terça-feira, 27 de novembro de 2012

Perguntas e respostas na biblioteca escolar

Pois na minha ida à Biblioteca escolar da Padre Alberto Neto em Rio de Mouro fiz um acordo com os alunos: “Vocês fazem-me perguntas…mas eu tenho direito de as fazer também. Concordam?” Como foi Sim, lá saltámos de pergunta em resposta com uma história pelo meio e mais um ou outro poema em hipop. E sabem vocês qual a diferença entre mentira e fantasia? Os alunos sabiam, cada um com a sua opinião distinta; ou não tivessem lido o “Pinok e Baleote” que fala de um menino crioulo muito mentiroso. Não poderia deixar de reparar num menino vestido com a bandeira nacional de Cabo Verde que assistiu com atenção ruidosa a tudo que ia dizendo: sima txintxiroti na figera (como um pardal piando na figueira). Foi uma tarde muito bem passada naquela biblioteca escolar, com muitas, muitas perguntas para outras tantas “respostas verdadeiramente interessantes”.

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

10X10= Zoom


Ligando a sessão anterior, logo a abrir a manhã mostrei o livro “Zoom”, uma espécie de Google Earth em papel; porque é importante saber a diferença entre Olhar e Ver… Hoje foi dia de visita da Judith Pereira que logo se entrosou com o grupo. Foi uma manhã bem disposta, de volta das cartografias pessoais, acrescentando mascotes e os resultados da “Máquina da poesia”.
 Zoom!
 "O homem beija a mulher no mar belo"
 Mascote

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

10X10= Vulcões

Uma imagem para a turma Pief
Livros...
Pois hoje na Abrigada (projeto 10x10 – Descobrir/Gulbenkian) estivemos de volta do planeta e dos temíveis vulcões, transformadores e geradores de vida. Aproveitámos a aula do professor de Ciências e começámos o dia com o conto “Os dragões das Furnas”. A seguir à oralidade (também em suporte livro), a ferramenta escolhida foi o Google Earth que nos permitiu viajar até aos Açores (S. Miguel) numa projeção vídeo. Falou-se da tectónica das placas e vimos uns quantos filmes curtos das fumarolas das Furnas, cenário do conto. Combinámos uma nova navegação com a internet até aos Balantas da Guiné, a Minas Gerais e suas gemas valiosas, Havai  e seu vulcão vertendo lava sobre o oceano…e tantos outros lugares, alguns de origem dos alunos, escolhidos (em coletivo) naquele momento. A última parte da aula foi ocupada a com registos sobre a grande cartografia pessoal, utilizando balões de banda desenhada. Ao surgir a dificuldade de desenhar uma iguana, a Ana Margarida retirou do seu saco uma outra ferramenta poderosa: o livro. Todos folhearam em busca dos seus animais favoritos e surgiram algumas perguntas de zoologia. É importante que se saiba que a iguana marinha, endémica das ilhas Galápagos (vulcânicas) tem características que a distinguem da sua “prima”. No final, o Ilídio achou que a iguana dava um bom brasão (logotipo) para a turma Pief. Assim se vivem os dias abrigados do vento norte pela serra de Montejunto.

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

10X10: A máquina da poesia

 A "Onda"
 Até de olhos fechados se escreve um verso
 Todos de roda da "Máquina da poesia"
 É assim tão difícil desenhar uma mulher?
 O regresso de "super homem" vindo diretamente de Belo Horizonte (Minas Gerais)
Boa onda!
Mais dois dias (“10x10”/Descobrir) passaram na Abrigada, junto dos alunos Pief que vamos aprendendo a conhecer. Em plenário, sempre no início da aula, todos gerimos as tarefas e resolvemos pequenos conflitos. Os jovens parecem apreciar este momento, agora mais calmo, de reflexão. Introduzimos a apresentação de um livro de imagens a cada início dos trabalhos; hoje foi o “Espelho” de Suzy Lee e ontem foi a ”A Onda” da mesma autora. É preciso saber ler as imagens…
A proposta de ontem foi “a máquina da poesia”, introduzindo elementos naturais, cenários, animais, plantas; um desafio de escrita. Aqueles que achavam que não iriam conseguir fazer nada, enganaram-se: até de olhos fechados se escreve um verso. Em breve publicarei por aqui o resultado da “máquina”. Ontem a sessão terminou com um pouco de “Rap”, partindo de autores Portugueses.
Hoje o ambiente foi muito descontraído, dedicado às “cartografias pessoais” (em papel de cenário) e aproveitámos também para ilustrar os poemas escritos na sessão anterior.
As fotografias falam por si…

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Mediação narrada

Créditos fotográficos: Ricardo Ferreira.
Créditos fotográficos: Ricardo Ferreira.
Texto/guião para oralidade utilizado na visita narrada ao triptico "Vanitas" de Paula Rego (Centro de Arte Moderna) durante a conferência "Em nome das Artes ou em nome dos públicos?"
A primeira vez que vi um anjo foi em casa da minha avó Felisbela
Um dia entrei na sala das visitas, era assim que chamávamos àquele quarto fronteiro à rua, e dei com a minha avó compondo as asas de um anjo. Era uma menina de cabelo louro aos cachos, mais ou menos da minha idade…É que a minha avó fazia os fatos para as procissões lá da vila.
Assim que chegava o verão, eu e o meu irmão éramos despachados no comboio para sul ao cuidado do revisor. Quando chegávamos à estação, lá estava o meu avô à espera com seu velho Citroen coberto da poeira dos campos. Foi numa dessas viagens que provei cerveja pela primeira vez…foi o ajudante do maquinista que me deu a provar…
Nessa mesma casa da vila vivia o meu avô, homem simples do campo e a tia Aldina.
A minha tia era especial e tinha três amigas especiais, solteiras como ela:
-Maria da Fé, Maria da Esperança e Maria da Caridade.
Quando a minha avó, que gostava de espreitar quem na rua passava, via descendo a rua as três amigas da tia Aldina que a vinham visitar pela tardinha dizia sempre em voz alta para dentro de casa:
Aldina! Vêm aí as 3 virtudes!
A tia Aldina quase não saia de casa a não ser para ir à matriz onde tinha o seu genuflexório personalizado: Aldina Gonçalves, estava gravado numa chapinha cravada sobre o veludo vermelho da cadeira de missa.
Passava a maior parte do tempo no jardim acanhado tomando conta das flores, sobre tudo rosas que colocava num jarro de presmalte antes de as compor numa jarrinha sobre a mesa do quarto.
Cada vez que a visitávamos trazíamos sempre uma prenda das nossas viagens. O meu pai trouxe umas bonecas assustadoras do “dia de los muertos”, numa viagem que fez ao México… e ela apreciou bastante. Guardava as suas preciosas prendas num grande e austero guarda-fatos que dominava toda a mobília do quarto. Estávamos determinantemente proibidos de tocar no armário sob pena das mais terríveis consequências … E lá estavam todas as bonecas, um pequeno busto que ela dizia ser do bêbado da vila, um ratinho das caldas, um relógio sempre fora de horas, um Pinóquio ainda sem nariz comprido, uma daquelas bonecas de fertilidade montadas numa cruzeta que a minha mão lhe trouxera de uma excursão a Monsanto, o seu cavaquinho que ela aprendera a tocar em menina… E muitos mais objetos fascinantes aos olhos de uma criança, guardados ciosamente, cada um na sua caixa mesmo ao lado de uma coleção de vestidos garridos, pesados e caprichados que quase nunca vestíamos.
-Digo quase, pois em certos dias a tia mudava…Ó se mudava!
O meu avô dizia que era do vento Levante que afetava a cabeça das pessoas mais fracas. Mas cá para mim era mas é do Medronho que ela ia roubar à dispensa deixando a minha avó enervada, pois era um ingrediente secreto dos seus doces domingueiros.
Então a tia Aldina mudava radicalmente, vestia um daqueles vestidos garridos a cheirar a naftalina, cantava, cantava enquanto dispunha uma espécie de altar sobre a mesa do quarto com todos os objetos que ia retirando do guarda-fatos.
-“Duerme mi niña duerme que la muerte no te llevará”…
Quando a minha avó batia á porta para saber o que se estava a passar, Aldina corria uma cortina escondendo aquela bizarra exposição e vociferava. “Aqui não entra ninguém!”…e depois continuava a cantarolar. Acabava por adormecer em cima da mesa enquanto murmurava: “o sono é a antecâmara da morte… O sono é a antecâmara da morte…a antecâmara…sono”
Mas o pior desses dias de que tenho memória, foi num verão em que a minha mãe me oferecera uma grande caixa de pastéis secos dizendo: “toma lá para fazeres pintura sólida”… “É que tinta em casa da tia não pode ser… ela não deixa.”
Nesse final de Verão, bem junto ao equinócio, quando o sueste assobiava bruto pelas janelas da casa fazendo bater repetidamente a porta do quintal com um ruido surdo e persistente; a tia Aldina teve um dos seus piores acessos. Foi ao quintal buscar uma uma foice do meu avô e barrou-se no quarto vociferando num desassossego: A serpente não me matou, a morte não me levou!! “A morte que venha!” Essa desgraçada que me venha buscar que eu estou à espera dela!”
Só me lembro da minha mãe ter pegado em mim e no meu irmão e de nos levar para a rua e daí para o nosso velho Taunos 17m branco estacionado no meio do vendaval.
E nunca mais vi a tia Aldina...
“Bendito e louvado, está este conto terminado”

E se a história começasse assim:
Dizem que um jovem artista alojado no número 21 da Avenue d’Iéna, foi surpreendido no seu sono pelo fantasma de um velho colecionador a quem faltava uma “vanitas” no seu acervo…
Ou…
Contam os guardas do Centro de Arte Moderna, que depois da hora do fecho, quando as luzes se apagam, uma misteriosa mulher de vestido amarelo vagueia pela nave deserta…
Ou ainda:
Era uma vez uma pintora que tinha uma modelo chamada Lídia com quem vivia e que aos poucos a transformou nas personagens das suas histórias…

E qual é a vossa história?

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

10x10: O recomeço


Nas cartas do Tarot, a Morte, representada por um esqueleto de obvia a intenção, ao invés de significar um lado negativo, aponta para a criação de algo de novo. De vez em quando nas relações humanas existem mortes que reorganizam os vivos, fazendo-se os necessários ajustes num grupo para que o caminho prossiga. Vem esta curta reflexão a propósito do trabalho em curso com uma turma Pief (Programa integrado de educação e formação) da escola da Abrigada 24 horas depois de um pico emocional que envolveu toda a escola e os interventores do projeto 10x10 (Programa Descobrir/Gulbenkian). É certo que o nosso trabalho tem corrido bem apesar das naturais dificuldades que se apresentam quando se trabalha com jovens desistentes da aprendizagem, mas não estávamos à espera que um roubo de dinheiro provocasse uma tal agitação.
Durante a aula/oficina, um aluno da turma resolveu retirar todo o dinheiro que eu tinha da minha carteira… Tentadas que foram todas as possíveis abordagens para que o jovem autor desconhecido devolvesse o que não lhe pertencia, foi chamada a GNR ao local da educação. No final, acabrunhado compareceu com um pedido de desculpa tendo o guarda responsável devolvido a quantia encontrada no rapaz. Eram 19 horas quando os quatro guardas, um grande número de professores e duas turmas regressaram a casa, encerrando um dia cheio de emoções. Durante as quatro horas que durou todo este enredo que mexeu profundamente com a comunidade escolar, experimentei várias emoções partilhadas com a minha colega professora e fui arrumando os acontecimentos numa narrativa interior, para me dar mais sossego. Assumi a zanga de forma expressiva em frente aos jovens, fui sincero. Houve momentos em que pensámos que o projeto estaria acabado na escola, mas a comunicação no tandem trouxe a decisão: “Vamos continuar na mesma! Não vamos desistir destes jovens.” Quando o dinheiro apareceu ficámos aliviados e reforçámos essa vontade de seguir em frente. O diretor da escola estava lá, bem como a diretora da turma, uma técnica incansável da CEBI, mais e mais professores, funcionários, guardas todos no meio da noite que era fria mas com um sabor desafiante a recomeço. Nem todas as escolas têm coragem para acolher turmas Pief, merecem pois todo o nosso reconhecimento.
Esta manhã voltámos à turma. O jovem já não estava por lá nem tão pouco o seu Rottwiler (ver texto). Duas turmas em silêncio à espera das palavras que não foram ásperas mas foram verdadeiras propondo a continuidade, acolhida pelos alunos com olhares concordantes e alguns sorrisos económicos.
Retive uma frase da professora, companheira de projeto: “Sempre fui professora…agora sinto-me educadora”.
 
Imagens da construção de uma cartografia pessoal
que irá evoluir ao longo das sessões
Plenário ao sol em frente à casa/ateliê cedida pela direção da escola
Super homem preparando-se para ser registado através do desenho
Tarefa coletiva: registar o corpo inteiro
Sem problemas de género...
Cartografia do corpo à escala 1:1

sábado, 3 de novembro de 2012

Luísa Ducla Soares e um rapaz que tinha um robô


Pois uma das pessoas que mais entusiasmou o bichinho da escrita que já andava a remoer por dentro de mim, foi a Luísa Ducla Soares. Tudo isto começou com o desafio de ilustrar “O rapaz e o robô”… depois continuou em cada oportunidade de convívio que foi aparecendo. Certa vez, no dia mundial do livro, no Palácio Galveias (rede de bibliotecas municipais de Lisboa) tive uma tarefa difícil: a Luísa ia dizendo os seus poemas às crianças e eu tinha que ilustrar ao mesmo tempo (“em tempo real”) numa grande folha de papel de cenário com uma mina grossa de grafite na minha mão…Acho que me safei…
Outra vez fomos a uma escola, um daqueles colégios mais ricos e a Luísa segredou-me: “Agora vão-nos pedir autógrafos e fotografar com os seus telemóveis. Sabes que quando vamos às escolas dos bairros pobres, as crianças nos pedem beijinhos?” E eu fiquei-me com aquela, dita ali no meio de uma multidão de crianças ruidosas que logo começaram a fotografar estendendo livros e papelinhos para que escrevêssemos os nomes. Uns meses mais tarde, no bairro das Galinheiras, fui ilustrar e dizer algumas das minhas maluqueiras aos miúdos do bairro. No final cercaram-me com abraços, pedindo-me beijinhos. Beijei muitas crianças nesse dia, mas sempre com uma lágrima teimosa a querer espreguiçar-se nos meus olhos.
Ilustrações para "O rapaz e o robô" de Luísa Ducla Soares