quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Sapatinho de Nossa Senhora

A concha favorita de minha mãe era o “sapatinho de Nossa senhora”. “Lapa real”, como os pescadores do laredo a conhecem. Mas para mim era mesmo calçado divino. Em criança ficava a imaginar uma nossa senhora bem pequenina cujo pé caberia naquela pequena concha matizada.
Costumava rezar com os meus irmãos em frente a um pequeno oratório que a minha mãe abria lá no seu quarto, revelando uma Virgem com tons de pérola, frágil e misteriosa. Rezávamos ajoelhados no chão do quarto e as preces eram tristes, numa sequência de orações que continuam a ecoar dentro de mim. Um verso repetido, tocava fundo no meu coração de criança: “Neste vale de lágrimas”, repetido vezes sem conta ao lado dos meus irmãos bem comportados…”Neste vale de lágrimas”.
Lembrei-me sempre deste verso da oração nos dias terríveis: um enorme vale com lágrimas escorrendo dos glaciares, uma montanha que chorava alimentando um lago, que no fundo do vale, refletia a angústia dos dias vividos.
A nossa mãe ficou doente, muito. Uma flor crescendo no interior do seu corpo, naquele espaço exíguo, familiar e morno que me abrigou antes do parto. Um nenúfar como o de Chloe de Boris Vian que medrando a roubou de nós. Um dia, já ela estava muito doente, naquele mesmo quarto, ajudei-a sentar-se na cama. Os braços em volta erguendo: como estava leve. Leve como uma pequena nossa senhora que aos poucos nos deixava caminhando suavemente sobre as águas mansas da maré vazia.

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

"Clube da Palavra" ao vivo

Vai ser uma sensação pisar o palco do Teatro S. Luiz (Jardim de Inverno) levando as minhas histórias. Este programa do canal Q (Meo) tem registado algumas das minhas oralidades a par de outras dos nossos jovens rappers da Cova da Moura. Não percam! Vejam aqui o programa.