quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Rimas quase prontas!


Hoje dei por encerrado o trabalho em torno das ilustrações do próximo livro: “Rimas salgadas”. Ufff! O desenho a lápis demora bastante tempo… Mas é preciso saber parar, embora a tentação de introduzir mais um poema continue lá, sempre. Deixarei os poemas (e respetivas ilustrações) sobre o linguado, o polvo, o golfinho e o bacalhau para um segundo livro igualmente salgado. Mais umas boas horas para revisão de textos e ficará pronto para a digitalização.

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Memória da residência Dez x Dez - II


Devo confessar que no início da residência do Projeto 10x10 (Descobrir/Gulbenkian) tinha uma certa dose de medo, ou melhor, receio de não encontrar nada de realmente útil para o trabalho a desenvolver na escola. Mas aí começou uma espécie de focagem estimulada pelo confronto saudável com o outro/docente. Afinal, parece que tudo está destinado à partida.
A memória é mesmo seletiva. E não tomei nota de tudo o que se disse… valha-nos a Judith Athias que pacientemente registou as ideias expressas naqueles dias – uma espécie de cronista ao serviço da educação. A narrativa continua, incompleta,fragmentada e sem fio cronológico coerente…desculpem:
Ana Rita propõe o diálogo em torno do conceito de mudança e organizamo-nos em tandem, professor/artista, para trocarmos ideias. O que pode ser mudado na Escola? Primeira pergunta. Elisa, professora da Secundária Siomara da Costa Primo debate comigo. Concluímos: “Reduzir o trabalho burocrático libertando o tempo para a tarefa educativa”. O que não pode ser mudado na escola (segunda)? “Não podemos mudar a noção de serviço público". O que poderemos fazer para mudar a escola? “Promover a ideia de intervenção educativa constante junto de outros docentes”. Pelo meio falámos da necessidade de revalorizar o Concelho Pedagógico das escolas, agora demasiado próximo de funções economicistas, referimos a importância das bibliotecas escolares e concluímos que seria importante que as associações de estudantes tivessem um papel mais ativo. E se as mesmas perguntas fossem feitas aos estudantes? Talvez eles referissem que se deveriam mudar as condições logísticas da escola (cantina, casas de banho, computadores…). Elisa está quase certa que eles, os estudantes, não mudariam nada na qualidade do ensino e nas condições de acesso a ele. “Para muitos jovens da Amadora a escola representa mesmo uma tábua de salvação e integração social”, refere Elisa. Será que alguns prefeririam a aula tradicional?  
Um dos textos mais interessantes, apresentados pelos professores foi “O melhor aluno” de Miguel Ángel Santos Guerra que gerou uma conversa bem profunda sobre a condição de aluno em relação com o professor. “O professor é também um sedutor”, escutou-se. Em certa altura alguém concluiu sobre a questão da identidade de aluno: O aluno tem de lidar em primeiro lugar com os pais, depois com a matéria (programa) e gerir ao mesmo tempo tensões tribais, próprias da escola atual (ou será do universo jovem?). “A escola é um reduto de identidade para estes jovens. Deve ser valorizada a identidade por oposição à massificação”. Depois do debate, registei na folha de papel de cenário: “Mais vale ser agente da mudança, cavalgar a mudança, que ser vítima dela”. A imagem de um surfista na crista da onda, controlando a situação. Todos iremos dar à praia, uns embrulhados na rebentação, outros singrando suavemente até ao areal. E ainda outra frase ditada pelo momento: “No âmago de cada mudança voluntária, existe sempre um desejo de equilíbrio”. “Procurar consequências das nossas afirmações” – As palavras da Dina a bailar na minha cabeça, acompanhando toda a residência...
As pernas da Sandra transformadas numa cartografia desenhada
“Trazer o corpo para dentro da Vida, para dentro da escola!” Assim começaram os exercícios propostos por Aldara Bizarro e Hugo Barata. Corpo, movimento, desenho e espaço. Muitos jogos de movimento, toque e geografia dos corpos num dos momentos mais altos da residência. Desenhar com pó de grafite nos pés. O nosso corpo como suporte do desenho e continuação do espaço envolvente, desenhável. E tudo isto relacionado com a produção dos artistas contemporâneos, como muito bem partilhou o Hugo. No dia seguinte, depois da “esfrega” que levei, entrei na sala leve, articulações respondendo misteriosamente a todas as solicitações e as ideias acompanhando o ritmo com agilidade.
Duas professoras recordaram-me o estranho e fascinante mundo da matemática. Mas o meu traço genético de aluno distraído levou-me sempre para as outras paragens.
A Paula falou-nos de “Grupos discretos de isometrias no plano”. Escrevi na minha folha: “beijos secretos todos os dias do ano”. Quando a matemática se aproxima do desenho no espaço, interesso-me. Continua a ser uma relação de Amor e ódio que vou resolvendo cada vez que a matemática prova sua existência na minha vida...
Uma pequena brincadeirinha matemática proposta com os dedos da mão.
 Mas afinal tinha estudado para o teste de geologia! O desafio de identificação de minerais proposto pela Maria João foi a minha pequena vitória. De repente fui transportado para o passado numa aula do Prates (Liceu Camões) com todo o rigor que aquele professor imprimia ao programa. Gostei de por à prova os meus conhecimentos sobre o planeta (rochas), essenciais para a minha obra plástica e definidores de outros campos de expressão pessoal. Só uma marga me baralhou na descoberta: esqueci-me de bafejar a pedra sentindo o seu odor argiloso…
É muito poderoso ter uma Obsidiana na mão,
 uma rocha vulcânica formada sob ação da água e do fogo...
“No som MAAAA, devem retirar a sonoridade da boca”. Exemplificou Margarida Gil, com os dedos recolhendo aquela essência audível a partir dos lábios. “Com o som MEEEE, devem vir para a frente, com o corpo atrás do som”. Não imaginam como eu gosto quando a Margarida nos põe a cantar em uníssono, numa harmonia impensável. O bem que estes exercícios me fazem! Acabo por me soltar nestas residências… Outro exemplo: imaginem o Nuno Cintrão que nos pôs a cantar hip hop de microfone na mão…  
Ana (Filosofia) pede-nos para escolher uma imagem de um conjunto previamente impresso. Interroga-nos sobre a razão da escolha. Reconheço o método da “Foto linguagem” (Paulo Freire) muito utilizado pelos animadores socioculturais do CAOB (Associação a que pertenci) no pós 25 de Abril. E continua a funcionar…
No final a escolha das duplas professor/artista e um pezinho de dança. Fiquei contente com a escolha, já adivinhada: Irei trabalhar na Siomara Costa primo com a Elisa.
Obrigado a todos por mais uma experiência revitalizadora. E agora, toca a ir para a escola!

Fica aqui a referência do Movimento da Escola Moderna muito referido pelo António Pedro: http://movimentoescolamoderna.pt/

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Memória da residência Dez x Dez


No meu conto “As cartas”, uma rapariga escreve cartas a si própria, colocando-as no marco do correio, para não se esquecer das emoções vividas em determinado momento… “Eram as cartas de Rosa como pequenos contentores de emoções vividas, preservadas para posterior consulta”. Foi com este espírito que acabei por alinhavar estas notas sobre a residência do Projeto10x10 (Descobrir/Gulbenkian) que teve lugar neste início de Verão. Seguem em dois post diferentes para não cansar o leitor.


A imensa variedade destes seres que são professores, cada um com uma língua própria, como se fossem uma nova pátria. Cada vez que falam na aula o seu idioma, do outro lado soletra-se conhecimento. Foi esta uma das reflexões vadias que me assaltaram ao reconhecer as diferentes personalidades docentes que ao longo dos dias da residência imprimiram um cunho próprio à comunicação e partilha do saber. Lembro-me de ter escrito no papel de cenário que forrava a sala como um livro novo na primeira semana de aulas: “É desta matéria humana que faremos educação…” Folheio ao acaso as minhas notas, um pouco caóticas, reconstruindo uma espécie de eletrocardiograma dos dias vividos na sala polivalente da Escola Padre António Vieira. Procuro momentos que registei dos outros, artistas e professores. Talvez a história comece por dois chapéus que fomos colocando na cabeça representando os diversos papéis ou situações de que nos revestimos ao longo da vida: uma séria cartola e um alegre chapéu de palha. Assim começámos a falar de educação. A Dina Mendonça propõe um caminho de reflexão e começa a tecer uma grande teia de ideias, com o contributo de todos, sobre uma grande folha de papel de cenário. Ficou assim desenhada uma possível geografia da relação entre educação e aprendizagem.
Noutro momento andei cego, às apalpadelas numa escola desconhecida; senti o perfume de duas alunas que passaram por mim e eu de olhos vendados. Como o som fica ampliado e o tempo distorcido… Ainda estou para saber como consegui identificar um pequeno aloendro só pelo tato… Escuto o António Pedro dizer durante o debate que encerrou o dia: “…ter ou não ter tempo para sentir o universo à nossa volta”. Abria-se assim o tema para a proposta que eu e a Sofia Cabrita apresentaríamos no dia seguinte. E o dia seguinte foi de Caracol! “O nome caracol vem do latim: cochleolus” – como muito bem explicou a Sofia. A ideia foi introduzir o insólito para gerar reflexão e criatividade. A nossa intenção primeira era pensar o tempo, sempre acompanhado com o devido riso provocado pelos jogos escolhidos com a intenção de propor o errar como oportunidade, como algo positivo; gerir o tempo e deixar de sofrer com a falta de tempo. Ao propor duplas de escrita (professor/artista) quisemos contribuir para a consolidação do trabalho em grupo, tão necessário para a intervenção no terreno.
Os professores da escola Siomara da Costa Primo trazem depoimentos reais de alunos da escola sobre as suas identidades e propõem um exercício de escrita, vestindo os papeis daqueles jovens muitos anos mais tarde. Histórias de vida fortes que provocaram a emoção entre todos. Tinhamos também um conjunto de objetos dispostos num tapete que deveríamos relacionar com as narrações.  A mim coube-me uma rapariga chinesa que chamei de Maria Lee. Escolhi um colar bonito que lá estava em cima da manta.Diz o depoimento da jovem em determinada passagem: “Estou apaixonada por uma rapariga portuguesa: a Marta, ela é bonita, doce e carinhosa. Gosto mesmo muito dela e acho que isto é mesmo a sério, o pior é que se os meus pais descobrem vão-se passar, estão convencidos que vou casar com um chinês, um cliente deles que tem muito dinheiro e um carro não sei das quantas. Logo um chinês…” O que se iria passar com Maria Lee trinta anos depois? E o texto saiu assim:
flickr/A-Wix
“Marta! Marta! Maaarta...
Ainda sou o teu Lotus Azul?
Ficas linda com esse colar...
As tuas rugas são como as nascentes do Yangtze, já foram rio contornando os seios, desaguando entre as tuas coxas.
Encontrámos a nossa pátria num corpo comum – Um sentido para o Mundo com o nosso Amor.
Porque me pediste para voltar a Sichuan? Foi para reencontrar as origens?
Lembras-te da Tailândia e como a adoção de Zoe nos mudou completamente a vida? Como tudo ganhou sentido...
Depois Bruxelas, as traduções no parlamento europeu… Como foi decisiva aquela professora de educação física da secundária da Amadora: sugeriu que me dedicasse ao desporto das línguas… E assim fiz o caminho.
Mas nunca mais vi o meu pai.”

São assim as residências: os professores trazem-nos a realidade sentida da escola, a identidade dos jovens num retrato fiel.