terça-feira, 25 de dezembro de 2012

Sussurrando em Rio de Mouro

Fotografia de Sofia Maul
Como bem sabem todos aqueles que trabalham com autismo, quase todos os dias temos de inventar um recurso novo para trabalhar a comunicação e a participação destas crianças tão especiais. A par das atividades regulares próprias da sala de ensino especial é importante criar uma novidade que permita abrir novos caminhos. Na unidade da escola básica de Rio de Mouro (Sintra), onde venho trabalhando com estes meninos, começámos a usar os sussurradores para propor a comunicação da palavra, interagindo primeiro com o técnico e depois com os outros colegas. Uma ferramenta simples que já usava com adultos para dizer poemas e contar pequenas histórias. Afinal, apenas um tubinho de cartão (neste caso tem de ser pequeno para não intimidar) decorado pelas crianças. Parece que está a funcionar este nosso objeto de comunicação…

sábado, 22 de dezembro de 2012

Manual de instruções na RDP África

 
Deixo ficar aqui o registo da minha entrevista em direto no programa de Fernanda Almeida: "Manual de instruções"(RDP/África). Chamo a atenção para o belo texto de Inês Leitão que poderão escutar quase no início desta gravação. Escutar aqui.

domingo, 16 de dezembro de 2012

Diário gráfico: esboços soltos

Hora do leitinho                                      piteiras
Charneca                                             Pescadores da Arrifana
                                                   Beja                                       Pavilhão chinês em Potsdam

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

O que acontece quando se oferecem lápis de cor num estabelecimento prisional...

Enquanto esperamos pela edição do livro do projeto “Novas memórias do cárcere” partilho convosco algumas ilustrações feitas pelos reclusos (faltam bastantes…). Embora não façam parte da obra a publicar, refletem muito do universo prisional de Guimarães. Umas têm um sabor popular muito forte lembrando o Minho outras remetem-nos para um universo onírico, fundamental para a sobrevivência interior quando enclausurados. Aqui ficam pelo seu valor iconográfico.
Gosto muito dos desenhos do senhor Francisco...
 Francisco
Osório: Uma Nossa Senhora muito trabalhada
 Vitor: a vista do estabelecimento prisional de Guimarães (com as grades amarelas em primeiro plano)
 Vitor
 Vitor
Vitor

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Uma pergunta para bibliotecários...


Tudo bem…são utilizadores. Direi eu a um dos muitos bibliotecários que conheço, mas quero pensar neles sobretudo como leitores. Eu explico a razão da minha inquietação:
Nos últimos anos tenho trabalhado com necessidades educativas especiais em contexto museológico (Descobrir/Gulbenkian) e paralelamente tem crescido em mim a questão das acessibilidades nas bibliotecas públicas. Tenho desenvolvido um conjunto de oficinas pedagógicas procurando tirar conclusões sobre esta problemática e encontrar um caminho criativo e prático exequível na Rede Pública de Leitura.
Bem sei que me vão dizer que têm elevadores, uma rampa para acesso fácil, ou até que trabalham com o teclado Daisy tendo um serviço de referência completamente adaptado a estes cidadãos especiais. Mas aquilo a que me refiro, é à acessibilidade dos conteúdos da biblioteca no que diz respeito à doença mental e défice cognitivo de origens variadas, a par de síndrome de Asperger e Autismo entre outras tantas particularidades. Que fazemos nós para adaptar o nosso serviço de referência a estes cidadãos tão particulares? Que coleção existe disponível para estes utilizadores? Que conhecemos nós de estratégias de mediação leitora que possamos utilizar com estes leitores tão especiais? A nossa sala infanto-juvenil estará preparada para este público? Como mediar a doença mental no espaço de leitura? Que livros escolher para um menino autista? Temos uma resposta profissional?
Bem sei que algumas bibliotecas têm respostas pontuais para estas questões emergentes, que o digam os professores bibliotecários (RBE) que são impelidos a dar uma resposta assertiva aos alunos das unidades de ensino especial. Recordo aqui também as práticas habituais da Rede Pública de Leitura ao receber estes leitores tão especiais, tão parecidos com os outros normais: bibliotecas municipais de Gouveia e Castro Verde, a par de muitas outras que o fazem também sem alarde.
Pergunto se não estará na altura de fazer uma espécie de “carta de boas práticas para leitores com necessidades educativas especiais” reunindo o contributo de todos os bibliotecários e mediadores da leitura num documento que nos sirva de base?
Nos museus Portugueses existe o “Grupo para a acessibilidade aos museus” que tem contribuído para a expansão do conceito de acessibilidade aos bens culturais: não estará na altura de criar um grupo de trabalho de bibliotecários sobre esta questão?
Será que a BAD quer apadrinhar a ideia?

sábado, 8 de dezembro de 2012

10x10: Sussurradores na Abrigada

Ana e a presença constante dos livros...
 
Os vulcões no mapa pessoal de Miguel
Os sussurradores descansam num canto da sala, cada vez mais colorida....
Para dizer a verdade…começa-se sempre com o sorriso da Ana, no seu relacionamento tranquilo com os alunos. Então agora, sim. Todos em plenário em meia-lua com a presença da equipa do “Vende-se filmes” que está a documentar o trabalho das diferentes duplas do projeto 10x10 (Descobrir/Gulbenkian). Sejam bem vindos à Abrigada!
Abrimos com o conto “Não há fumo sem fogo”: à medida que a história se desenvolve, oiço risadas... Em seguida apresento o Sussurrador: uma ferramenta sonora para passar mensagens pessoais, de boca a orelha. Tecnicamente, um tubo de cartão. Um objeto pessoal, plasticamente forte e adaptado a cada participante. A escolha do comprimento e diâmetro do sussurrador tem influência no som obtido. (O Tiago fez logo o maior de todos!). Muito importante, também, a escolha do que se vai dizer através do cilindro cartonado. Dedicámos um bom tempo à escolha pessoal de frases definidoras para cada um dos participantes. Depois, foi tempo de oficina, azáfama de tesoura na mão, marcadores, cola, até se chegar ao resultado final.
Ainda houve tempo para completar as cartografias pessoais com balões de banda desenhada contendo referências ilustradas aos assuntos (temas) das aulas anteriores.
Foi uma manhã calminha…fiquei com muita curiosidade nas imagens captadas pelos nossos discretos amigos das filmagens.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

10x10: Navegar é preciso!

Abrigada, 5 de dezembro. Hoje foi dia de viagem pelo Google Earth! Mas antes de partir, dois livros “Pop-up”: o  Popville” e o magnífico “ABCD” de MarionBataille. Foi interessante ver a reação dos jovens aos dois livros-objeto na roda aberta do plenário inicial. Tivemos 3 baixas por “mau comportamento”, foram enviados para casa antes da nossa sessão; preferia que se portassem mal na nossa aula 10X10 (Descobrir/Gulbenkian) seria motivo para uma qualquer dinâmica ou urgência de comunicação. Mas regras são regras e os moços foram enviados para casa, mas vão poder contactar com aquilo que fizemos com os restantes colegas.
A caminho de casa em Governador Valadares
Vamos então partir navegando pela net em direção ao Brasil. Como temos dois amigos Mineiros (Minas Gerais), fomos primeiro a Governador Valadares terra natal de um dos jovens que nos conduziu com o Google Maps aberto até à rua dele, à casa dele e, imaginem, quando a Google tirou a fotografia o avô dele estava sentado à porta…mais à frente numa curva, o irmão olhava espantado para a objetiva. Ficámos a conhecer a família e também a escola onde estudou. Depois, demos uma saltada a Belo Horizonte, capital do estado de Minas Gerais e também demos com a casa do outro colega mineiro: “Essa aí é a minha tia!” Exclama o rapaz olhando uma fotografia de grupo em frente a uma porta…” mas está tudo tão mudado. Faz 7 anos que não vou lá”. Falámos um pouco de Minas e do sistema de Capitanias que dividiu o Brasil na era colonial. Completando a ideia fomos ver Ouro Preto, cidade muito bem conservada do período Português e vimos a obra do escultor “Aleijadinho”. Pelo meio falámos das grandes distâncias do Brasil, quanto tempo se demora de viagem para ver o mar (um dia inteiro!). Perguntei se pescavam no Brasil e eles disseram que sim, falando do grande pirarucu.
Pirarucu!
Depois mudámos de continente: África. Fomos até à Guiné Bissau, concretamente a Bissau, bairro de S. Paulo. Aí, foi a oportunidade de falar dos Balantas (etnia do aluno), um povo agricultores especialistas em mancarra (amendoim). Falámos de música e de instrumentos tradicionais: Balafon e Kora. Escutámos a voz dos instrumentos… Terminámos a vista á Guiné conhecendo a grande árvore do Polon (Polão) que preside a todas as aldeias (tabancas); dizem que esta árvore contém os espíritos de todos os antepassados, por isso é mágica e sagrada. (Em “O homemque escutava as árvores”, peça que escrevi sobre Amílcar Cabral, a personagem principal ia oferecer água e fruta (Djakatu) aos seus antepassados, depositando as oferendas junto à grande raiz do Polon.).
Raiz di polon
Uma aluna escolheu a ilha do Sal (Cabo Verde) como destino de navegação. Vimos os vulcões e a paisagem deserta – o mais impressionante foi ver a salina no interior de uma antiga cratera (caldeira).
Ainda tivemos tempo para ver onde moravam alguns alunos lá no Carregado, orientando-nos através do emaranhado de prédios. “Ali jogamos futebol!” diz um aluno apontado um retângulo verde projetado pelo data show . Mas entretanto tinham passado 90 minutos….Amanhã há mais.

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Eu também sou Tu

Uma foto muito bonita, com o Rogério, tirada pela Sara Afonso durante o Encontro da Escola Inclusiva em Sintra. Talvez a foto mais bonita do meu trabalho tirada no ano de 2012… Afinal de contas é de comunicação que se trata e o Toque é fundamental para falar com o outro ali naquele território de fronteira. O Outro oferece-se a nós quando o desenhamos projetando a imagem pelo traço numa grande folha de papel, uma espécie de pegada do nosso habitáculo. Gosto que me desenhem demoradamente…

terça-feira, 27 de novembro de 2012

Perguntas e respostas na biblioteca escolar

Pois na minha ida à Biblioteca escolar da Padre Alberto Neto em Rio de Mouro fiz um acordo com os alunos: “Vocês fazem-me perguntas…mas eu tenho direito de as fazer também. Concordam?” Como foi Sim, lá saltámos de pergunta em resposta com uma história pelo meio e mais um ou outro poema em hipop. E sabem vocês qual a diferença entre mentira e fantasia? Os alunos sabiam, cada um com a sua opinião distinta; ou não tivessem lido o “Pinok e Baleote” que fala de um menino crioulo muito mentiroso. Não poderia deixar de reparar num menino vestido com a bandeira nacional de Cabo Verde que assistiu com atenção ruidosa a tudo que ia dizendo: sima txintxiroti na figera (como um pardal piando na figueira). Foi uma tarde muito bem passada naquela biblioteca escolar, com muitas, muitas perguntas para outras tantas “respostas verdadeiramente interessantes”.

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

10X10= Zoom


Ligando a sessão anterior, logo a abrir a manhã mostrei o livro “Zoom”, uma espécie de Google Earth em papel; porque é importante saber a diferença entre Olhar e Ver… Hoje foi dia de visita da Judith Pereira que logo se entrosou com o grupo. Foi uma manhã bem disposta, de volta das cartografias pessoais, acrescentando mascotes e os resultados da “Máquina da poesia”.
 Zoom!
 "O homem beija a mulher no mar belo"
 Mascote

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

10X10= Vulcões

Uma imagem para a turma Pief
Livros...
Pois hoje na Abrigada (projeto 10x10 – Descobrir/Gulbenkian) estivemos de volta do planeta e dos temíveis vulcões, transformadores e geradores de vida. Aproveitámos a aula do professor de Ciências e começámos o dia com o conto “Os dragões das Furnas”. A seguir à oralidade (também em suporte livro), a ferramenta escolhida foi o Google Earth que nos permitiu viajar até aos Açores (S. Miguel) numa projeção vídeo. Falou-se da tectónica das placas e vimos uns quantos filmes curtos das fumarolas das Furnas, cenário do conto. Combinámos uma nova navegação com a internet até aos Balantas da Guiné, a Minas Gerais e suas gemas valiosas, Havai  e seu vulcão vertendo lava sobre o oceano…e tantos outros lugares, alguns de origem dos alunos, escolhidos (em coletivo) naquele momento. A última parte da aula foi ocupada a com registos sobre a grande cartografia pessoal, utilizando balões de banda desenhada. Ao surgir a dificuldade de desenhar uma iguana, a Ana Margarida retirou do seu saco uma outra ferramenta poderosa: o livro. Todos folhearam em busca dos seus animais favoritos e surgiram algumas perguntas de zoologia. É importante que se saiba que a iguana marinha, endémica das ilhas Galápagos (vulcânicas) tem características que a distinguem da sua “prima”. No final, o Ilídio achou que a iguana dava um bom brasão (logotipo) para a turma Pief. Assim se vivem os dias abrigados do vento norte pela serra de Montejunto.

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

10X10: A máquina da poesia

 A "Onda"
 Até de olhos fechados se escreve um verso
 Todos de roda da "Máquina da poesia"
 É assim tão difícil desenhar uma mulher?
 O regresso de "super homem" vindo diretamente de Belo Horizonte (Minas Gerais)
Boa onda!
Mais dois dias (“10x10”/Descobrir) passaram na Abrigada, junto dos alunos Pief que vamos aprendendo a conhecer. Em plenário, sempre no início da aula, todos gerimos as tarefas e resolvemos pequenos conflitos. Os jovens parecem apreciar este momento, agora mais calmo, de reflexão. Introduzimos a apresentação de um livro de imagens a cada início dos trabalhos; hoje foi o “Espelho” de Suzy Lee e ontem foi a ”A Onda” da mesma autora. É preciso saber ler as imagens…
A proposta de ontem foi “a máquina da poesia”, introduzindo elementos naturais, cenários, animais, plantas; um desafio de escrita. Aqueles que achavam que não iriam conseguir fazer nada, enganaram-se: até de olhos fechados se escreve um verso. Em breve publicarei por aqui o resultado da “máquina”. Ontem a sessão terminou com um pouco de “Rap”, partindo de autores Portugueses.
Hoje o ambiente foi muito descontraído, dedicado às “cartografias pessoais” (em papel de cenário) e aproveitámos também para ilustrar os poemas escritos na sessão anterior.
As fotografias falam por si…

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Mediação narrada

Créditos fotográficos: Ricardo Ferreira.
Créditos fotográficos: Ricardo Ferreira.
Texto/guião para oralidade utilizado na visita narrada ao triptico "Vanitas" de Paula Rego (Centro de Arte Moderna) durante a conferência "Em nome das Artes ou em nome dos públicos?"
A primeira vez que vi um anjo foi em casa da minha avó Felisbela
Um dia entrei na sala das visitas, era assim que chamávamos àquele quarto fronteiro à rua, e dei com a minha avó compondo as asas de um anjo. Era uma menina de cabelo louro aos cachos, mais ou menos da minha idade…É que a minha avó fazia os fatos para as procissões lá da vila.
Assim que chegava o verão, eu e o meu irmão éramos despachados no comboio para sul ao cuidado do revisor. Quando chegávamos à estação, lá estava o meu avô à espera com seu velho Citroen coberto da poeira dos campos. Foi numa dessas viagens que provei cerveja pela primeira vez…foi o ajudante do maquinista que me deu a provar…
Nessa mesma casa da vila vivia o meu avô, homem simples do campo e a tia Aldina.
A minha tia era especial e tinha três amigas especiais, solteiras como ela:
-Maria da Fé, Maria da Esperança e Maria da Caridade.
Quando a minha avó, que gostava de espreitar quem na rua passava, via descendo a rua as três amigas da tia Aldina que a vinham visitar pela tardinha dizia sempre em voz alta para dentro de casa:
Aldina! Vêm aí as 3 virtudes!
A tia Aldina quase não saia de casa a não ser para ir à matriz onde tinha o seu genuflexório personalizado: Aldina Gonçalves, estava gravado numa chapinha cravada sobre o veludo vermelho da cadeira de missa.
Passava a maior parte do tempo no jardim acanhado tomando conta das flores, sobre tudo rosas que colocava num jarro de presmalte antes de as compor numa jarrinha sobre a mesa do quarto.
Cada vez que a visitávamos trazíamos sempre uma prenda das nossas viagens. O meu pai trouxe umas bonecas assustadoras do “dia de los muertos”, numa viagem que fez ao México… e ela apreciou bastante. Guardava as suas preciosas prendas num grande e austero guarda-fatos que dominava toda a mobília do quarto. Estávamos determinantemente proibidos de tocar no armário sob pena das mais terríveis consequências … E lá estavam todas as bonecas, um pequeno busto que ela dizia ser do bêbado da vila, um ratinho das caldas, um relógio sempre fora de horas, um Pinóquio ainda sem nariz comprido, uma daquelas bonecas de fertilidade montadas numa cruzeta que a minha mão lhe trouxera de uma excursão a Monsanto, o seu cavaquinho que ela aprendera a tocar em menina… E muitos mais objetos fascinantes aos olhos de uma criança, guardados ciosamente, cada um na sua caixa mesmo ao lado de uma coleção de vestidos garridos, pesados e caprichados que quase nunca vestíamos.
-Digo quase, pois em certos dias a tia mudava…Ó se mudava!
O meu avô dizia que era do vento Levante que afetava a cabeça das pessoas mais fracas. Mas cá para mim era mas é do Medronho que ela ia roubar à dispensa deixando a minha avó enervada, pois era um ingrediente secreto dos seus doces domingueiros.
Então a tia Aldina mudava radicalmente, vestia um daqueles vestidos garridos a cheirar a naftalina, cantava, cantava enquanto dispunha uma espécie de altar sobre a mesa do quarto com todos os objetos que ia retirando do guarda-fatos.
-“Duerme mi niña duerme que la muerte no te llevará”…
Quando a minha avó batia á porta para saber o que se estava a passar, Aldina corria uma cortina escondendo aquela bizarra exposição e vociferava. “Aqui não entra ninguém!”…e depois continuava a cantarolar. Acabava por adormecer em cima da mesa enquanto murmurava: “o sono é a antecâmara da morte… O sono é a antecâmara da morte…a antecâmara…sono”
Mas o pior desses dias de que tenho memória, foi num verão em que a minha mãe me oferecera uma grande caixa de pastéis secos dizendo: “toma lá para fazeres pintura sólida”… “É que tinta em casa da tia não pode ser… ela não deixa.”
Nesse final de Verão, bem junto ao equinócio, quando o sueste assobiava bruto pelas janelas da casa fazendo bater repetidamente a porta do quintal com um ruido surdo e persistente; a tia Aldina teve um dos seus piores acessos. Foi ao quintal buscar uma uma foice do meu avô e barrou-se no quarto vociferando num desassossego: A serpente não me matou, a morte não me levou!! “A morte que venha!” Essa desgraçada que me venha buscar que eu estou à espera dela!”
Só me lembro da minha mãe ter pegado em mim e no meu irmão e de nos levar para a rua e daí para o nosso velho Taunos 17m branco estacionado no meio do vendaval.
E nunca mais vi a tia Aldina...
“Bendito e louvado, está este conto terminado”

E se a história começasse assim:
Dizem que um jovem artista alojado no número 21 da Avenue d’Iéna, foi surpreendido no seu sono pelo fantasma de um velho colecionador a quem faltava uma “vanitas” no seu acervo…
Ou…
Contam os guardas do Centro de Arte Moderna, que depois da hora do fecho, quando as luzes se apagam, uma misteriosa mulher de vestido amarelo vagueia pela nave deserta…
Ou ainda:
Era uma vez uma pintora que tinha uma modelo chamada Lídia com quem vivia e que aos poucos a transformou nas personagens das suas histórias…

E qual é a vossa história?

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

10x10: O recomeço


Nas cartas do Tarot, a Morte, representada por um esqueleto de obvia a intenção, ao invés de significar um lado negativo, aponta para a criação de algo de novo. De vez em quando nas relações humanas existem mortes que reorganizam os vivos, fazendo-se os necessários ajustes num grupo para que o caminho prossiga. Vem esta curta reflexão a propósito do trabalho em curso com uma turma Pief (Programa integrado de educação e formação) da escola da Abrigada 24 horas depois de um pico emocional que envolveu toda a escola e os interventores do projeto 10x10 (Programa Descobrir/Gulbenkian). É certo que o nosso trabalho tem corrido bem apesar das naturais dificuldades que se apresentam quando se trabalha com jovens desistentes da aprendizagem, mas não estávamos à espera que um roubo de dinheiro provocasse uma tal agitação.
Durante a aula/oficina, um aluno da turma resolveu retirar todo o dinheiro que eu tinha da minha carteira… Tentadas que foram todas as possíveis abordagens para que o jovem autor desconhecido devolvesse o que não lhe pertencia, foi chamada a GNR ao local da educação. No final, acabrunhado compareceu com um pedido de desculpa tendo o guarda responsável devolvido a quantia encontrada no rapaz. Eram 19 horas quando os quatro guardas, um grande número de professores e duas turmas regressaram a casa, encerrando um dia cheio de emoções. Durante as quatro horas que durou todo este enredo que mexeu profundamente com a comunidade escolar, experimentei várias emoções partilhadas com a minha colega professora e fui arrumando os acontecimentos numa narrativa interior, para me dar mais sossego. Assumi a zanga de forma expressiva em frente aos jovens, fui sincero. Houve momentos em que pensámos que o projeto estaria acabado na escola, mas a comunicação no tandem trouxe a decisão: “Vamos continuar na mesma! Não vamos desistir destes jovens.” Quando o dinheiro apareceu ficámos aliviados e reforçámos essa vontade de seguir em frente. O diretor da escola estava lá, bem como a diretora da turma, uma técnica incansável da CEBI, mais e mais professores, funcionários, guardas todos no meio da noite que era fria mas com um sabor desafiante a recomeço. Nem todas as escolas têm coragem para acolher turmas Pief, merecem pois todo o nosso reconhecimento.
Esta manhã voltámos à turma. O jovem já não estava por lá nem tão pouco o seu Rottwiler (ver texto). Duas turmas em silêncio à espera das palavras que não foram ásperas mas foram verdadeiras propondo a continuidade, acolhida pelos alunos com olhares concordantes e alguns sorrisos económicos.
Retive uma frase da professora, companheira de projeto: “Sempre fui professora…agora sinto-me educadora”.
 
Imagens da construção de uma cartografia pessoal
que irá evoluir ao longo das sessões
Plenário ao sol em frente à casa/ateliê cedida pela direção da escola
Super homem preparando-se para ser registado através do desenho
Tarefa coletiva: registar o corpo inteiro
Sem problemas de género...
Cartografia do corpo à escala 1:1

sábado, 3 de novembro de 2012

Luísa Ducla Soares e um rapaz que tinha um robô


Pois uma das pessoas que mais entusiasmou o bichinho da escrita que já andava a remoer por dentro de mim, foi a Luísa Ducla Soares. Tudo isto começou com o desafio de ilustrar “O rapaz e o robô”… depois continuou em cada oportunidade de convívio que foi aparecendo. Certa vez, no dia mundial do livro, no Palácio Galveias (rede de bibliotecas municipais de Lisboa) tive uma tarefa difícil: a Luísa ia dizendo os seus poemas às crianças e eu tinha que ilustrar ao mesmo tempo (“em tempo real”) numa grande folha de papel de cenário com uma mina grossa de grafite na minha mão…Acho que me safei…
Outra vez fomos a uma escola, um daqueles colégios mais ricos e a Luísa segredou-me: “Agora vão-nos pedir autógrafos e fotografar com os seus telemóveis. Sabes que quando vamos às escolas dos bairros pobres, as crianças nos pedem beijinhos?” E eu fiquei-me com aquela, dita ali no meio de uma multidão de crianças ruidosas que logo começaram a fotografar estendendo livros e papelinhos para que escrevêssemos os nomes. Uns meses mais tarde, no bairro das Galinheiras, fui ilustrar e dizer algumas das minhas maluqueiras aos miúdos do bairro. No final cercaram-me com abraços, pedindo-me beijinhos. Beijei muitas crianças nesse dia, mas sempre com uma lágrima teimosa a querer espreguiçar-se nos meus olhos.
Ilustrações para "O rapaz e o robô" de Luísa Ducla Soares

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Chuva de palavras no Pinhal Novo

Cheguei ao Pinhal Novo no meio de uma grande chuvada…Tal como a boda que é abençoada pela chuva, o meu encontro com duas turmas do 6º ano correu muito bem, para além de ter sido bem divertido. Depois de devidamente desarrumada a sala de aula, adaptada para uma geografia de conversa fomos falando disto e daquilo com algumas perguntas complicadas pelo meio. Uma história aqui, um poema acolá e a tarde passou sem se dar por isso. O convidado especial foi o meu livrito “Pinoke baleote”. Obrigado Teresa Meireles por me teres apresentado os teus alunos. Um recado para os meus novos amigos: não se esqueçam que poderemos sempre continuar a conversa “virtualmente”. Não me esquecerei de avisar quando sair o próximo livro (“Rimas salgadas”).

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

10x10=Abrigada

A estrada serpenteia entre vinhedos até se chegar à Abrigada, ali mesmo no sopé do Montejunto. A escola é pequena, limpa e tranquila. Aqui vão ter lugar as sessões, aulas pouco convencionais, com uma mão cheia de jovens de uma turma PIEF do agrupamento. Trata-se do projeto 10x10 (Programa Descobrir/Fundação Calouste Gulbenkian) que junta dez professores com dez artistas de áreas muito variadas, esperando-se que deste encontro surjam novas práticas de ensino, outras abordagens à tarefa da transmissão de conhecimentos. Noutras nove escolas, os meus colegas de expressão têm uma missão semelhante com alunos do secundário. Trabalho com a professora Ana, de Biologia, uma jovem calma, afetiva que abraça dedicadamente o ofício pedagógico. No nosso caso não vai ser fácil…estas turmas de curriculum alternativo são compostas por jovens que já desistiram da escola. Inadaptados, dizem. Porquê? A primeira pergunta impõe-se como ponto de partida, definidor do desenho da intervenção. Depois, é observar os jovens, encontrar a porta de entrada, a comunicação até chegar à confiança necessária para a troca natural de saberes. Como acordar a noção de planeta com toda a sua variedade natural? Que meios expressivos iremos usar? Como estruturar um conjunto de sessões de educação não formal num universo curricular? Tantas perguntas neste momento de partida.
O primeiro encontro foi ocupado com uma dinâmica de apresentação irreverente, associando cada aluno a seu animal favorito. Logo ali nos fartámos de falar sobre a biologia dos nossos bichos escolhidos, sabendo que eram uma projeção significativa dos alunos. Não faltou um ameaçador Rottwiler, um simpático golfinho e uma enigmática iguana. Desconfiaram, testaram-nos e acabaram por rir. Foi um momento de sedução para o projeto onde não faltaram algumas histórias naturalmente disparatadas que contei aqueles jovens especiais.
O diretor da escola cedeu-nos uma casinha vizinha do edifício central para espaço de ateliê: estamos com sorte.


quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Eu sou som assim


Esta semana, no Centro de Arte Moderna (programa Descobrir) temos trabalhado com crianças com deficiência profunda. O Instrumentarium Baschet tem sido o veículo pedagógico para vivenciar o som. Mas acima de tudo é de comunicação que se trata; tarefa persistente em que todo o nosso corpo se constitui ferramenta. O mediador promove o contacto com as esculturas sonoras ao mesmo tempo que estabelece a comunicação com aquelas crianças aprisionadas num corpo discordante, pequenas pessoas habitando um lugar longínquo que tentamos alcançar. Melhoramos o ambiente da nossa sala de ensaios para este momento: reduzimos as luzes e estendemos um tapete confortável, criamos o lugar para esta comunicação. O “Baschet” vai soando espaçadamente, em harmonia tocado por técnicos, monitores e um menino mais autónomo. É um combate genuíno pelo outro, frágil e distante. Tocar, fazer com que a criança sinta a vibração na mão ou na bochecha que esconde um maxilar que ressoa a cada variação sonora. Ir conversando reconhecendo sinais discretos de concordância ou de agrado enquanto manuseamos o instrumento. Ir falando sempre, olhos nos olhos, reconhecendo um piscar de olho ou um gesto ou esgar com significado. Intenso e verdadeiro. No final retiramos os meninos das cadeiras de rodas, deitando-os delicadamente sobre o tapete: tocamos para eles com suavidade. Quando a música para uma menina sem aparente comunicação começa a soltar um canto gutural, como um lamento, outros dois meninos começam a “cantar” também com as suas vocalizações. Ficamos ali em silêncio olhando o canto daquelas crianças. A sessão correu bem. Dentro de mim cresce uma comoção calma que me acompanha até chegar ao ateliê. Mas não consigo pintar.