sábado, 29 de setembro de 2012

Refletindo sobre visitas e mediação nos museus

Detalhe de "Vanitas". Tríptico de Paula Rego (2006) Centro de Arte Moderna - Fundação Calouste Gulbenkian
Este olhar vai-me acompanhar nos próximos tempos...agora que vou ter que mediar esta obra para a conferência "Em nome das Artes ou dos Públicos?"
Como passar assertivamente a informação sobre a peça exposta e deixar todo um território de interpretação livre para o visitante?

Todas as visitas começam com uma interrogação, sendo o mediador de corpo inteiro, qual ator num palco de museu, o facilitador das respostas. O mediador é parte do museu e ocupará um lugar na memória do visitante, junto à peça que perdurará futuro fora. A tarefa de partilhar conteúdos do espaço museológico com sucesso, depende muito do ponto de maturidade pessoal e da interação conseguida com o público. Assim, uma mediação bem sucedida não será aquela feita para o visitante, recolhendo o aplauso do momento, mas sim uma outra, com o visitante, acompanhando todo um processo evolutivo do conhecimento do acervo e seus autores. Transforma-se assim o visitante em público, fiel… Mas uma visita é um momento limitado temporalmente (diferente de uma oficina prolongada) em que nos é exigido uma boa capacidade de comunicação entrosada com o conhecimento profundo da obra a mediar. Simpáticos, comunicativos, assertivos e cultos; poderíamos acrescentar mais uns quantos adjetivos à lista de atributos que devemos possuir em frente às obras de arte. E a pessoa? É impossível deixar a nossa identidade de fora quando mediamos uma obra de arte, tarefa que abraçamos com gosto. A entrega vai junto com a nossa personalidade.
Quero que este momento seja concordante com todo o resto de mim.



Fico

É mesmo assim que eu gosto! Vou a Aviz, perco-me na planície e escrevo um pequeno texto a que chamei “Fico”. Depois vem a Rute Reimão e faz uma ilustração e por fim a Associação de Amigos de Aviz publica na sua revista. Aqui vos deixo o belo trabalho da Rute.

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

"A cor das histórias" na prisão do Montijo

A meio do novo ciclo de sessões pelos estabelecimentos prisionais com o projeto "A cor das histórias" (DGSP/DGLB). Ontem usei a “Máquina da poesia” numa sessão muito concorrida na prisão do Montijo. Tive que controlar alguns feitios mais angulosos e as horas passaram sem se dar por isso. Toda a gente escreveu um pequeno poema ao jeito dos Haiku. No meio de tudo, oiço queixas. A prisão está sobrelotada, faltam coisas essenciais, os educadores são poucos para as solicitações dos reclusos. Falam-me de fome, resultado de intervalos muito prolongados entre refeições (12.00 – 17.30); o jantar à hora do lanche dá lugar à entrega de um reforço alimentar que é jogado como moeda na mesa da sueca. Por vezes trocam-se as canetas que serviriam para escrever poemas nas minhas sessões por cigarros… No meio de tudo um lamento que reconheço e me deixa zangado: o acesso à biblioteca, aos livros. No Montijo a biblioteca prisional encontra-se na área escolar, sendo necessário atravessar níveis de segurança; os presos não têm acesso livre à casa dos livros: só lá podem ir uma vez por semana e poucos de cada vez (3). Quantas vezes não falei desta situação? Mas a estrutura é empedernida. Relembro uma proposta da Maria Cabral para contornar a situação: um carrinho com livros que circularia pela zona prisional interior. De qualquer forma alguns reclusos já começaram a ler, aceitando algumas sugestões que vou fazendo, à medida que os vou conhecendo. A presença da professora de português deixa-me tranquilo, identificamo-nos no método de trabalho e estou certo que saberá aproveitar a energia positiva que nasce nestes encontros; muitos reclusos estão desiludidos com a escola e avessos ao trabalho em torno das palavras. Debatem-se assuntos importantes neste espaço da biblioteca. Inevitavelmente exponho-me, conduzo pulsões, devolvo a palavra, proponho, escuto, respondo e pergunto: saio muito cansado ao final da tarde, perto da hora de “jantar” no estabelecimento prisional. Fico um bom momento parado no carro, olhando o bairro social em frente, arrumando ideias antes de ligar a ignição.


sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Sussuradores...

Sussurrar pequenos contos ou poesia.
Poderiam ser estas as instruções: Procurar um tubo, escolher o tamanho ideal (a diferença de comprimento altera o som),decorar a ferramenta poética bem ao nosso gosto. Abrir um livro, ler, escolher um poema ou um conto. Treinar. Juntar mais uns quantos amigos sussurradores e partir para as ruas.
Poderemos até começar com uma pequena oficina de leitura de poesia ou até fazer um trabalho integrado usando a “Máquina da poesia”, aí cada um escreveria o seu pequeno poema. Depois um momento de construção plástica dos nossos sussurradores e por fim, “invadir” uma praça ruidosa e sussurrar individualmente as palavras a quem passa. Aqui ficam algumas fotos das Palavras Andarilhas, onde os sussurradores marcaram presença.
Querem fazer na vossa biblioteca, escola ou grupo de amigos…?

 Uma bela foto do Fernando Ladeira
 Sofia Maul sussurrando a António Torrado
 Luísa Ducla Soares escutando sorridente

terça-feira, 11 de setembro de 2012

Palavras Andarilhas: Há mulheres destinadas a acordar as palavras adormecidas nos corações dos homens

No caminho para Beja vou feliz, é um momento com que me identifico e me confiro no contacto com os outros, contadores e mediadores como eu. Vou leve apesar das dificuldades económicas que ensombram o encontro: Vou para a cidade dos contos! Já deixei de ser eu cada vez que chego às Portas de Mértola, sou mais vasto: sou Todos. É essa consciência da direção das ideias que me dá alento na viagem. Sinto que podemos fazer a diferença no Portugal triste que sobrevivemos, basta deixar o protagonismo, a festa dos egos, à entrada de um conto ou à porta da oficina que generosamente partilhamos com os nossos pares. Confesso que não vivo o ato de contar como um espetáculo para o aplauso, embora saiba bem o reconhecimento na magia do momento: sempre achei mais importante fazer “com” do que fazer “para”. O conto para mim tem essa função libertadora do apropriar-se da competência da palavra. Quem conta um conto decifra uma história escutada ou escrita; ao escutar descodifica a estrutura narrativa, conferindo-lhe o poder de um futuro leitor. Quero-te para ti leitor, escutador, homem ou mulher capaz de despertar todos os entendimentos do mundo! É nesta convicção acordada que teço os caminhos da palavra.
Há mulheres destinadas a acordar as palavras adormecidas nos corações dos homens. Mulheres que conhecem o contorno das palavras, o seu peso, a sua leveza e…o seu poder. Essas mulheres acordam os homens para a tarefa da cultura que medra lado a lado com o reflorir dos campos: umas escrevem…outras contam. A mulher que me reacordou para a importância das palavras ditas, em pequenos grupos, individualmente ou em público, chama-se Cristina e é Lacobrigense. Estremunhado prossigo balbuciando histórias que por vezes, ganham corpo no papel, convocando razões escondidas na infância para prosseguir comunicando.

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Marcolino, o trolha. Palavras Andarilhas 2012

PALAVRAS ANDARILHAS: Histórias para caber numa mala – Coleção de textos: António Torrado, Luisa Ducla Soares, Rodolfo de Castro, Margarida Fonseca Santos, Isabel Minhós Martins, António Mota, Miguel Horta – para assemblage de objetos de Jorge Pereira. Na cave da Biblioteca Municipal de Beja, aberta durante o encontro.
Em baixo “Marcolino” o texto da minha participação nesta bela ideia. Obrigado Jorge.

“Ó rapaz! Ó rapaz!” E o velho a vociferar lá de baixo. “Ó trolha! Mandrião, não é para isso que te pago!” E lá voltava com ditos acres o mestre da obra, palito ao canto da boca, nariz espetado para cima, para o andaime. Trolha…pensou. Eu cá sou pedreiro, e dos bons! Trolha era no tempo do meu pai e ele tratava o cimento por tu. Velho d’um cabrão… E ele a dar-lhe, a espicaçar. “És trolha, és…e fazes o que eu te mando ó gabrirú. Isto aqui não é saída ao sábado à noite com as flausinas! Isto é coisa de homens!” Era tão fácil… imaginou Marcolino. Era só deixar cair o tijolo direitinho que a natureza fazia o resto: acidente de trabalho. A gravidade não engana. Sabia porque é que o velho andava espigado. Vira-o no sábado à noite a rondar a filha no café do bairro… Ele bem se aproximara da miúda, linda de morrer… Mas a chavala parecia que não dava troco. Estava lá com as amigas agarradas ao telemóvel acompanhadas por um tipo com ar engomado. Mas, mesmo assim a Susanita olhara. Ó se olhara…ele bem vira o brilho afirmativo nos seus olhos fugidios. Só que o mestre-de-obras e pai estava lá a beberricar bagaço com os seus amigos murchos da sueca, a mirar, a mirar: agora fazia-lhe a folha… “Quero essa fiada toda pronta agora de manhã, ainda há muito para ladrilhar no rés-do-chão. Ouviste ó engatatão das dúzias?” Ladrava o velho. Tu não sabes é do sorriso dela, cheio de promessas, à hora de fecho da esplanada. Sou trolha, sim. Mas assim que largo o trabalho sou o Marcolino limpinho, impecável. Ou não sabes que tenho mais estudos que tu? Que tenho outra vida muito mais interessante que a tua? Afinal só me vês com o pó do cimento agarrado à pele suada… Nem sequer conheces a minha música…”Lino! Lino! Passa-me mais um tijolo” Pedia o colega no varandim do telhado de mão estendida. “Passa lá. Vamos é vergar a mola! Não ligues ao gajo.” Marcolino empoleirado no andaime alçou o tijolo ao colega e o seu calcanhar rodou inadvertido, precipitando um tijolo esquecido pelo vazio das alturas.