sábado, 30 de abril de 2016

Paulo Varela Gomes


À medida que vão desaparecendo as pessoas que nos marcaram, referentes luminosos de quem gostamos, vamos ficando cada vez mais sós nesta caminhada. Obrigado Paulo.
Em baixo, um artigo escrito pelo Paulo no Jornal de Letras em Março de 1985 a propósito da minha exposição Alcantis e fragas (Galeria Novo Século)

terça-feira, 26 de abril de 2016

Desenhar com a luz num espelho só meu

Desenhando com a luz das lanternas em frente ao espelho: brincadeira simples com meninos e meninas autistas.
 Numa das nossas oficinas dedicadas ao corpo (“Espelho meu” – programa Descobrir/Fundação Calouste Gulbenkian) eu e a Margarida Vieira deparámo-nos com dificuldades inesperadas com um grupo de crianças do espectro do autismo que tinham vindo para a nossa oficina – Estava a ser muito difícil focar a atenção e o grupo comportava-se de uma forma fragmentada. Para além de existir um “ruído” permanente por parte de uma assistente operacional responsável (1) pela sala, que insistia em agarrar as crianças mais difíceis, lançando a voz sobre os responsáveis da oficina no CAM, numa atitude de afirmação territorial sobre as crianças - não estávamos a conseguir aquela nossa magia habitual de comunicação. Para conseguir criar um grupo, embora solto, recorremos ao paraquedas (ver aqui, apesar de ser uma publicidade…) e “neutralizámos” a senhora desviando a criança dos seus cuidados, que logo aproveitou para percorrer a sala livremente, parando de vez em quando (por pouco tempo) para participar feliz na proposta. Recomendámos aos participantes adultos que respeitassem a voz da Margarida para não haver sobreposição de instruções, garantindo uma imagem clara de liderança (“loba alfa”) e emissão de uma comunicação sem ruído. Cedo se entendeu que poderíamos encontrar um caminho para a focagem e subsequente trabalho em torno do desenho, usando recursos simples e de fácil perceção. É então que entra aqui a atividade “desenhar com a luz”, em frente ao espelho, pedindo às crianças que, na penumbra da sala, rodassem uma pequena lanterna (cabe na palma da mão) criando formas geométricas. Mostrei ostensivamente que iria fotografar o resultado. É conhecido o interesse de crianças autistas pela tecnologia, a existência de botões intimamente ligados à causa/efeito. Cada vez que faziam um desenho com a lanterna em frente ao espelho, mostrava o resultado no visor da máquina fotográfica. Alguns meninos e meninas entenderam bem a ideia, outros permaneceram no seu mundo apesar dos esforços da margarida - ainda não foi desta… Aqui fica o relato da prática. Talvez vocês com “os vossos meninos/as” possam usar este recuso, partilhando connosco os resultados.
lanterninhas da "loja do chinês" - Cabem na mão e são baratas. 
Atenção: é preciso ter algum cuidado com a intensidade da luz característica da tecnologia LED. 

(     (1)   Tenho vindo a conhecer assistentes operacionais fantásticas que intuitivamente acabam por fazer “manobras” descritas em metodologias de trabalho com autismo de uma forma completamente natural, mas permanece, no geral, a imagem da assistente operacional acima descrita, a par de um outro tipo (igualmente comum nas nossas escolas) a da avozinha, cheia de pena que cobre os coitadinhos de beijos. Efetivamente, é cada vez mais urgente disponibilizar momentos de formação ativa junto destas pessoas nucleares na textura da escola; afinal são elas que acolhem os meninos logo de manhã e garantem todo o ciclo da rotina prática no estabelecimento escolar. 

sábado, 23 de abril de 2016

Da Liberdade e do Medo

Contando a história de "Graco"
A minha amiga Maria Teresa Sá desafiou-me para falar sobre a Liberdade e o Medo no XXVII Colóquio da Sociedade Portuguesa de Psicanálise – uma honra... Partilharam a mesa o Professor João Seabra Diniz a Sílvia Madeira, professora e animadora cultural (sobrinha do nosso Francisco Madeira Luís) com moderação da Drª Rita Marta. A imagem de fundo escolhida para este encontro foi baseada em “Pássaros” de Alfred Hitchcock e a sala estava cheia de… gente douta. Mas lá entrei no tema a que me tinha proposto com uma história, pois claro.
“Certo dia voltava eu da escola, quando uma gralha negra como a noite me saltou à frente justamente no carreiro ladeado de estevas que levava a minha casa, vindo da aldeia. A bicha saltitava na minha frente, até parecia que queria falar comigo. Aos saltinhos, de um lado para outro e eu sem entender nada daquelas revoadas. Baixei-me e agarrei uma pedra que arremessei direto ao alado animal. Mas não lhe acertei. A gralha levantou voo, deu duas voltas no ar e voltou a poisar ali, de novo à minha frente, trocista, saltitando no carreiro. Lá estava a ave negra a saltitar ali na minha frente como que a gozar comigo. Discretamente procurei um outro seixo… senti-lhe o peso. Peguei na pedra e, lesto, atirei-a certeira! Zás! Diretamente na lombeira do pássaro. Acertei-lhe! O animal ficou a esvoaçar na poeira do carreiro…tem uma asa partida – pensei. Peguei nela e coloquei-a na minha lancheira de vime, onde se ficou a debater furiosamente. “Tá quieta, negra criatura…”Nessa noite deitei-me cedo e levei a lancheira com o bicho para o meu quarto. Mas a meio da noite comecei a ficar com febre, arrepios alastrando pelo meu corpo suado. Estou doente – Pensei – É por causa da gralha! Pois…é uma bruxa… A ave negra só pode ser uma bruxa! Levantei-me cheio  de tonturas pegando na lancheira de vime - o animal ainda se mexia dentro dela… Abri silenciosamente a porta do monte para não acordar os meus pais e aproximei-me do barranco fronteiro ao nosso monte. Abri a cestinha de vime… e soltei o negro animal que voou misturando-se na escuridão. Voltei para o meu quarto cambaleando e deitei-me num torpor profundo mas agradável, dormindo como um justo. A febre, a doença passou, como por magia… Mas ainda hoje sonho que o pássaro negro atravessa as paredes do meu quarto para me vir visitar.” (Miguel Horta in “Graco”. Contado a primeira vez no Centro de Arte Moderna na performance “Eisen”, sobre a obra de Rui Chafes). 
Como falar do medo e da liberdade é coisa séria, propus ao nosso grupo de leitura e escrita do projeto “Leituras em Cadeia” (Laredo Associação Cultural) uma reflexão sobre o tema. Acorreram 12 mulheres à sessão promovida por mim e pelo professor Luís Dias (“Âncora” do projeto) na Biblioteca Prisional do pavilhão A do EP Tires. Recolhemos, assim, uma serie de opiniões que partilhei no Colóquio da Sociedade Portuguesa de Psicanálise. Aqui ficam alguns medos numa conversa que nem sempre foi fácil – o tema dos medos relacionados com os filhos foi bastante duro.
Os detalhes são importantes: à porta da prisão ficou a mala com a tristeza e a moça leva agora a alegria na mão.
“Faltam 58 dias para a minha Liberdade. Finalmente vou regressar à Colômbia. Tenho medo que não exista lá ninguém para me receber. “ Tenho medo que a família não me perdoe – diga que sim, mas no íntimo não aceite.”
“Tenho medo que o meu companheiro queira começar de novo. Outra vez aquelas mãos sapudas…e aquela vidinha.” “tenho medo de perder os elos, os afetos.” “Nós aqui estamos privadas de ir e vir.” Mesmo presa tenho situações de Liberdade.” “A minha vingança é gozar a total Liderdade do meu pensamento.” “Cada um deve saber gerir a Liberdade mesmo num universo limitado.” “Liberdade é Vida! Liberdade é medo.” “Tenho medo do que possa fazer dentro daquela cela! Já não a posso ouvir a choramingar. As noites na prisão são longas…” “Tenho medo de ficar livre” “Tenho medo da escolha – cada escolha traz consigo uma consequência.” “”Estou aqui porque não soube ser livre. Não fiz escolhas, deixei-me ir nas escolhas dos outros.” “Há pessoas que não sabem gerir a Liberdade” “Medo de reincidir.” “O Miguel não traga para aqui os filhos juntos com o medo – pode ter consequências terríveis! Olhe que eu saio da sala…” “Medo de não ter tempo” “Medo da morte. Medo da morte dos outros. Medo do sofrimento. Medo do sofrimento que possa causar aos outros” “A proximidade com a morte torna-a mais familiar – acaba com o medo”. Depois disto contei o “Jack e a Morte” (recolha de Tim Bowley).
Lembro-me como foi difícil juntar e interessar um grupo de reclusos crioulos e ciganos na cela/biblioteca da ala F (muito complicada…) do EP Lisboa (Projeto "A cor das histórias") – foram eles que me ensinaram o caminho…. Um dia li um conto de Borges, onde dois adolescentes lutam até à morte depois de terem retirado de um armário (a coleção do pai) duas navalhas amaldiçoadas pelos espíritos dos seus antigos proprietários, rivais sanguinários. Os moços ciganos adoraram o conto. “AAAiii senhor professor! Até arrepia…” Percebi que este grupo específico tinha um gosto especial por histórias com almas penadas: gostavam do Medo. Deixo-vos aqui uma canção de Lenine (músico Brasileiro) “Medo – Me dá medo do medo que o medo me dá”

quinta-feira, 21 de abril de 2016

"Miríade de histórias" no Museu de Serralves - 2016

No próximo dia 24 de abril 
(entre as 11h. e as 12.30h.)
os visitantes do Museu de Serralves
serão surpreendidos por três grupos de jovens estudantes da Escola da Ponte
que por um dia serão Mediadores de Museu
convidando a percursos distintos e incomuns pela coleção Sonnabend.

Joana Macedo com os alunos da "Ponte" durante a visita à exposição "No limiar da visibilidade" de Wolfgang Tillmans
 É assim Abril época de reflorescimentos que tornam mais vivível o mundo que habitamos. Refiro-me ao projeto “Miríade de histórias”(2ª edição) que conclui a sua viagem no dia 24 de abril e, também, ao nascimento do Lucas, filho da Joana Macedo, grande impulsionadora da Laredo Associação Cultural na cidade do Porto. O projeto propõe uma "inversão de papéis” ativa, na qual os alunos participantes entre 12 e 15 anos atuam como mediadores de museus, mas o fazem a partir de seu próprio olhar, do engendrar de sua própria forma de ver e comunicar a exposição. Desenvolvido entre o Museu de Serralves, a Laredo Associação Cultural e a Escola da Ponte, o projeto contou com encontros ao longo de três meses nos quais foram realizados oficinas, debates e encontros nas exposições do Museu. O trabalho desenvolveu-se a par, Miguel Horta e Joana Macedo mediadores da Laredo e Rita Roque e Andreia Coutinho pelo Museu de Serralves; propondo, escutando, comunicando e registando toda a energia coletiva da escola da Ponte. Um belo trabalho do “Educativo”, como costuma dizer Denise Pollini que coordenou ativamente o desenvolvimento desta  ideia a par da Joana Macedo. Uma palavra de apreço para a Francisca Monteiro, Rosa Ângela e Alexandra Ferreira, professoras da Escola da Ponte que souberam acompanhar a viagem reflexiva dos alunos, num espirito colaborativo e inclusivo, característico desta escola de referência do Movimento da Escola Moderna. Obrigado, também, à Diana Cruz pela paciência e empenho na produção desta iniciativa pedagógica. Obrigado a Maria José Vitorino que, pela Laredo, esteve sempre atenta aos detalhes de produção desta aventura nos museus. 
Estão todos convidados, sobretudo os nossos colegas de outros museus, que poderão assim acrescentar reflexão ao debate que vimos fazendo sobre o devir dos museus.
Primeira edição Aqui. Obrigado Liliana Coutinho pelo impulso inicial do projeto!
Miguel Horta e Rita Roque no Museu de Serralves (Exposição "No limiar da visibilidade")

Porto - 22 de Abril - Casa Museu Abel Salazar


Mediar pessoas na casa da Pessoa.
Contributos para uma programação de proximidade
Recomecemos por Utopia, sim, pela ilha que tanto almejamos e poderia bem representar uma casa museu perdida numa malha urbana ou no centro de uma aldeia cercada por bosques. No livro de Thomas Moro a fantástica Utopia é de difícil acesso quer devido a condições naturais quer artificiais. De nada nos serve encerrarmo-nos no nosso conciliábulo perfeito, que até dispõe de um dialeto inventado (talvez o Musês) que apenas serve para alimentar os nossos monólogos criativos. Era bom ter alguém com que falar… Pois bem vamos cumprimentar o vizinho. Este pode ser um bom princípio para a construção de uma programação de proximidade. 

Projeto Columbina 2016 - Beja


"Arribalé!" no Cadaval


segunda-feira, 18 de abril de 2016

Uma Páscoa especial

Margarida Rodrigues interagindo com crianças especiais na oficina "Som contigo" (2 de abril)
Fotografia Fundação Calouste Gulbenkian - Direitos Reservados 
Foram umas férias da Páscoa dedicadas às necessidades educativas especiais, primeiro com mais uma edição itinerante do curso Mediar Públicos com Necessidades Educativas Especiais (Descobrir/Gulbenkian – Margarida Vieira e Miguel Horta), desta vez em Coimbra na APPACDM, terminando com o Sábado de “Arte acessível” (2 de abril) que decorreu em Lisboa na Fundação Calouste Gulbenkian, um momento de partilha e divulgação inclusiva do trabalho vimos desenvolvendo no programa Descobrir ao longo dos últimos 11 anos. Responderam à nossa proposta inclusiva 250 pessoas que animaram os museus e o jardim com a sua presença. A oficina que apresentei junto com Margarida Rodrigues foi “Som contigo” (a partir de uma ideia sonora de Simão Costa - Labmovel).
Fotografia Fundação Calouste Gulbenkian - Direitos Reservados
Achámos muito significativo que uma instituição especializada, a APPACDM de Coimbra, requisitasse o nosso curso para formação dos seus técnicos. Foram 3 dias intensos de formação que terminou em beleza com um conjunto de propostas muito interessantes e passíveis de aplicação no quotidiano desta instituição que trabalha com pessoas especiais.
Uma escultura viva durante a formação que decorreu na APPCDM de Coimbra
durante as férias da páscoa


quinta-feira, 7 de abril de 2016

Em busca de uma biblioteca inclusiva

Aproveito a boleia de uma semana onde muito se vai falar de inclusão nas bibliotecas escolares de Sintra (RBE Seminário Bibliotecas Inclusivas – Secundária Leal da Câmara), para vos dar conta dos últimos desenvolvimentos do projeto “Leituras diferentes” (com origem em financiamento do Município de Sintra, através da sua divisão de educação) que decorre em 3 escolas do Agrupamento de Escolas Monte da Lua e na EB 1 de Mem Martins (AE Ferreira de Castro). No AE Monte da Lua, de momento, estamos a trabalhar em torno da identidade, construindo uma autobiografia (textos e imagem) com ajuda da comunidade e acenando ao futuro. No final, o trabalho terá a aparência de um cartão de cidadão gigante (de corpo inteiro). 
Um cartão de cidadão de corpo inteiro, ainda em construção, na escola D. Fernando (Sintra)
A cada sessão com os alunos especiais, aparece sempre um livro, decorrendo a atividade no pólo da biblioteca escolar da Sarrazola. Durante a semana da leitura, os alunos especiais de Colares puderam desfrutar (na primeira fila) dos encontros que organizámos partindo do meu último livro (Rimas Salgadas). Tanto na Secundária de Santa Maria como na escola D. Fernando o trabalho decorre na sala de ensino especial onde estou a partilhar duas ferramentas que conheci através dos professores bibliotecários: Voky e Tagxedo (obrigado professores!). Em Mem Martins começámos pela “Máquina da poesia” adaptada a um sistema simples de pequenas caixas, que permite que às crianças que não têm a aquisição da escrita completa participem em pé de igualdade com outras de um nível mais avançado. Aqui tratou-se de adaptar uma ferramenta de escrita criativa aos alunos especiais sendo o trabalho desenvolvido no contexto da biblioteca escolar, com a turma toda, ou seja, de forma inclusiva. Estas iniciativas decorrem até final do ano letivo nos dois agrupamentos de escolas de Sintra e, a seu tempo, partilharei aqui no blogue notícias sobre o desenvolvimento do trabalho, bem como algumas conclusões extraídas da prática.No entanto poderei apontar já algumas ideias surgidas com o contributo da Biblioteca Municipal de Torres Vedras onde, em paralelo com o programa escolar acima apresentado, venho desenvolvendo o meu trabalho de mediação leitora e necessidades educativas especiais.
-É importante que os responsáveis de balcão ( “serviço de referência”) possuam formação sobre estes leitores incomuns. O mesmo se aplica (pelo menos) aos professores bibliotecários ou técnicos das salas infanto-juvenis.
-Talvez se possa pensar em introduzir discretamente em cada ficha de livro, alojada no programa informático de empréstimo e pesquisa, uma referência que ajude na tarefa de acolhimento e aconselhamento de leitura (ou utilização),por exemplo: “muito útil com autismo”. À medida que a coleção for sendo testada (livros, jogos, CDs), é importante criar uma ficha simples de exploração para o profissional que faz o acompanhamento do utilizador no espaço de leitura – Isto ainda faz mais sentido se a escola for de referência para uma determinada deficiência. Ir conhecendo a coleção da biblioteca à luz deste ponto de vista dá-nos liberdade e segurança na  mediação leitora …
-O segredo não está só na coleção, depende fundamentalmente da qualidade da mediação leitora, na capacidade de comunicação do interlocutor no espaço de leitura.
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