segunda-feira, 29 de abril de 2013

Caça Texturas em Águeda


Vamos caçar texturas em Águeda! Um percurso entre a cidade e o parque Alta Vila, ligando o humano ao natural.
À procura de texturas e sinais, que um pouco por todo o lado, se encontram no chão do parque ou nas paredes da cidade. Como se fizéssemos aparecer a imagem de uma moeda num papel, riscando com um lápis. Recolhendo o desenho da textura de uma nervura, de um ramo e de outros achados surpreendentes. Munidos de grandes folhas de papel, lápis de cera e barras de grafite, os participantes partem à procura de texturas pelas ruas, jardins e praças da sua cidade. Tampas em ferro dos telefones, água e esgotos, baixos-relevos de motivos variados ou texturas naturais que abundam no nosso parque. No fim da manhã, reúne-se a coleção que se conseguiu “caçar” nas folhas de papel. E porque não montar uma exposição?
Procurar uma cidade invisível que passa por debaixo dos nossos passos apressados. Conhecer a origem de cada descoberta feita no parque, desvendando a história da cidade.

Estimular o olhar atento e a sua relação com o desenho.
Desenvolver a cooperação no grupo.
Criar laços com a cidade, entendendo-a.
Descobrir a diferença entre OLHAR e VER…
2 e 4 de Maio - Águeda
Incubadora.Cultural@cm-agueda.pt

sábado, 27 de abril de 2013

Reflexão sobre a COLUMBINA


25 de Abril: solta na escadaria da Biblioteca de Beja (em simultâneo com Castro Verde)
Agora que já descansei do grande desafio que é colocar no terreno o projeto COLUMBINA, escrevo aqui algumas linhas sobre este trabalho de intervenção artística, sociocultural. Intuía-se já, no momento da conceção, que a ideia seria transversal a diferentes idades e origens sociais, sendo paradigmática do tipo de mediação leitora que mais permita um mergulho social. A biblioteca pública, com a sua estrutura e utilizadores acaba por visitar um outro meio habitualmente alheado da mediação leitora: os Columbófilos e suas famílias. A grande surpresa veio da adesão dos jovens à Columbina, na sequência de um trabalho de mediação em torno da poesia, “A máquina da poesia” (que poderá ser consultada nas páginas deste blogue). Juntam-se assim, neste projeto, diferentes grupos de pessoas unidos em torno de um animal: o pombo.
Para os Columbófilos mais acordados, esta ideia representa o reconhecimento da nobreza desta arte alada, permitindo divulga-la entre os mais novos que frequentam as bibliotecas públicas e escolares. Existe uma preocupação com o envelhecimento dos columbófilos sendo este momento um dia feliz na promoção desta Arte tão desconhecida pelo resto da sociedade. Os participantes ao terem a noção exata do conceito que se está a utilizar assumem rapidamente o projeto como seu. Em todas as soltas que temos realizado, os columbófilos tomam a palavra e falam dos seus belos animais: do detalhe da anatomia de voo, alimentação e saúde, deitando por terra preconceitos e divulgando um desporto exigente, metódico que surge do enamoramento pelas aves. É interessante verificar a variedade da origem social destes mestres das aves que conflui numa linguagem única utilizada nos pombais e nas aldeias columbófilas (como é o caso de Beja). De volta do voo, todos se entendem.
De salientar que em dia de “encestamento” (colocação metódica dos animais em caixas, já preparados para o voo) e véspera de uma grande competição de “fundo” (habitualmente 700km – vêm de Espanha para Portugal), uma boa mão cheia de aficionados cederam generosamente os seus pombos para a aventura das palavras. E sabem porquê? Porque não há maior prazer para um Columbófilo do que ver o brilho alegre nos olhos de uma criança quando segura o pombo entre mãos, antes do sinal da partida. E aquele pombo leva um poema escrito pelo menino para outros meninos numa cidade distante…e vai ser lido. A poesia não está só nos pequenos papelinhos rabiscados com poemas, que são presos às patinhas dos pombos com uma borracha colorida, mas também na festa comunitária que o projeto Columbina acaba por gerar; o sentido da Ágora de que venho falando, para uma transformação real da textura humana do nosso país. Devo dizer que o momento do “lanchinho”, mesa farta posta no terreiro dos pombais, é um momento de partilha poética das palavras que chegam dos céus e também de interrogação sobre os estado das coisas e o isolamento de cada um de nós dentro do seu nicho social. Seria impossível fazer a Columbina na totalidade dos seus objetivos sem envolvimento de Columbófilos, famílias, bibliotecários e mediadores do livro e da leitura.
A “Máquina da poesia” antecede o voo através da proposta da escrita poética, ao alcance de todos. Permite entender a poesia no seu cerne mais genuíno, o poder e imagem das palavras, muito antes da rima. É uma atividade simples que não se deve limitar ao encantamento da ferramenta, deve ser mediada conscientemente, fazendo crescer no outro o leitor, o entendedor do sentido das palavras. Quanto mais singela for a nossa intervenção, mais genuína será a resposta e as propostas vão surgindo com a escrita.
Assim, neste e caso, como noutros que vamos conhecendo, a biblioteca pública lança propostas ao meio envolvente, tentando entender o seu lugar e missão num mundo em constante mutação. As bibliotecas escolares ao abraçarem esta ideia, participam no Mundo lá fora, esquecendo por momentos o universo curricular que as tenta agrilhoar.
E os mediadores pensam nas novas ideias que irão propor para melhor se ler o Mundo e sobre ele agir conscientemente.

Para entender melhor o Projeto COLUMBINA…aqui.
 
 

quarta-feira, 24 de abril de 2013

Preparando a COLUMBINA em Castro Verde



 Escrevendo, escrevendo...
 O 9º ano...
Lendo poesia
Com o aproximar do dia 25 de Abril, a azáfama em torno da escrita poética é grande…os pombos estão à espera dos textos… Ontem, dia mundial do livro, foi uma jornada atarefada e cheia na Biblioteca Municipal. Durante o dia jovens e crianças escreveram os seus poemas usando a “Máquina da Poesia”. Trabalhei com um 9º ano divertido, conduzido pelo professor Paulo. Alguns alunos deixaram o contacto junto ao poema, não vá ser  uma bela rapariga a ler o texto retirado da pata do pombo, gerando uma nova amizade no facebook… Depois foi a vez de desafiar para a escrita um 3º ano leitor…saíram textos bem bonitos. À noite tivemos a oportunidade de escutar Fernando Dacosta que nos falou da Ditadura e de Salazar…um bom contador de histórias repondo a urgência da memória. Encerrei a sessão com poesia de Fanha, Gedeão e Alexandre O’ Neill .

segunda-feira, 22 de abril de 2013

O projeto COLUMBINA está no ar!


Foto: por cortesia da Planeta Tangerina
Amanhã, dia mundial do livro, o projeto COLUMBINA ganha asas. Da parte da tarde, em Castro Verde, começam as oficinas de escrita poética, usando “a máquina da poesia”, envolvendo jovens e crianças do concelho. A Ana Isabel anda atarefada a falar com as escolas e com as famílias… No final da tarde, já teremos um molhinho de pequeninas folhas de papel para atar às asas dos pombos. A solta das columbinas será a 25 de abril, comemorando a liberdade. Antes do pequeno “recital” de poesia que farei lá em Castro, terá lugar um encontro com os columbófilos para afinar o voo de 25. Na coordenação de toda esta operação estará o Nelson Batista que a partir de Beja garante o contacto entre todos os envolvidos nesta utopia voadora. Aqui fica um abraço para os columbófilos do Alentejo que abraçaram esta ideia! Ao longo da última semana, Cristina Taquelim promoveu oficinas de poesia na Biblioteca Pública de Beja com o mesmo objetivo: lançar as palavras no ar. Ouvi dizer que já têm uma bela coleção de poemas destinados ao voo das aves…

Às 11 horas em ponto, soltam-se os pombos em Beja e Castro Verde. Depois iremos para os pombais para ver chegar os poemas pelo ar. É sempre bem engraçado pegar no pombo recém chegado, retirar o poema que vem muito bem dobradinho e partilhá-lo com todos os convivas que acorrem às aldeias columbófilas. Como não poderia deixar de ser…vamos ter um lanchinho, mesmo ao gosto do Alentejo: E vivam as COLUMBINAS! E viva a LEITURA!

sábado, 20 de abril de 2013

Partiu o homem que me ensinou a pescar



(O meu Tio partiu)

 Agora sou legado
aquele que fica na praia
olhando a barca
que se aparta
para o outro lado
do tempo

 Poisou
sobre o meu rosto
a poalha da memória
uma carícia…
não vou querer esquecer

 Também um dia
tomarei lugar
nessa barca
de maré certa
Sei…
Então pescaremos
grandes peixes
luminosos
sob a claridade
das galáxias

 E o universo
será límpido
na serena luz
de todos
 os corpos celestes

segunda-feira, 15 de abril de 2013

domingo, 7 de abril de 2013

Guião de trabalho para "Vanitas e a tia Aldina"


Conforme prometido aqui fica o texto/guião do conto "Vanitas e a Tia Aldina" que reuniu um belo número de visitantes este domingo ao longo de 3 sessões no Centro de Arte Moderna. Um outro olhar sobre o triptico "vanitas" de Paula Rego.
"Lá nos campos cantavam nos grilos” - canção

A primeira vez que vi um anjo foi em casa da minha avó.
Um dia entrei na sala das visitas, era assim que chamávamos àquele quarto fronteiro à rua, e dei com a minha avó compondo as asas de um anjo. Era uma menina de cabelo louro aos cachos, mais ou menos da minha idade…
É que a minha avó fazia os fatos para as procissões lá da vila.

Assim que chegava o verão, (as férias eram mesmo grandes nessa altura…) eu e o meu irmão éramos despachados no comboio para sul ao cuidado do revisor. Quando chegávamos à estação, lá estava o meu avô à espera com seu velho Citroen coberto da poeira dos campos. Foi numa dessas viagens que provei cerveja pela primeira vez…foi o ajudante do maquinista que me deu a provar…

Nessa mesma casa da vila vivia o meu avô, homem simples do campo, a minha avó e a tia Aldina.
A minha tia era especial e tinha três amigas especiais, solteiras como ela:
-Maria da Fé, Maria da Esperança e Maria da Caridade.
Quando a minha avó, que gostava de espreitar quem na rua passava, via descendo a rua as três amigas da tia Aldina que a vinham visitar pela tardinha dizia sempre em voz alta para dentro de casa:
Aldina! Vêm aí as 3 virtudes!
A tia Aldina quase não saia de casa a não ser para ir à matriz onde tinha o seu genuflexório personalizado: Aldina Gonçalves, estava gravado numa chapinha cravada sobre o veludo vermelho da cadeira de missa.
Passava a maior parte do tempo no jardim acanhado tomando conta das flores, (mas para mim era mesmo um Museu floral) sobretudo rosas que colocava num jarro de Presmalte antes de as compor numa jarrinha sobre a mesa do quarto.
Lá no quintal havia o Zatopek, um cágado muito rápido. Foi assim batizado pelo meu avô que o recolhera na estrada, já sem uma parte da carapaça (provavelmente atropelado por um carro); como lhe faltava um pedaço…era mais leve e lesto, tal como o famoso meio fundista dos anos sessenta…Zatopek.
Mas deixemos o Zapopek em paz lá no quintal.

 Cada vez que a visitávamos trazíamos sempre uma prenda das nossas viagens. O meu pai trouxe umas bonecas assustadoras do “dia de los muertos”, numa viagem que fez ao México… e ela apreciou bastante. Guardava as suas preciosas prendas num grande e austero guarda-fatos que dominava toda a mobília do quarto. Estávamos determinantemente proibidos de tocar no armário sob pena das mais terríveis consequências … E lá estavam todas as bonecas, um pequeno busto que ela dizia ser do bêbado da vila, um ratinho das caldas, um relógio sempre fora de horas, um Pinóquio ainda sem nariz comprido, uma daquelas bonecas de fertilidade montadas numa cruzeta que a minha mão lhe trouxera de uma excursão a Monsanto, o seu cavaquinho que ela aprendera a tocar em menina… E muitos mais objetos fascinantes para os olhos de uma criança guardados ciosamente cada um na sua caixa mesmo ao lado de uma coleção de vestidos garridos, pesados e caprichados que quase nunca vestia.

-Digo quase, pois em certos dias a tia mudava…Ó se mudava!
O meu avô dizia que era do vento Levante que afetava a cabeça das pessoas mais fracas. Mas cá para mim era mas é do Medronho que ela ia roubar à dispensa deixando a minha avó enervada, pois era um ingrediente secreto dos seus doces domingueiros.

O levante soprava e a tia mudava…Assim que se escutava o rumor zangado do Mar vociferando ao vento na barra…Aldina mudava radicalmente.
Então a tia Aldina vestia um daqueles vestidos garridos a cheirar a naftalina, cantava, cantava enquanto dispunha uma espécie de altar sobre a mesa do quarto com todos os objetos que ia retirando do guarda-fatos.
-“Duerme mi niña duerme que la muerte no te llevará”… (canção)

Quando a minha avó batia á porta (Aldina! Aldina! Que fazes tu irmã?) para saber o que se estava a passar, Aldina corria uma cortina escondendo aquela bizarra exposição e vociferava. “Aqui não entra ninguém!”…
Depois continuava a cantarolar. Escutavam-se uns acordes repetitivos de cavaquinho e acabava por adormecer em cima da mesa enquanto murmurava: “o sono é a antecâmara da morte… O sono é a antecâmara da morte…a antecâmara…sono”

Mas o pior desses dias de que tenho memória, foi num verão em que a minha mãe me oferecera uma grande caixa de pastéis secos dizendo: “toma lá para fazeres pintura sólida”… “É que tinta em casa da tia não pode ser… ela não deixa.”
Nesse final de Verão, bem junto ao equinócio, quando o sueste assobiava bruto pelas janelas da casa fazendo bater repetidamente a porta do quintal com um ruido surdo e persistente; a tia Aldina teve um dos seus piores acessos. Foi ao quintal buscar uma foice do meu avô e barrou-se no quarto vociferando num desassossego: A serpente não me matou, a morte não me levou!! “A morte que venha!” Essa desgraçada que me venha buscar que eu estou à espera dela!”

Só me lembro da minha mãe ter pegado em mim e no meu irmão e de nos levar para a rua e daí para o nosso velho Taunos 17m branco estacionado no meio do vendaval.
E nunca mais vi a tia Aldina...

“Bendito e louvado, está este conto terminado”

quinta-feira, 4 de abril de 2013

10x10 : Sussurrar na Abrigada - Aula Pública

O professor Dilipa preparando-se para escrever poesia de olhos fechados
 Rui Costa
Apresentação da aula pública do 10x10 (Descobrir/Gulbenkian) aos professores do Agrupamento de Escolas da Abrigada: Uma manhã de partilha divertida. Havia uma professora na segunda fila que chorava a rir, literalmente, a cada sussurradela que dava a um colega. Claro que eu e a Ana Margarida pusemos toda a gente a escrever poesia (Máquina da poesia) depois de termos apresentado o trabalho desenvolvido com os alunos da turma PIEF. Foi bom ter a Maria de Assis (Descobrir) connosco e Rui Costa que sempre acarinhou o projeto dirigiu umas palavras simpáticas aos colegas ruidosos que insistiam em sussurrar…
Falta agora oferecer aos alunos das turmas PIEF uma brincadeira sussurrada, com contos pelo meio, antes do final das aulas. O projeto 10x10 vai continuar propondo outras abordagens educativas nas escolas secundárias.


quarta-feira, 3 de abril de 2013

"Vanitas" e a Tia Aldina

Foto: Ricardo Ferreira
Neste Domingo, dia 7 de Abril, apresentarei no Centro de Arte Moderna a minha história “Vanitas e a tia Aldina” em 3 sessões que terão lugar às 11h, 12h e 15h. Trata-se de um texto original construído a partir do tríptico “Vanitas” de Paula Rego com a liberdade de uma intertextualidade que cruza a pintura com referências do meu passado criando um objeto novo: Uma mediação narrada. Este projeto surgiu na Conferência “Em nome das artes ou em nome dos públicos” realizado recentemente na Fundação Calouste Gulbenkian e assenta na crença de que é possível trazer a narração oral para o espaço do Museu através de textos construídos para o habitat da Arte.
Mais em:http://www.descobrir.gulbenkian.pt/index.php?article=5613&visual=2&area=3