segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

"A electricidade na ponta dos dedos"

Foto Hugo Carriço/EDP

O ano de 2016 abriu com um novo desafio que abracei com força: trabalhar em conjunto com a equipa educativa (e curadoria) do Museu da Eletricidade para o tornar mais acessível, valorizando as características únicas dos seus conteúdos. Podemos chamar a estas sessões como uma formação a pares, essencialmente horizontal na comunicação, dando continuidade a um trabalho que já existia, ao qual acrescentei a minha reflexão. É fascinante esta máquina/museu, cujas entranhas podemos visitar. Em breve Lisboa terá mais um espaço conscientemente amigo das necessidades educativas especiais. Entretanto não se esqueçam de visitar a Ilustrarte, antes que ela vá embora…

domingo, 28 de fevereiro de 2016

Lampedusa num museu perto de si...

Um mar de prata fundida? Ou mercúrio?
O Mar, os céus em fotografias de grande formato a jacto de tinta. Uma sala em particular tocou-me por falar de Lampedusa e do drama dos migrantes.
Assim começou mais uma edição do projeto “Miríade de histórias” que está a ser desenvolvido com o Serviço Educativo de Serralves e com alunos da Escola da Ponte (Escola Moderna/Aves) – um projeto conjunto da Laredo AC e do serviço educativo de Serralves, muito bem conduzido por Joana Macedo. Nesta primeira sessão, uma ida a Serralves para conhecer o Museu, a obra de Wolfgang Tillmans e também esta estranha profissão de mediador de museus. Formámos dois tandens: um monitor Laredo e outro do Serviço Educativo de Serralves. A mim coube-me a fantástica Rita Roque; a visita fluiu naturalmente, até deu espaço para ler a minha ladainha “Fica tão longe Lampedusa”. Agora segue-se uma ida à escola e uma sequência de trabalho a desenvolver pelos alunos, culminando num dia em que serão eles os monitores (por um dia) em Serralves…
Proximamente falarei de outra oferta regular que acontece no Museu de Serralves pela mão da Laredo AC: Visitas em Língua Gestual Portuguesa conduzidas por Joana Cotim e Susana Tavares. Um belo trabalho que nos deixa a todos muito orgulhosos.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

Um dobrão de ouro para quem avistar Moby Dick!

 Ana Pêgo, a bióloga de serviço
 No final de cada sessão, 
cada turma ficou com um painel/diário de bordo
 para recordar os temas abordadados
O que cabe dentro de um cachalote?

Jogo da eco-localização: Os cachalotes vendados 
procuram lulas gigantes no fundo do oceano
Terminou ontem um ciclo de oficinas “Moby Dick” (a baleia branca vai à escola) baseadas na obra de Hermann Melville. Uma oficina descontraída e itinerante de educação para os oceanos, disponível para as escolas do País. É raro descobrir uma bióloga marinha numa biblioteca escolar, mais rapidamente encontraremos um escritor ou um ilustrador partilhando o seu trabalho. Assim, as crianças têm a possibilidade de questionar Ana Pêgo, a bióloga de serviço, ao longo de um mergulho de 3 horas no oceano, conhecendo os cetáceos e fazendo crescer a consciência ecológica. Nestas últimas 2 semanas estivemos no Monte Abraão (Queluz), na EB 1, com arraial montado na biblioteca escolar. Aqui ficam algumas imagens destes dias. Para a semana a oficina Moby Dick seguirá para Pêro Pinheiro. Não se esqueçam de consultar as condições para que esta oficina se realize na vossa biblioteca escolar, aqui, na página do programa Descobrir/Gulbenkian. (Com Miguel Horta, Ana Pêgo e Joana Maria)

terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

Vamos à caça dos Gambozinos?

Notas para uma Intervenção no Museu do Neo-realismo
Vila Franca de Xira 2 de fevereiro 2016.



Escolhi o Wolpertinger (Gambozino), ilustração que fiz em Regensburg (Baviera), para ilustrar a ideia de públicos que ainda não vêm ao Museu, quer por escolha do próprio espaço cultural, quer por exclusão social ditada por características culturais, linguísticas, ou por limitação física ou mental.

Os museus, a par das bibliotecas são casas de olhos grandes: veem para além do formatado e do previsível – representam o melhor balanço que a humanidade pode fazer entre o legado de construção cultural e o devir de novas invenções, conhecimento e criatividade. Dotar os museus de um olhar social significa abrir as portas a públicos habitualmente excluídos por razões culturais, linguísticas, ou por limitação física ou mental. Procurar novos caminhos de comunicação com o público, diversificar abordagens, propor pedagogias participativas são apenas algumas das tarefas exigidas aos museus num mundo em constante mutação onde os conteúdos se interpenetram como se fossem matéria líquida.
 Curadores afoitos e imaginativos e mediadores de museus (Museum mediators) comunicativos, falando a linguagem dos públicos, podem fazer a diferença, tornando olhar mais penetrante, a resposta mais efetiva. Nada obriga os Museus a cumprirem um guião formal em educação (próprio da escola), antes pelo contrário, os museus sendo casas de todos nós, devem possuir um discurso democrático para chegar aos diferentes públicos e uma ferramenta especial para passar o conhecimento e consolidar relações: a educação artística/educação não formal. O facto de chamarmos educação não formal à nossa forma pedagógica de estar no museu, não quer dizer que o conjunto de estratégias e metodologias aplicadas sejam pouco profundas ou que não tenham sido validadas à luz das ciências de educação. Estou certo de que Arquimedes da Silva Santos concordaria comigo.
 
Incluir é um assunto sério, requerendo planeamento e reflexão para além da necessária coragem para ir mais longe em matéria de acessibilidades que, como sabem, transcende a questão das barreiras arquitetónicas. Falamos de tornar os conteúdos acessíveis e possibilitar a fruição das coleções e do próprio espaço do museu – serão necessárias todas as ferramentas pedagógicas disponíveis e a decisão clara das estruturas que gerem os espaços/lugares museológicos.
Para cumprir esta tarefa, importa formar continuadamente os mediadores dos museus, não só no conhecimento especializado das problemáticas mas também em estratégias específicas de interação que este trabalho implica. Como exemplo, poderíamos citar o curso “Mediar públicos com necessidades educativas especiais” (Descobrir/Gulbenkian), Acesso Cultura (mais técnico abordando questões concretas do espaço) ou a formação em continuidade promovida pelo Museu da Eletricidade.
A formação de mediadores tem como reflexo imediato a conceção de respostas originais, próprias de cada museu, respondendo à comunidade incomum que os procura. Assim vemos surgir visitas, oficinas e projetos que manifestam uma grande identidade, refletindo claramente as coleções que possuem (caso da oferta Descobrir/Gulbenkian que abrange os jardins e os dois museus da Fundação, respostas locais, como no Museu de S. Miguel de Odrinhas, Museu do Azulejo, Museu de Serralves e tantos outros)
Foto Carlos Azeredo (FCG)
 Aprofundando as respostas
Quando realizamos percursos e oficinas que respondem às características específicas de cada grupo especial, estamos a desenvolver um trabalho especializado importante mas sem inclusão. Incluir é conseguir desenhar propostas que juntem os públicos especiais com os públicos regulares, conseguindo fazer chegar a todos a mensagem, de forma clara. Cumprindo este objetivo, temos observado o nascimento de iniciativas muito marcadas pela pedagogia de projeto, como é o caso de “Miríade de histórias” (Museu de Serralves ) que integram, na sua génese, o conceito de inclusão, garantindo uma presença justa no museu. Também o programa Descobrir/Gulbenkian propõe atividades dedicadas às famílias especiais onde todos podem participar.
Dizia-me uma amiga (Mãe se um jovem autista) da associação “Pais em Rede” a propósito de inclusão e espaços culturais que “não deveria ser necessário ter de fazer uma marcação para poder fruir do lugar livremente”. Fica a reflexão…
Mas o que fazer quando nos deparamos com visitantes especiais no meio de uma visita? E quando, sem aviso prévio, nos surge um grupo aparentemente regular mas que um olhar atento rapidamente o identifica como diferente? Concluímos que devemos prever estas situações, apostando na construção da resposta e na formação das equipas, salientando a importância de uma identificação prévia do grupo no momento da marcação da atividade.
A prática da anamnese de públicos, antecedendo a atividade no museu, apenas se encontra referenciada (e instituída) no programa Descobrir/Gulbenkian, constituindo-se como recomendação para todos os museus que desejam receber públicos diferentes.
Foto: Por cortesia do Museu Municipal Carlos Reis
Gambozinos
Relembram-nos os teóricos que os Museus são lugares de poder onde, atualmente, a gestão financeira chega a ter mais importância do que a existência da coleção. Existe grande preocupação com o número de visitantes -Mas os serviços educativos acabam de salvar o dia! Uma boa fatiadas visitas e atividades promovidas pelos museus contam com o público escolar (demasiadamente…), compondo os números no momento de avaliação. Também a frequência de públicos especiais contribui (em alguns museus) para estes números.
E que tal trazer outros públicos, excluídos ao Museu?
Esquecida a Revolução Francesa, ficou a populaça proibida de passear pelas arcadas do Louvre…
Falemos, por exemplo, de comunidades ciganas ou público de origem cabo-verdiana? Por mim, estou preparado para fazer uma vista em crioulo sobre qualquer autor contemporâneo… (O crioulo é a segunda língua mais falada na grande Lisboa e Setúbal e não só…). Importa que cada mediador se questione sobre a sua missão nos museus, reconhecendo a vastidão e compromisso do seu papel educativo, contribuindo com a sua criatividade para a construção de respostas assertivas direcionadas para públicos improváveis.
De novo, poderemos abraçar a pedagogia de projeto, construindo ideias que devolvam os olhos aos museus, formando e fidelizando novos públicos. E tudo isto tem uma metodologia própria. Temos um grande número de projetos (como exemplo na Casa da Música, Intervir/Cam e tantos outros em tantos museus) a exigir persistência e continuidade.O resto será mediar o conhecimento com o público com presença e alegria, não esquecendo que parte da nossa missão é servir.  Pois como todos sabem, não existem Gambozinos…
Falemos agora de comunicação, esta outra do interior do museu para a comunidade envolvente. A condição de exclusão ou diferença leva a um isolamento deste tipo de públicos; fechados nas suas casas, instituições ou escolas, não acedem à comunicação produzida pelos museus. Esta situação aconselha os serviços educativos a terem uma atitude ativa na divulgação das propostas, devendo elaborar uma base de dados específica para esta área de trabalho. A produção de materiais de divulgação específicos (como o convite em língua gestual publicado no sítio de Serralves) pode ser decisiva. O contacto pessoal (telefónico ou presencial) assume grande importância, transcendendo a publicação de folhetos, mas nada melhor do que uma ajudinha dos Media, sobretudo aqueles que devem cumprir serviço público. Acrescentar propostas formativas para públicos específicos,organizar fóruns de partilha e informação de conteúdos na área das acessibilidades, dando a palavra aos verdadeiros protagonistas, melhora o nosso trabalho e pode ajudar a abrir a porta dos museus. Estabelecer parcerias com associações ou a colaboração com municípios focada neste campo de trabalho pode contribuir para o surgimento de projetos com elevado impacto social, relembrando a responsabilidade social dos Museus, estreitando laços com a comunidade envolvente.
Enfim…
O Museu é um bom lugar para se olhar, com olhos grandes, o mundo contemporâneo.




terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

Pico Pico, quem te deu tamanho bico?

Um dos nossos meninos especiais achou que seria melhor descalçar-se e ficar confortável na biblioteca.
E que melhor lugar para guardar as sapatilhas do que uma estante com livros?
Dizia-me, no outro dia, uma amiga Mãe que pertence à associação “Pais em Rede” que “não deveria ser necessário ter de marcar uma data para usufruir da oferta dos espaços culturais”. Pois é, tudo deveria ser acessível, incluso; a estrutura informada e preparada para fazer esse acolhimento. É, também, para construir este objetivo que existe o projeto “Um sentir especial” que tem lugar na Biblioteca Municipal de Torres Vedras, muito por persistência e inspiração de Goretti Cascalheira, bibliotecária responsável pela ideia. No passado sábado foi dia de mais uma sessão de mediação leitora junto de famílias especiais. Têm sido pequeninos os grupos que acorrem a esta iniciativa – poucos mas muito interessados. Livros de imagem, pequenos poemas, lengalengas, canções e ...também fomos "à caça do urso" (Michael Rosen/Helen Oxenbury). Aos poucos vamos recolhendo informação que permite ir transformando o espaço de leitura pública inclusivo, contendo respostas adequadas na sua coleção e partilhando formas de mediar a leitura  lá em casa e em todo o lugar que se preste para abrir um livro. Este sábado tivemos uma visita muito especial, o João Pedro Costa da Rádio Miúdos que, como bom jornalista curioso, quis saber junto das crianças o que estavam ali a fazer… 
Ensinado o "Pico Pico Sarapico" a um avô; 
beliscando os dedos que se vão escondendo ao longo da lengalenga.
Toque e sílaba juntos numa brincadeira importante o para a oralidade e motricidade.
existem diversas versões desta lengalenga. 
Aqui fica uma possível:
Pico, pico, Sarapico, quem te deu tamanho bico?
 Foi a Gata Borralheira que come ovos na banheira. 
Salta a pulga na balança. Dá um pulo até à França!
Os cavalos a correr. As meninas a aprender.
 Qual será a mais bonita que se vai esconder?
 Sarapico, pico, pico, quem e deu tamanho bico? 
Foi a velha chocalheira que andava pela ribeira
 Os ovinhos de perdiz prà menina do juiz.
 Os cavalos a correr. As meninas a aprender.
 Qual será a mais bonita que se vai esconder?