quarta-feira, 31 de julho de 2013

Há festa na Paróquia!

Os anfitriões
Pitum, contador de serviço
Contador nº2
Hélder Ambrósio: grande entusiasta da Comunidade
As deixas das histórias escritas nas costas da mão de um contador
 da Lapa do Lobo que não conseguiu narrar
 porque uma fadista teimosa correu connosco do palco

De repente abateu-se uma chuvada monumental sobre As Casas do Visconde e as quase 200 pessoas que se preparavam para almoçar no jardim mudaram-se entre espanto e risadas para o salã o onde continuou a festa da paróquia de Canas de Senhorim. Almoço, espetáculo com contadores e cantares num convívio entre gerações, sendo que os mais velhos estavam em grande número. Gosto sempre de participar nestas festas comunitárias, a lembrar que foram as próprias gentes da terra, com apoio dos Bombeiros que reabriram a Biblioteca José Adelino, espaço independente de leitura pública dinamizado por mediadores locais. As vilas mudam, às vezes devagar e há sempre um casal de alegres teimosos (Pitum e Lira) que generosamente partilham e fazem da comunicação entre as pessoas a maior ferramenta de viragem social. Que venha a próxima festa!

sexta-feira, 26 de julho de 2013

"Livros a Oeste" - Lourinhã


A "Máquina da poesia" esteve na Lourinhã - Festival Livros a Oeste

quinta-feira, 18 de julho de 2013

10x10 - Segunda temporada.


Pés cheios de desenho e dança...
Caracóis contadores de histórias...
A minha infância junta com a tua...a escolha foi do caracol...
O caracol vencedor da Maria João
E dança! Muita dança e desenho com Aldara Bizarro e Hugo Barata.
O projeto 10x10 (Gulbenkian/descobrir) está de volta! Juntamente com uma boa mão cheia de artistas, estou no epicentro de uma residência que prepara a intervenção direta nas escolas. De momento refletimos, experimentamos, rimos, comovemo-nos, registamos, num ritmo intenso, partilhando cada dia com outra bela mão cheia de professores. Uma espécie de laboratório onde, em conjunto, nos propomos encontrar outros caminhos para a prática educativa junto dos alunos do secundário. Diálogo, partilha e risco, pois educar é isso mesmo, quando nos propomos mudar no rumo de uma estrada.
Para saber mais sobre o Projeto 10x10: Aqui

domingo, 14 de julho de 2013

Aberto para obras!


A primeira semana da oficina “Arte em estado de sítio – Aberto para obras!” terminou. Na semana de 22 a 26 de julho, voltaremos a construir museus e exposições no Centro de Arte Moderna, antecipando a grande exposição comemorativa dos 30 anos do CAM: “Sob o signo de Amadeu”.
Sobre a oficina: Como se pensa e prepara uma exposição? Como se escolhem as obras de arte e os artistas que se deseja apresentar? Como se monta e transforma o espaço para que ele mostre e diga o que queremos dizer?
Numa oficina que tem como objetivo principal explorar os mecanismos que permitem a apresentação de uma obra de arte ao público, propõe-se uma introdução à prática curatorial com crianças e jovens, envolvendo audiências e públicos numa visão de “dentro para fora”, enquadrando-o como uma “casa das artes”, viva, em transformação e evolução.

A nossa dupla (Vera Alvelos + Miguel) tem tornado estes conceitos acessíveis através de pequenos exercícios e concretizações plásticas, numa oficina divertida, típica de férias e verão.
Coisas simples:
Todos os dias o desenho coletivo feito com fita
"A mim parece-me um coelho a andar de bicicleta"

sexta-feira, 5 de julho de 2013

"Só Deus me pode julgar"


Só Deus me pode julgar”
(tatuagem nas costas de um recluso do EPR Guimarães)

Finalmente publicado o livro “Memórias do cárcere – revisitadas”! Estão todos de parabéns: quem fez a conceção do projeto, quem financiou, quem acolheu e, sobretudo, quem escreveu.
Uma sessão bem concorrida, casa cheia no Café Concerto do Centro Cultural Vila Flor, com a presença dos reclusos e dos guardas (à paisana) e mesa composta por individualidades, como manda o figurino. Uma projeção de algumas curtas dos presos, serviram para relembrar o habitat de escrita do livro que agora se apresenta. Trabalho cinematográfico de Tiago Afonso, jovem realizador responsável também por um documentário onde se encontra espelhada a realidade dos dias vividos em torno da grande mesa da biblioteca prisional, propondo leituras, lendo e escrevendo…escutando a voz do outro. E que livro! Cartonado, pesado, um belo objeto estético muito bem concebido por Cristina Lamego com fotografias de Sílvia Martins. Um belo e digno livro institucional, a encher o olho de quem lhe toma o peso.
“E as nossas ilustrações”? Interroga-me um recluso na sessão. Falo-lhe, aos nós por dentro, que a opção foi outra, mas os textos estão todos lá numa publicação de grande qualidade… Trata-se conjunto de desenhos que vale a pena publicar: uns ingénuos, outros oníricos, projetos de tatuagens e um texto do Duarte ilustrado numa folha de papel de carta (um precioso testemunho iconográfico do ambiente prisional).
Agora entendo porque não foi publicado o prefácio que me foi pedido para a obra; era um texto escrito para um outro livro, imaginário e mais humilde: daqueles que se folheiam sem cerimónias. Teria sido bom contextualizar a escrita produzida… Só me dei conta deste facto do qual não fui avisado, quando me propus ler (da plateia) um belo poema de André Sapateiro à assistência ali reunida…gostaram. As palavras (essas) saíram tremidas. Sem rodeios, o recluso Duarte Fafe levantou-se, agradecendo expressivamente a minha presença dentro da cadeia, bem como a do Tiago, encerrando assim a sessão. Foram muitas horas seguidas com eles e com os guardas, a quem envio um abraço especial.
No final, o Professor João Serra era um homem contente e com razão: tinha acolhido na Guimarães 2012 um projeto arrojado de grande potencial transformador. O testemunho foi passado ao coração do Minho, seria bom não perder a energia e intervir nas bibliotecas prisionais a Norte.

 O Prefacio esquecido

Talvez estas linhas deem uma ideia dos dias que foram vividos na biblioteca do Estabelecimento Prisional de Guimarães; Primavera ligando ao Verão de palavras.
O livro está aí e é reflexo de uma convivência criativa com 22 reclusos; fala por si nas múltiplas cambiantes da escrita e das motivações. Será que conseguem ver as pessoas antes da escrita? Sim, é disso que se trata, das diferentes personalidades em condição reclusa. É preciso primeiro escutar as vozes e trabalhar a competência da palavra inata no amago do ser: ouvir as histórias de vida, entender as lágrimas em silêncio, e propor horizontes primeiro de escuta com narração oral e pequenas poesias, acessíveis. Depois, é ir mais longe, comunicando com disponibilidade. Ir entendendo as pessoas que se reúnem pela manhã em redor da grande mesa que, aos poucos se vão dando a conhecer no intervalo de uma leitura ou num comentário, depois de terem observado um livro de imagens que mexeu lá por dentro. Identificar a pessoa leitora, eis o primeiro passo para se descobrir o leitor bem diferente do outro que se senta ao seu lado.
Leio um capítulo das “Memórias do cárcere”: é evidente a simpatia pela cadelinha Minerva, extensão do seu dono, num retrato humano que julgam reconhecer algures entre eles. Depois poesia, muita, e trechos de prosa, pequenos contos de autores da língua portuguesa. Surgem os primeiros exercícios de escrita a partir de uma técnica a que chamei de “Máquina da poesia”, coisa simples, um quadro de palavras que interagem entre si para criar pequenos poemas visuais ao jeito dos Haiku.
Mais algumas propostas surgem sobre a mesa. Quem quiser que as leve para escrever…
Valorizei as histórias de vida e a cultura popular: O género? Podiam ser todos. Fui propondo de acordo com o perfil de cada um. Entusiasmei aqueles que já eram leitores a vencerem os seus limites na escrita: todos temos uma voz que nos dita linhas no silêncio. Aqueles que tinham maior escolaridade ajudaram os outros nos seus registos, uns biógrafos circunstanciais. Por isso se encontram biografias neste livro, a par de narrativas pelo próprio punho, que vos apresentamos com a escrita própria de quem as produziu.
Em determinado passo do livro encontramos desgarradas minhotas, falando de festas populares e até uma saudação poética a Camilo terminando com um pedido do autor:

“Memórias de cárceres
Foi a minha inspiração
Agora quero também ler
O Amor de Perdição”

Alguém tem o livro para oferecer a este leitor conquistado?
Arrepiou-me a história de uma fuga ou uma infância perdida e órfã, mas sempre nos reencontrámos em redor da grande mesa das palavras, às vezes só para conversar, com tempo, com toque e com aceitação.
“Bertinho dos tambores” diz que não está habituado a ler …nunca ligou à escola. É construtor de caixas, afaga a pele esticada adivinhando-lhe o som. Peço-lhe que ponha no papel o que é que o construtor diz ao tambor e aquilo que o tambor fala quando gera o som para o tocador. Surge um belo texto sincopado, feito a duas vozes com Jorge: Não são onomatopeias, é mesmo conversa de tambor!
Peço a um recluso Brasileiro que traga a tropical infância para o papel, gracejo com outro sobre a sua “Família metralha”, ele ri-se e escreve, não leva a mal, os passos que deu na vida estão dados. Outro ainda quer escrever uma carta a uma “mulher linda”, dou-lhe um caderno e uma caneta da Casa de Camilo, e ele escreve, escreve. Dois reclusos planeiam em conjunto o que vão fazer depois de soltos: querem ir à Madeira com as suas mulheres e sonham papel fora. Ainda estou à espera que o senhor Francisco me escreva num papel, como se apanham e tratam os grilos…mas ele escreve-me fragmentos agitados de uma vivência atribulada em lugares onde nunca fui. O Teixeira Morais, recluso responsável pela biblioteca, insiste sempre: “A maior parte está cá por falta de instrução, paga-se o mau acesso à educação” – concordo. O senhor Ramires, homem de bom coração diz que não escreve em papel, só na cabeça, então canta, canta naquele timbre de vento nómada, batendo o ritmo com as palmas das mãos sobre a mesa onde escrevemos. E escutamos estupefactos a beleza daquele choro ancestral. Tiago Afonso filma, sabendo ser aquele um momento especial destas “Memórias”.

“Tenho uma dor
Dentro do meu coração
Falta-me o meu Amor
Estou chorando de paixão”

 
No dia em que foi libertado, encantado, quis ir na visita à casa de Camilo. Abraçou o José Manuel Oliveira e perdeu-se no pó da estrada. Ficou só um registo em vídeo.
André Sapateiro e Teixeira Morais foram fantásticos na coordenação e apoio dos colegas, essenciais na elaboração deste livro: transcrevendo a partir da escuta e corrigindo papeis rabiscados na cela. No meio de tudo isto, a surpresa da poesia de André, sopro de alma jovem que não pertence aquele lugar de penumbra.
Paulo desenfreado, como não queria escrever, ilustrou, serenando. Uma caixa de lápis de cor oferecida invadiu a prisão com cor! E o senhor Francisco também desenhou com o Teixeira, as ilustrações para este livro onde figura igualmente um fac-simile das folhas fortes de Duarte, traçadas e escritas como impressões digitais.
Outras coisas soube… mas essas são memórias minhas. Agora faço a minha mala de mediador da leitura e da escrita para partir para outro lado.
O gradão amarelo fecha-se atrás de mim com um estrondo. Gostaria que aquela biblioteca prisional tivesse um patrono: Camilo Castelo Branco.
Sinto uma mão no meu ombro, é Hélder, o chefe dos guardas; simboliza o apoio que toda a prisão deu ao nosso projeto: sorrimos.
Olho mais uma vez o castelo daquela vista privilegiada e parto.
Fica aqui o livro.

Miguel Horta, Verão 2012