características fundamentais a par de uma cultura eclética que lhe permita uma elasticidade nos conteúdos e propostas. Só sabendo quem é o futuro leitor que ali se senta para uma sessão poderemos escolher o livro certo ou o desafio a lançar. A escolha dos livros a propor é muito importante, percorrendo um universo variado que pode ir da banda desenhada ao humor passando pela poesia, policial ou grande romance, para quem tenha competências leitoras bem desenvolvidas. Mas é na comunicação e modo de abordagem de cada novo grupo que reside a chave do sucesso. Recomendam-se subtis dinâmicas de grupo e soluções originais que passam pelo conto ou, no meu caso, pela utilização do crioulo de Cabo Verde para abordar grupos de jovens urbanos. Nestes grupos a introdução de leituras em Hipop de autores portugueses tem dado os seus frutos; daí à produção escrita dos reclusos, é um pequeno salto… Também a ilustração traz para este grupo, jovens que gostam mais de desenhar…dizem eles. Para ilustrar é preciso ler… E as imagens também se lêem. Propostas de escrita lúdica têm sempre muito sucesso quando aplicadas com asserividade.
As bibliotecas prisionais são muito variadas, podendo ir dos grandes espaços (Alcoentre) a pequenas celas transformadas com acervo envelhecido, húmidas e frias. A presença dos mediadores gera mudanças. Só o projecto “A cor das histórias” trouxe mais 500 livros de qualidade a estes espaços, fruto de doações de pessoas atentas. Mas falta muita banda desenhada e poesia; por vezes não temos o livro certo para o futuro leitor pois a escolha é limitada. A ida destes profissionais aos estabelecimentos prisionais tem operado mudanças no acesso ao espaço de leitura e organização, a par de despertar para esta causa distinta do percurso escolar os Educadores Prisionais, aliados fundamentais no interior da prisão. É comum que reclusos que frequentam estes “clubes de leitura” se decidam a voltar à escola. Uma das recomendações que venho fazendo desde que entrei neste universo é a necessidade de catalogação das colecções prisionais que pode acontecer com um simples programa de Exel. Não custa nada formar reclusos de penas médias em catalogação rudimentar e funcionamento de bibliotecas. Também a existência de Jornais Prisionais publicando a produção escrita dos reclusos permite a continuação das aprendizagens e promove a auto-estima.
Algumas parcerias podem ser encetadas no terreno mais próximo: com agrupamentos de escolas ou Bibliotecas Municipais, propondo projectos ou simplesmente dando apoio à biblioteca prisional na catalogação ou colmatando lacunas na colecção. Importa ter a consciência de que se trata de um trabalho lento, persistente onde não existe uma data precisa para o reflorir de quem está detido. Uma tarefa de todos numa altura em que o Estado se demite da sua função social não financiando projectos que acontecem a montante da sociedade com claras consequências no futuro.

sábado, 4 de junho de 2011

"0lhos d'água"

Uma peça minha de 1987 de que gosto muito.
pintura 200x150 - acrílico s/tela

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Aniversário da Biblioteca do Feijó

No dia 28 de Maio celebrou-se o aniversário da Biblioteca José Saramago (Feijó) numa sessão de conto partilhada com o meu amigo Thomas Bakk. O Thomas tem essa magia de nos transportar para situações hilariantes do conto, embalados pelo seu sotaque do Brasil. Bom ambiente, sala composta, sobretudo muito boa disposição. Gostei de rever os meus amigos de Almada. Tenho uma relação especial com a Biblioteca José Saramago; este espaço marcou logo desde o início a minha colaboração com o Município de Almada onde tenho o meu ateliê e sou eleitor. Durante um ano tive uma actividade intensa, dando formação aos meus pares no terreno, organizando eventos e desenvolvendo oficinas. Ao reconhecer o bom trabalho actual fico contente e saúdo a coordenação dinâmica da equipa de promoção do livro e da leitura.