terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Tangerinas!

Foto: Margarida Rodrigues
Ficou-me o cheiro das tangerinas agarrado à mão.
Apesar de não ter comigo a Margarida Vieira na realização do curso (“Mediar públicos com necessidades educativas especiais”), tudo correu bem. Um belo conjunto de formandos empenhados que se entrosaram no trabalho em grupo apresentando trabalhos muito interessantes e de fácil aplicação prática. A presença de Simão Costa (“Labmóvel”) foi muito forte, lançando novas ideias para o trabalho com crianças autistas. Ficámos todos com muita vontade de escutar Marta Vidal mais uma vez, sobre os fenómenos neurológicos presentes nas populações com défice cognitivo e autismo. Talvez este campo possa ser mais aprofundado em próximos cursos. Mas com 15 horas de formação é difícil ir mais longe nos conteúdos. Uma das conclusões práticas deste curso, para a estrutura das nossas “Oficinas Museu Aberto” é a necessidade de tornar mais inclusivas as nossas propostas, à semelhança do que já acontece no trabalho com famílias, por exemplo, este ano com a proposta “Sábado sou som” (29 de Março e 5 de Abril). O pequeno módulo de exemplos de trabalho realizado na escola e no interior do país recebeu a aprovação do grupo, o mesmo acontecendo com todos os exercícios práticos propostos: fiquei contente.
Este ano está prevista uma nova realização do curso em Viseu (Teatro Viriato) durante o mês de Outubro.

Máquinas ilustradas

No próximo dia 18 de março, terá lugar mais uma sessão de formação, no Laboratório das Aprendizagens, projeto Levar a Ler. Depois de uma primeira sessão em torno da poesia dita (às vezes até em jeito de hip pop), onde tive a oportunidade de apresentar a Máquina da poesia (ferramenta simples para trabalhar o sentido poético das palavras) fiquei um pouco apreensivo: será que gostaram da metodologia proposta? A resposta chegou agora num pequeno conjunto de fotografias divulgadas pela Danuta Wojciechowska, onde se veem algumas formandas apresentando as suas máquinas, agora ilustradas. Como diz o “pessoal”: Olha que fixe!

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

A Fada das Cartas

Certo dia, no Moinho da Juventude a Rita Pedro que desenvolvia um importante trabalho de filosofia com as crianças do Bairro, propôs ao grupo de crianças com quem refletia que escrevessem as suas perguntas importantes numa carta que seria agarrada a um balão; este seguiria livremente o seu rumo até encontrar alguém que respondesse convenientemente às questões… A largada de balões deu-se no dia de aniversário da Associação.
Lembrei-me de introduzir uma personagem para mediar as perguntas: a Fada das Cartas. Esta ficaria encarregue de responder às crianças, por carta, dirigida a cada uma delas, e assim continuar a reflexão, aprofundando-a cada missiva.
Infelizmente, nunca chegámos a enviar a carta às crianças… a vida da Rita seguiu outro rumo, na direcção das fajãs de Santo Antão.
Como homenagem ao bom trabalho que se pode fazer nos “bairros”, aqui fica o esboço da carta da “Postalinda”:

Queridos amigos e amigas da Cova da Moura,

Estava eu recostada a dormir uma bela soneca numa bela nuvem branca e fofinha, quando fui acordada por um balão que flutuava colado ao meu nariz. Devo dizer que nunca fui acordada por um balão, muito menos com uma carta agarrada a ele, na ponta de um cordel. Acordei com a comichão do balão a roçar o meu nariz e logo quis ver o que vinha na carta...
Mas logo a seguir chegou outro balão e mais outro, uma multidão de balões com cartas agarradas a fios, flutuando mesmo na frente da minha pequena nuvem azul clarinha. Tanta carta para ler!... Logo eu que sou muito preguiçosa para ler e para responder. Mas como tinha que dar resposta, senão levava um raspanete da Fada Madrinha, que é a chefe por aqui, agarrei-me ao trabalho de leitura das vossas cartas, ajudada pela beleza dos desenhos que me enviaram.
Vocês escreveram sobre coisas bem difíceis:
-O Amor, a Vida, a Morte...e mais coisas...
Experimentem lá a fazer as mesmas perguntas aos crescidos! Aposto que nenhum deles vai dar uma resposta em condições. O que vale é que eu tenho uma varinha mágica: sabe tudo! Dá resposta a coisas que eu não sei... E até me dá respostas antes de eu perguntar. E esta?
-É mesmo mágica, a minha varinha...embora eu não saiba dela. Sabem, sou muito distraída.
Dizem que as fadas resolvem tudo. É certo que umas tais três fadas resolveram a história daquela rainha que não podia ter filhos:  lá engravidou, mas o miúdo nasceu com orelhas de burro...ninguém é perfeito, enfim…Nem sequer as fadas. Mas lá resolveram a coisa, e no final o príncipe já sem orelhas de asno acaba por casar com uma bela miúda.
Também na Bela Adormecida as minhas colegas fizeram um bom trabalho. Igualmente, com o mentiroso do Pinóquio, elas tiveram muito sucesso e o rapaz, que era um tretas, acaba por se safar da baleia, dando grande alegria ao velhote Gepeto.
Agora quanto às vossas questões, como é que vou responder se perdi a minha varinha de condão, a tal que dá respostas boas respostas, numa dessas nuvens passageiras que por aqui andam cheias de pressa em chover?
 Mas porque é que eu sou tão desarrumada e distraída? Nem sei em que nuvem deixei a minha varinha…
Pois é... Terão que se contentar com a minha opinião de jovem Fada das Cartas; as mais crescidas deram-me esta tarefa... E tenho as cartas todinhas na minha frente!
 Mas prometo que vou fazer o meu melhor. Afinal sou uma Fada! Quer dizer...mais ou menos da vossa idade, mas sou mágica...
 No próximo balão, não me podem mandar a pergunta mais bem explicada? É que eu tenho de entender muito bem aquilo que me perguntam...
Fico aqui à espera da vossa próxima carta voadora com apetite de leitora.
Entretanto vou procurar a varinha no meio do céu nublado, para vos poder responder como deve ser.

Beijos mágicos da Postalinda (é como as fadas crescidas me conhecem...)
Escrevam, não se esqueçam.

Assinado: Fadas das Cartas (Postalinda)
Foto de Rita Pedro (sessões de Filosofia com crianças)

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Notícias do curso

Em torno da escultura "Durante o sono" de Rui Chafes (CAM)
Foto de Margarida Rodrigues
O curso “mediar públicos com necessidades educativas especiais” vai amadurecendo. Ao fim de 3 edições, penso que afinámos o modelo. Apesar de não termos connosco a Margarida Vieira o curso tem corrido bastante bem: esgotado! Uma composição muito variada de formandos, interessados, o que gera bastante dinâmica. A Marta Vidal tem dado um apoio fundamental para quem quer saber mais sobre os processos neurológicos de algumas deficiências…fiquei com vontade de saber mais. Por fim, Simão Costa apresentou o LabMóvel no contexto da nossa oficina “Eu sou som” sendo brindado com uma salva de palmas no final. Continua no próximo fim de semana. Tem sido muita a procura desta curso, ficando muita gente de fora por falta de vagas; seria bom realizar mais uma edição suplementar, ainda este ano.
Experimentando o corpo com o Lab Móvel de Simão Costa
Foto de Margarida Rodrigues

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

O jogo das expressões

 Aqueles que trabalham com necessidades educativas especiais sabem como é importante promover o reconhecimento das emoções junto dos nossos jovens especiais, com destaque para os autistas. Assim, construí um jogo para as nossas oficinas do programa Descobrir que trabalha os códigos do rosto. Não é muito diferente dos livros de imagens que vemos por aí. A diferença está na escala (ao tamanho de uma cara normal) e na variedade de conjuntos de olhares e expressões dos lábios definindo um vasto conjunto de emoções. Também a personagem base é neutral, não se sabendo bem se é feminina ou masculina. Os participantes jogam à vez, montando uma expressão que mostram aos seus colegas encarregados de a definir por palavras, os adjectivos. Depois,todos terão de copiar com o seu rosto a expressão proposta, experimentando com os músculos da cara o desenho de uma emoção… e funciona!

domingo, 2 de fevereiro de 2014

A propósito do projecto 10x10

Felizes no final da aula pública na Fundação Calouste Gulbenkian
Tudo o que diz respeito à educação deve ser debatido de forma plena, em canal aberto, com os restantes interventores que todos os dias actuam no processo educativo. Como não assumimos a forma de um fórum, aqui vai o meu contributo escrito para o balanço necessário sobre este projecto-piloto que tem habitado os meus dias.
Retive as palavras de Fernando Hernández comentando no último painel da apresentação das aulas públicas, sintetizando (como se fosse testemunha) muito do espírito no nosso projecto:
- Sim! Os jovens estiveram envolvidos na proposta, aquilo que lhes era apresentado fazia (e faz) sentido. Sentiram-se desafiados e gostaram, reagindo. Conseguimos passar alguma inquietação criativa ao longo deste período de tempo e a transdisciplinaridade do nosso trabalho deu frutos, afinal estava próxima da realidade. Ao comunicarmos que a corporização dos dias criativos vividos na sala de aula seria uma apresentação pública, acrescentámos um objectivo, uma pedagogia de projecto, a noção de pertença a uma ideia destinada a ser partilhada.

Mas como me sinto no final de mais um ano do Projecto 10x10 (Descobrir/Gulbenkian), desta vez com um grupo de jovens do 10º ano do ensino regular?

Bela pergunta, sabendo que muitas reflexões se depositarão com o tempo, sobre a planície do conhecimento, numa espécie de processo de decantação, que permitirá às ideias assumirem uma forma clara. Uma das questões que sempre me assolam é a  continuidade da experiência no contexto escolar. Que formas assumirão as nossas propostas depois destes meses de trabalho? O que ficará dos dias? Qual a validade da nossa intervenção? “Great questions, great thoughts  ” diria o mestre Yoda, Jedi em “A guerra das estrelas”.
 É certo que a nossa presença “contaminou” a escola; basta lembrar-me que a  “máquina da poesia” já começou a ser utilizada com outras turmas, promovendo a escrita e o entendimento da palavra junto de outros alunos.
No caso do trabalho com a Professora Elisa Moreira, disciplina de Português na Secundária Seomara da Costa Primo, deparamo-nos com um conjunto significativo de “material” produzido pelos alunos em plena autonomia criativa que importa aproveitar, partilhando com a restante comunidade escolar a criação destes jovens. Assim, considero que seria importante aproveitar esta produção levando-a a outras turmas e outros níveis de ensino, comprometendo os jovens alunos num processo de partilha com a restante comunidade educativa. Uma das músicas compostas a partir do poema “Gatinha” de José Fanha poderia ser apresentada ao ensino básico pelos alunos autores. Faz sentido mostrar através da Biblioteca Escolar os vídeos produzidos pelos alunos do 10º ano em torno da poesia de Alexandre O’ Neill ou Lobo Antunes a outros colegas do mesmo ciclo. Esta visão de outros jovens, como eles, apropriando-se à sua maneira das palavras dos poetas, poderá ser potenciadora de novas aprendizagens, sempre insufladas pela presença activa dos docentes. Este “património” nascido com o Projecto em torno da nossa língua, poderá ser gerido pela Biblioteca Escolar, lugar de excelência para a promoção da leitura em contexto curricular mas com o laivo luminoso da educação não formal.
Nesta linha de reflexão onde a continuidade é o mote para as palavras, seria interessante criar a figura de artista/tutor que teria a função de manter viva a presença da energia artística dentro da escola, cooperando  no encontrar de soluções para as aprendizagens quotidianas.
Faz sentido apostar numa plataforma digital de recursos criativos onde se encontrem espelhadas as nossas "micropedagogias": as pequenas ideias dinâmicas que utilizámos e que contribuem para uma maior fluidez na aquisição de conhecimentos ou servem para ultrapassar alguma dificuldade circunstancial.
Ah… Como me sinto no final do Projecto?
 BEM! É claro… 

Entretanto, achei por bem actualizar este post com um texto de Judith Silva Pereira comentando as minhas palavras. Mais um contributo para o debate:

"Com o pensar do Miguel..."
A Escola não é, nem pode ser, necessariamente um local de “seca”, mas um espaço/tempo onde todos deveriam sentir um bem-estar.
São múltiplos os fatores que impedem que isso aconteça, mas o que sinto é a necessidade imperiosa de reinventá-la.
Cada um que nela habita tem caraterísticas diferenciadas e aí reside a riqueza do ser humano. No entanto, é preciso perceber que muitas das qualidades intrínsecas de cada um estão “adormecidas” e para as acordar necessitamos de projetos como este, onde o entusiasmo e a motivação nascem de um trabalho partilhado, contaminador e onde o lugar privilegiado da aprendizagem não é unicamente a escola, mas o “saltar dos muros”, o romper da rigidez dos métodos, possibilitando a cada um o desenvolvimento de competências de observação, análise, sentido crítico e questionamento, tornando-os protagonistas efetivos de intervenção e mudança.
O domínio das diferentes linguagens, o desenvolvimento das capacidades de atenção, de concentração e de observação, o aprender com recurso a diversas fontes e o criar hábitos de trabalhar em equipa, assumem particular importância para quem acredita que a aprendizagem, nos alunos, não se faz sem esta conquista - este foi o cado das “nossas” duplas.
Deixar sementes como reflete o Miguel é relevante, mas o motor de motivação para a sua adequada apropriação é igualmente importante e necessário.
Esse talvez precise de um incentivador (tutor) artista ou professor!

Mais sobre o conteúdo das aulas: Aqui
                                foto: Rodrigo Ferreira/FCG
Debatendo em painel aberto após apresentação das aulas