terça-feira, 14 de julho de 2015

"Rimas salgadas" na lista do Plano Nacional de Leitura

Soube agora que o "Rimas salgadas" passou a integrar a lista de livros recomendados do Plano Nacional de Leitura (3º ciclo - leitura autónoma). Sempre pensei que o livro fosse mais indicado para o 1º e 2º ciclo...talvez seja mais abrangente. Esperemos pela opinião dos jovens leitores. Obrigado Rui Grácio pelo trabalho em equipa.

segunda-feira, 13 de julho de 2015

Segunda-feira

Esferográfica
Ainda o eco da exposição "Inside Outside" e o trabalho de Bárbara Fonte. Um rabisco feito numa folha de bloco, durante uma reunião do Projeto 10x10 (no ano passado). A reunião estava a ser muito interessante até se intrometer um cabelo...

domingo, 12 de julho de 2015

Inside Outside

José Barrias. Foto de Gianluca Vassallo, 2014. 
“(...) a razão essencial de cada diálogo habita sempre na diferença que o nutre, mas também que a razão que o estimulou e estimula foi e é a plataforma que o uniu, formando e amplificando o nosso percurso expositivo sob a forma de obras abertas a pensamentos, impressões, sensações (retinianas e não) que escorreram e escorrem entre nós e, sobretudo, para além de nós.
Alguém me pode explicar onde fica o território do indizível, aquele que é sempre perseguido pelo traço e pela escrita?
Fui percorrendo errante o labirinto onde as obras de Bárbara Fonte e José Barrias se misturam dialogando como iguais em “Inside Outside” (Plataforma Revólver – Junho/Julho 2015). Uma gramática feita de recursos variados da instalação ao desenho passando pela fotografia, vídeo e...livros.
Sou visitante, num eterno conciliábulo entre o artista, o mediador cultural, escrevinhador e o “gostador” que me habitam inquietos. Cheguei a interrogar-me como seria fazer uma visita-oficina a esta exposição especial… E como seria escrever para uma imagem…e porque não aquele desenho ali ou sobre a fotografia do canário morto entre os pelos púbicos de uma adolescente. Calma! Calma! É só um efeito de contaminação com a imagem ao lado: o canário está morto e vão enterra-lo, como no poema de Jacques Prévert (“le chat et l’oiseau”).
Por cortesia de Bárbara Fonte
Bem… Não se descreve esse território, mas sente-se. O corpo que o diga quando se confronta com as peças. Se deixarem o corpo fazer o que lhe apetece, fica a peça interpretada. Por pouco não fiquei ajoelhado religiosamente (como uma freira) em frente à sequência de fotografias onde a artista (Bárbara Fonte) dá corpo (rosto) a alguns vendavais da alma humana. De qualquer forma, tentei identificar devotamente os diversos verbos ali autorretratados.
Por cortesia de Bárbara Fonte
Essa sabedoria cutânea, instantânea e inconsciente que possuímos, devida apenas ao facto de estarmos vivos, é convocada nesta exposição. Penso: Eu já senti tudo isto, sei do que se trata… Bárbara Fonte confirma as minhas suspeitas no o seu vídeo, caderno de notas, onde página a página, exaustivamente, enumera sensações e desafios à interpretação pessoal. Preto e branco, som em bruto, real como um desenho acutilante; mas afinal fala-se de gente e somos levados para um território estranhamente familiar. Como se Bárbara nos dissesse: Vou explicar-te intimamente como funciona a tua cabeça… A certa altura, há uma janela com um lençol e um corpo de mulher entrevisto em segundo plano; o vento faz voltejar o tecido. O visitante incauto fica feliz pois julga ter vislumbrado uma relação entre esta janela de umbrais em pedra e outras na aldeia de Vilarinho das Furnas (cit. Vídeo “Barragem”, 1979, José Barrias) … São tontos os visitantes das exposições, vêm carregados de referências… (embora a reflexão sobre a ausência encontre eco nesta exposição)
Fotograma de um vídeo de Bárbara Fonte que mexeu comigo
A exposição contém uma enorme densidade de sensações mais profundas do que um qualquer “déjà vu ”, é preciso tempo para a percorrer. Ficamos com a sensação que a sucessão de salas é pequena para conter tanta informação vital. José Barrias Já montou um plano para registar tudo o que se sente: Vamos fazer um inventário humano! Documentar este limbo revertendo-o na nobre arte da literatura… É fundamental a existência de um livro, fechado, para que o nosso olhar nele penetre conferindo-lhe um conteúdo, evidentemente pessoal. Ele sabe que se pode desenhar o indizível com um lápis de palavras. Um dispositivo museológico (caixa de acrílico montada sobre uma peanha) exibe um pequeno conjunto de objetos/esculturas todos da mesma escala; uma espécie de salvados. Heresia: leio-os em sequência como se cada um fossem versos de uma poesia; o último verso é uma ave morta. Noutra sala, o artista conclui que naquele recanto ficava bem uma biblioteca – concordo: coloco os óculos e tento ler um romance em miniatura, consultando de seguida o escaparate.
Quase Nouveau Roman, 2014. Múltiplo de Quase Romance, edição de 5 exemplares, escala 1/10.Inside Outside, 2015. José Barrias com Bárbara Fonte, na Plataforma Revólver, Lisboa.
Adiante, mais desenho (e que desenhos!), sempre em fuga do óbvio, abrindo espaços para ausências e transparências, uma memória do imaginado. Traços que se rebelam do suporte, obrigando a uma leitura global da obra nas suas três dimensões, depois contaminam paredes e toda a galeria é já o ateliê do artista, lugar de experimentação livre. Sente-se a alegria na montagem da exposição e ficamos com a sensação que perdemos o essencial: o momento em se pronuncia a proposta, em que nos decidimos a partilhar um território profundamente humano de desencontro, conferindo-lhe uma resolução estética.
 Bárbara Fonte
Bárbara Fonte

Tempo ainda para falar de cabelos entrelaçados
unindo os dois discursos.
Afinal, toda a gente sabe que os cabelos são desenhados com minas muito, muito finas...