segunda-feira, 23 de julho de 2012

Para um casal do interior...

Falaste-me da planície e do espelho de água tremeluzente ao fundo da paisagem. Falaste e eu só olhei para ti, para o verde dos teus olhos que se interpunha entre mim e a miragem.
Pensei…Como vamos sobreviver na planura sem mais nada senão a ternura dos dias que se vão sucedendo? Será que tudo isto é excessivamente vazio ou existem razões escondidas no reverso do tronco dos sobreiros? Reinvento todos os dias o horizonte, semeando alentos que me fazem ficar por aqui, pois a tua pele cheira exatamente como este lugar onde me encontro, espiando de soslaio a sombra do teu ombro. E fico. Fico um pouco mais, à espera do voo e do teu arrulhar discreto no beiral que é nosso teto. 

E de repente surge uma reação ilustrada (pintura) ao meu texto. Ora espreitem a ilustração da Rute Reimão. obrigado.

sexta-feira, 6 de julho de 2012

O gradão amarelo

Em torno da grande mesa: A oficina de escrita e leitura
envolveu 22 reclusos do Estabelecimento Prisional de Guimarães
Agora que a minha intervenção no estabelecimento prisional de Guimarães (“Novas memórias do cárcere” – Casa de Camilo/Guimarães 2012) está prestes a terminar, revisito os dias vividos em conjunto com estas pessoas que aqui estão detidas e proponho-vos um olhar sobre o que foi feito: vamos então entrar pelo gradão amarelo (porta de grades que separa a zona comum da área prisional).
Se as primeiras sessões foram de sedução para a leitura e para a escrita, as seguintes foram de produção de matéria escrita e conhecimento mútuo. Mantive uma estrutura organizadora do trabalho, com um momento inicial onde apresentei sempre um texto (poesia ou prosa) e um livro de imagens, sobre o qual era lançada uma proposta de reflexão, aquecendo assim as ideias para o momento criativo. De vez em quando pontuei a minha presença com contos, trazendo assim a oralidade para as nossas sessões. Guardei sempre um espaço para leitura dos textos e que iam surgindo e para propostas de exploração das ideias. Desbloqueei preconceitos em relação à escrita, naturais entre quem não tem hábitos de leitura e tentei que cada um fosse igual a si próprio, à sua cultura de origem, ao seu grau de literacia, à sua personalidade. Promovi ativamente a colaboração em tandem: aqueles cujo grau de escolaridade era mais elevado, ajudaram os menos instruídos. Deu-se até o caso de um recluso de etnia cigana que ditou os poemas que “escrevia na cabeça” a um colega de cela que os passou para o papel. De salientar a importância do recluso “bibliotecário” e um outro jovem que lideraram este processo de apoio aos colegas e organização dos turnos de correção de textos em torno dos PCs, entretanto instalados no espaço de trabalho. Em torno da grande mesa debateram-se ideias e foi dada uma atenção especial a cada um dos reclusos, propondo um projeto pessoal de escrita, acompanhado depois individualmente. Em privado, cada um foi escrevendo aquilo que poderia fazer naquele momento e nas condições particulares em que se encontram, surgindo assim escrita de natureza diversa: poesia mais elaborada, quadras populares de forte sabor Minhoto, histórias de vida, memórias de infância, reflexões e até pequenos Aiku, propostos pela sua estrutura simples e imagética. A ilustração de textos também teve lugar nesta ideia: assim que ofereci um conjunto de lápis, começou a surgir a cor dentro da prisão, acompanhando modestamente as palavras escritas.
De momento, corrigimos os textos produzidos e ultimamos o que foi possível fazer; para alguns, há mais de uma década que não escreviam nem liam nada, para além de legendas ou jornais e o exercício da escrita era meramente funcional e limitado.
Agora, quase no fim do projeto, alguns presos começaram a requisitar livros, doados por admiradores anónimos do projeto “Novas memórias do cárcere”. Foi feito um primeiro contacto com a Bibliotecária Municipal de Guimarães, propondo a organização efetiva de uma biblioteca prisional e aprofundando o sistema de empréstimo já garantido pelo espaço de leitura pública. Levanto aqui a ponta do véu para revelar que vamos propor um conjunto de iniciativas que promovam a continuidade do interesse pela leitura, entretanto nascido.
Saliento aqui o papel fundamental do corpo de guardas prisionais de Guimarães que tudo têm feito para que os reclusos envolvidos pelo projeto continuem crescendo por dentro. Alterar as rotinas prisionais, criar espaços temporais e gerir a segurança concomitantemente com este projeto, dá trabalho e exige dedicação.
Falta ainda editar um livro com a escrita dos reclusos, que será um bom objeto de estudo, bem como um filme que dará uma outra imagem (num outro suporte) dos dias que por aqui se viveram. Quanto aos reclusos, estão já a trabalhar com Tiago Afonso, participando num workshop de cinema.