quarta-feira, 15 de novembro de 2017

Oficinas improváveis no A E Madeira Torres.

Ana Gonçalves trabalhando o livro "Zoom"
As oficinas improváveis continuam pelas Bibliotecas Escolares do concelho de Torres Vedras. A última sessão foi no Agrupamento de Escolas Madeira Torres, e constituiu-se como um momento inclusivo na Biblioteca Escolar. Os alunos do ensino especial estiveram lado a lado com os colegas de uma turma do  ano. Boa parte da sessão foi conduzida pelas mediadoras Vera Fortunato e Ana Gonçalves que deram bem conta do recado. Estas intervenções nas escolas têm sido aproveitadas para formar as técnicas da Biblioteca Municipal de Torres Vedras em mediação leitora e divulgar metodologias e livros muito úteis junto dos alunos com necessidades educativas especiais. Mais aqui.

domingo, 12 de novembro de 2017

Na rota dos contadores...

Na sexta-feira à noite participei na Rota dos Contadores, promovida pelas Bibliotecas de Lisboa (BLX). A sala da Biblioteca Camões estava bem composta e o público com uma boa escuta. Contei na sala mais misteriosa, a mais antiga… Com o ambiente certo para contar a história dos dois fantasmas. A Cristina Flor tirou as fotografias que dão ideia da atmosfera da biblioteca. Comecei por um trio de contos de África e depois perdi-me alegremente com o público, escolhendo as histórias e poemas, ao correr da água. Na assistência, muitas caras conhecidas, amigas, dando conforto ao narrador. Obrigado ao Luís e aos outros técnicos da biblioteca. Temos de repetir!...

quinta-feira, 9 de novembro de 2017

10x10: Uma locomotiva pedagógica no Entroncamento

 De parede em parede, antes de um Mógóró!
Em grupo
25 de outubro de 2017
A vida corre sempre muito veloz… Antes que me esqueça, quero dar-vos notícia de uma oficina do Projecto 10x10 (Gulbenkian/Descobrir) que nesta reta final do ano promove o livro “Ensaios entre e arte e educação” com especial enfoque nas micropedagogias propostas. Desta vez, coube-me a mim e à Maria Gil, promover a oficina na Escola profissional Gustave Eiffel (Entroncamento) junto de um grupo de professores motivado e bem-disposto. A formação decorreu num fantástico ateliê de expressões, com porta virada para a rua. Já conhecia a escola de um encontro anterior e tinha ficado agradavelmente surpreendido pela qualidade do espaço (e espantado ao ver uma bela locomotiva a vapor, adormecida no meio das árvores) e pelo interesse demonstrado por um pequeno grupo de docentes que lançou este pedido à Fundação Calouste Gulbenkian. Esperemos agora que frutifique. Podem contar com a minha colaboração!

quarta-feira, 8 de novembro de 2017

Encontro Mithos a Ler

Teve lugar no fim de semana passado, sexta e sábado, o primeiro encontro da Mithos a ler, uma Biblioteca sediada na Mithos- histórias exemplares em Vila Franca de Xira. A Laredo está profundamente empenhada neste projeto que conta com o apoio da Fundação Jumbo. Uma biblioteca em construção (na coleção e nas propostas) que vai crescendo, aberta a toda a gente, comunitária e inclusiva. Este espaço de leitura e empréstimo está dedicado à população com deficiência e não só, pretende desenvolver cada vez mais as vertentes formativas e informativas, não esquecendo a fruição de momentos lúdicos. Ao longo deste ano, tenho desenvolvido uma formação regular de mediadores da leitura voluntários, que assim, poderão intervir junto de utilizadores com necessidades educativas especiais. Um dos projetos mais interessantes, desenvolvidos nesta associação é o “Vem calçar os sapatos do outro” da responsabilidade de Joana Maia, que pretende sensibilizar a comunidade escolar para as problemáticas da deficiência, nomeadamente o que diz respeito às acessibilidades. A Biblioteca Municipal de Vila Franca de Xira, “Fábrica das Palavras”, foi a anfitriã deste encontro que abriu com a presença da secretária de estado da inclusão, Ana Sofia Antunes e Manuela Ralha, a inspiradora presidente da Mithos, agora na condição de vereadora do município. Assim, as honras da casa foram feitas pelo Sérgio Lopes e pela Joana Maia. A equipa esteve toda presente e empenhada neste encontro que abordou temas muito variados, como refere, on line, Manuela Barreto Nunes “Falou-se de bibliotecas públicas e escolares, leitura, acessibilidade e inclusão. Hoje as tertúlias dedicam-se às políticas sociais para a vida independente, ao associativismo e participação juvenil, e à educação e mediação leitora. Tanto que se faz e é desconhecido, tanto que há para fazer. E tanto que os bibliotecários têm que aprender para que a inclusão não seja palavra vã.” Gostei bastante da mesa moderada por Vitor Figueiredo, diretor da Biblioteca Municipal e nosso anfitrião, nunca tinha dialogado com Manuela Barreto Nunes e, a avaliar pela participação do público, correu-nos bem…  A noite foi de dia 3 de novembro pertenceu aos contos! Ao lado do meu amigo Thomas Bakk e de Maria Abelha (biblioteca municipal), fomos noite fora, abrigados do temporal no Museu do Neorrealismo. Estava quase sem voz, mas fui salvo por um chá de gengibre e mel, prontamente preparado pela Joana Maia à hora do jantar. Foi uma bela sessão, adocicada pela abelha… Thomas Bakk encerrou o serão com o "Romance de Pedro Alemão", fazendo com que Maria Abelha perdesse a cabeça no meio de uma risada geral. No dia seguinte estava sem pio. E foi uma grande mesa, aquela a que assisti, moderada pela Manuela Ralha, com o deputado Jorge Falcato (amigo de antigos combates culturais), a maravilhosa Margarida Fonseca Santos e a professora bibliotecária Maria João Filipe que tem desenvolvido um trabalho notável de acessibilidade a conteúdos e inclusão nas bibliotecas do Agrupamento de Escolas de Mafra. No encerramento do encontro, Maria José Vitorino sorria: A falta que faz uma bibliotecária!…


sexta-feira, 27 de outubro de 2017

Mercado dos ilustradores no Folio

 pelo olhar do Mário Rainha Campos
Mergulhei no desenho durante o mercado dos ilustradores, convocado pela Mafalda Milhões para o Folio Ilustra. Deram-me uma banquinha (que conheço da fruta de Torres Vedras) e montei o estaminé, ladeado de bons vizinhos (vem as fotos aqui). Levei os meus livros, apenas umas barras de grafite e folhas de papel. A banca tinha imensos buracos que foram o mote para desconstruir as ilustrações, como se consegue ver na bela imagem captada pelo Mário Rainha Campos. Depois o resto foi o habitual, um poema ali, e logo depois uma canção e, claro, ilustrações feitas a pedido dos pequenos leitores (que lá foram todos contentes com a folha na mão). No final, o Mário convocou os feirantes para uma bela fotografia de família. Olhó passarinho!

"Dona Graça, 
a bela garça,
vai à praça de manhãzinha,
pela graça com que passa,
mais parece uma rainha,
 por isso o povo dos bichos clama,
 DONA GRAÇA VAI À PRAÇA!
 Mas faça lá o que faça,
 é sempre uma grande dama..."

Maria Alberta Menéres

Afinal não foi assim tão DILFÍCIL...

Lá apresentámos o “Dilfícil Leitura” no Fólio Educa e correu tudo bem. Apesar disso, registo que a comunicação não chegou aos destinatários ideais deste nosso projeto: unidades de ensino especial, estruturado ou de multideficiência (em ligação com biblioteca escolar). Se calhar até chegou….mas o receio, o isolamento ou a inércia fez com que os profissionais que trabalham com crianças especiais não se inscrevessem para a nossa partilha pública (?). De qualquer forma, recebemos alguns professores e uma animadora, da parte da manhã, que contaminámos da melhor maneira com a nossa crença na possibilidade da leitura junto de crianças do espectro do autismo ou portadoras de multideficiência. Da parte da tarde recebemos uma turma regular (também tinha uma criança referenciada) que se juntou ao nosso grupo misto. Acho que conseguimos passar a ideia… Foi muito bonito ver o empenho e a cumplicidade dos nossos alunos monitores que acompanharam os seus colegas especiais nas apresentações (demonstrações) dos livros, sempre coadjuvados pelos adultos. E de repente, já as crianças estavam autónomas, recolhendo livros, manipulando e mediando… sem necessidade de nenhum adulto. Uma das professoras do Cadaval que acompanharam as crianças disse-me em determinada altura: "Não se conseguem distinguir os docentes das auxiliares "; pois é, todo fazem tudo, somos mesmo um colectivo. Logo de manhã apareceu a Goretti Cascalheira da Biblioteca Municipal, de alguma forma a grande responsável por este acontecimento, na medida em que iniciou há 3 anos um programa específico de promoção do livro e da leitura junto das necessidades educativas especiais, chamando a atenção a Maria José Vitorino, ela também bibliotecária e curadora do Folio/educa, que abriu a possibilidade desta proposta ao Agrupamento de Escolas de S. Gonçalo, articulando a proposta com a professora Helena Brígida da Rede de Bibliotecas Escolares. A professora bibliotecária Joana Rodrigues tratou de abraçar a ideia! Foi uma bela caminhada até chegar ao Folio/Educa. Motivando a comunidade escolar, juntando à ideia os professores de ensino especial e as auxiliares de educação, depois, ainda, trouxemos os alunos monitores para o projeto. As famílias aderiram  a Câmara Municipal disponibilizou o transporte. Criámos uma espécie de metodologia piloto que poderá ser utilizada por outros agrupamentos de escolas, propagando a “Revolução Inclusiva”.
partilhando leituras com outros profissionais de educação
Sabemos que no agrupamento de Escolas de S. Gonçalo (Torres Vedras) segue um projeto, o “Ler é ser especial”, que necessita de todo o apoio que lhe possam dar, incluindo o financeiro, de forma a aprofundar o que foi conseguido. O Dilfícil Leitura tem ainda uma tarefa a realizar: a elaboração de um conjunto de guiões (fichas de exploração), passíveis de ser introduzidos nos programas de gestão bibliotecária, e que darão pistas para a mediação leitora especial junto de crianças com necessidades educativas especiais. Por aqui vos daremos conta…

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

Dilfícil Leitura: quase em Óbidos

Esta imagem tem um grande significado para mim...
Fala muito sobre a equipa que está a trabalhar no centro escolar da Ventosa.
Quando uma Professora de ensino especial trabalha com o livro...
Estamos prontos para ir a Óbidos partilhar os nossos livros e a nossa forma de trabalhar. Os alunos monitores, que formam tandens com meninos e meninas do ensino especial, estão a ficar bem afinadinhos. A professora Joana Rodrigues já alinhavou um guião para nos orientarmos e, em breve, teremos uma ficha de exploração (proposta) para cada um dos livros apresentados. As auxiliares de educação estão entusiasmadas. As professoras de ensino especial empenhadas. O agrupamento solidário. A Biblioteca Municipal (que é a "culpada" disto tudo), atenta, garante o transporte. E a organização do Folio/Educa tem sido fantástica com o nosso grupo especial, garantindo a logística. Obrigado aos Pais por confiarem em nós e na natureza do nosso trabalho. Já sabemos que vamos receber um grupo de Cadaval, da parte da tarde. A organização do Folio/Educa tem sido fantástica com o nosso grupo especial.
Querem colaborar na revolução inclusiva? Lá vos esperamos no dia 24 no Espaço O

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Bairro leitor - Leitura de proximidade


Notas alinhavadas para a comunicação no Colóquio
"Leitura, Literacia e Cidadania: Práticas e desafios"
promovido no âmbito do projeto Bairro Leitor
11 de outubro 2017
 Antes de falar de algumas iniciativas de mediação leitora no projeto Bairro Leitor, gostaria de abordar um tema em que tenho pensado ultimamente: a deontologia e a sinceridade na mediação cultural, junto de comunidades em exclusão.

História de uma relação
 No dia em que Ele lhe disse, quero-te para ti, a relação mudou completamente. Ela pode medrar livremente, tornando-se ainda mais interessante do que já era. Cresceu, ganhou autonomia e personalidade. E Ele, cada vez mais apaixonado, conseguiu conservá-la sempre junto a si, não porque a prendesse ou manipulasse mas porque dela se aproximava subtilmente, sem intrusão, solidário a cada iniciativa, enfim com um profundo respeito e sem gota de paternalismo.
Aqui poderemos começar a brincar aos contextos das relações.
Ela, neste contexto, será sempre a comunidade/bairro e o papel atribuído a Ele poderá ser assumido por diferentes personagens, vejamos.
Primeiro. Ele é político e respeita a comunidade sem a querer manipular, apoia-a, e ela reage reconhecida. Ele não olha para ela como uma reserva de caça aos votos e resiste às diversas tentações dos políticos…
Segundo. Ele é uma IPSS, associação sociocultural (…)  Ela é fundamental para a sobrevivência da estrutura. Precisa daquela comunidade para continuar a pagar os salários aos seus funcionários com projectos e subsídios recebidos… Será que Ele quer que Ela melhore, evolua ou cresça muito?
Terceiro. Ele é uma associação local só crescerá se houver dinâmica, mudança visível nela. E se Ela não se quiser transformar? Se não tiver consciência da importância da mudança?
Quarto. Ela é comunidade/bairro e pretende ficar solteira, ponto. No entanto sabe que quer mudar e só precisa de Ajuda e apenas querendo que a oiçam, quando pensa em conjunto.
Quinto. Ele é mediador cultural (1), está encarregado de promover o livro, a leitura, as artes, as literacias de um modo geral. Vem animado de uma crença transformadora. Não tem ambições territoriais pois já está comprometido. A sua primeira tarefa é conhecê-la. Sim! A Ela, a comunidade! Estudar. Passear pelo bairro. Ver e ser visto. Interagir. Registar. Pensar. E começar a construir o Perfil Leitor (2) do bairro, o que implica ter uma ideia quase completa do nível de literacia da comunidade. Fica a saber onde pode ser útil. Ele sabe que os processos de transformação se conseguem pelo lado de dentro, recuperando a comunicação, o diálogo, reerguendo a Ágora de forma justa. Uma justiça de trato e na relação com os habitantes.

A mediação cultural

O trabalho desenvolvido numa comunidade, em torno das literacias e de diferentes leituras conduz a um maior entendimento do mundo e à autonomia operativa das populações. A existência de uma Biblioteca viva ou outro lugar de comunicação, contribui para a melhoria da qualidade de vida e permite retirar as pessoas do isolamento, nos bairros ou nas suas células familiares, num mundo que fez o seu retorno ao privado (3). O mediador sabe como é importante preservar os nichos culturais, a sua cultura idiossincrática, tradições, línguas, rotinas e eventos, em articulação saudável com o mundo contemporâneo. Um mundo em mutação rápida, líquido, que urge entender para dar segurança aos passos que damos (4).  
As pessoas não entendem logo os processos da mediação cultural. Estão habituadas ou a calar ou falar aos berros com as estruturas. O mediador é mesmo estranho: não é da Junta, não é da “Judite”(5) , nem de nenhuma seita invasiva e fala de leitura onde ninguém lê… De arte onde quase ninguém vai ao museu. Não trabalha pelo outro, não trabalha para o outro… trabalha com o outro, coopera (6).  A mediação cultural (neste projeto com as dimensões da arte e das literacias) promove a comunicação e o diálogo através dos livros, do conto, do movimento, do desenho, de dinâmicas variadas todas elas seguindo uma metodologia própria. Usa métodos colaborativos. Interage questionando, deixando que o outro construa a sua resposta pessoal. A mediação cultural é paciente e conhece o valor do tempo. Gesta lenta, persistente como uma combustão sem chama.
Imagem colhida durante a formação
"Ler, Escrever, Contar Histórias"
7 e 14 de outubro - Biblioteca do Bairro
 A mediação do livro e da leitura permite experimentar diferentes emoções, encantamentos e outras reações, promovendo o diálogo interior e exterior de quem participa nas sessões. Uma abordagem não formal na partilha do conhecimento, longe dos cânones, promovendo a qualidade do tempo na companhia do outro. Uma miríade de possibilidades!... O mais difícil é passar a umbreira da porta da biblioteca ou do outro.
Links (exemplos) para 3 situações citadas, realizadas durante esta fase do projeto Bairro Leitor (Bip/Zip):
Comunidade Cigana: Aqui
Comunidade de origem Cabo-verdiana: Aqui
Trabalho transformador na escola local: Aqui

Notas
(1) O mediador dedica-se a estabelecer pontes de passagem para o conhecimento, potenciando experiências culturais significativas capazes de operar transformações no indivíduo e no meio envolvente. Assenta na crença de que a fruição da produção cultural e dos seus meios de expressão permitem um entendimento mais claro do mundo que habitamos, tornando cada um de nós um cidadão mais capaz de agir sobre os destinos do planeta, das comunidades e da sua própria vida.
(2) Conceito Laredo desenvolvido ao longo do projeto “Leituras em Cadeia” (Projeto da Fundação Calouste Gulbenkian)
(3) Citando Orlando Garcia
(4) Citando Zygmunt Bauman
(5) Polícia Judiciária

(6) Djunta Mon. Na língua cabo-verdiana para além da cooperação, traz consigo a ideia de construção física, por exemplo, uma casa

sexta-feira, 13 de outubro de 2017

Nova temporada de "Baleizão, o valor da memória"



A nova temporada de BALEIZÃO,o valor da memória está aí! Estão previstos espetáculos para Lisboa no Museu do Dinheiro (19, 20 e 21 de outubro - Gratuito) e no Festival Ar com presença em Tábua e Mira… No final do espectáculo haverá uma conversa entre os dois artistas, Aldara Bizarro e Miguel Horta e o público presente, sobre as memórias convocadas no palco.
 Não me lembro quando é que se instalou a cotação do Baleizão lá em casa mas lembro-me muito bem da minha Mãe utilizar o Baleizão sempre que eu queria uma coisa que os meus pais não tinham possibilidade de comprar. Dizia-me assim: Sabes, isso não posso comprar porque custa muitos Baleizões. Às vezes, quando eu insistia, dizia-me a quantidade, 5, 10, 20, ou 30, conforme os casos. O Baleizão, que a minha mãe utilizava para cotar o valor das coisas impossíveis, era um gelado, de uma cervejaria com o mesmo nome, da cidade onde eu vivia, Luanda, em Angola. Custava 2$50!
 Esta é a carta que dá início ao exercício de memória e de celebração da vida, entre dois amigos, realizada através da troca de cartas, textos, desenhos e fotografias sobre as suas infâncias, vividas em países diferentes, na década de 70. No palco, convocam memórias das suas infâncias; uma vivida em Angola durante a guerra colonial; a outra em Lisboa, com uma forte marca do barlavento algarvio.
Concepção e direcção de Aldara Bizarro
Interpretação e co-criação de Miguel Horta e Aldara Bizarro
Coprodução do Museu do Dinheiro 2017.
Apoio da SMUP

Em circulação, disponível para Teatros, Museus, Bibliotecas (...)
Nota de 1 Baleizão (1B$) - A moeda única da Memória
Uma criação de Miguel Horta para o espectáculo "Baleizão, o valor da memória"

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

Bairro leitor: Contos no Casalinho da Ajuda


Algum dia teria que ser…
Lá contei em conjunto com o Adriano Reis numa sessão que batizámos de “Na boka note”. O evento decorreu na Escola Básica Homero Serpa que generosamente abriu as portas à comunidade na sexta-feira dia 6 de Outubro. O Adriano trouxe as suas histórias de Santo Antão (até fiquei a saber a verdadeira história da fajã das Janelas). Ficámos com umas ideias a bailar na cabeça… Acho que foi bem engraçado e o público, maioritariamente de origem cabo-verdiana esteve muito atento às histórias que iam surgindo ora em português ora em crioulo. Uma iniciativa do projeto Bip/Zip “Bairro Leitor” que está a chegar ao final da primeira fase.

Uma intervenção enquadrada na Biblioteca do Bairro, com petiscos pelo meio (uns maravilhosos pasteis de milho com recheio de atum)

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

Oficinas improváveis regressam a Torres Vedras

Aprendendo a fazer o "Luzinhas"
Torres Vedras, 4 de Outubro. Recomeçaram as “Oficinas Improváveis”, com a primeira sessão na biblioteca escolar da Escola Básica nº1, no centro da cidade. Trata-se de uma iniciativa com a assinatura da Biblioteca Municipal de Torres Vedras que envolve várias bibliotecas escolares e unidades de ensino especial do concelho em torno dos livros e da palavra. Com periodicidade mensal, estas oficinas intervêm junto de crianças e jovens com necessidades educativas especiais, promovendo a utilização do livro e de outros recursos das bibliotecas, numa perspectiva inclusiva.  Ano após ano, a Biblioteca Municipal tem apostado neste campo tão específico da mediação leitora junto das necessidades educativas especiais. Como consequência deste labor continuado, este ano, o Folio/Educa, desafiou-me a apresentar uma proposta para partilha durante o festival. Assim surgiu o “Dilfícil Leitura” que está a ser construído em conjunto no Centro Escolar da Ventosa (Agrupamento de Escolas de S. Gonçalo). As oficinas deste ano apresentam uma componente formativa, sendo desenvolvidas por duas mediadoras da Biblioteca Municipal de Torres Vedras coadjuvadas por mim – vamos construindo autonomias… Nesta primeira sessão, trabalhei essencialmente a literacia auditiva (a partir da  metodologia “dos sons nascem histórias” e a construção de narrativas, que foram desenvolvidas em conjunto com alunos tutores das turmas de inclusão. Claro que nessa sessão o "Luzinhas" apareceu, interagindo com as crianças… 

Bairro Leitor: Persistente, como combustão sem chama

"Uma biblioteca é uma casa onde cabe toda a gente" - Sessão de conto "Na boka note"
Fotografia de Clara Silva
Logo no início do trabalho do Bairro Leitor (Bairro do Casalinho da Ajuda, Lisboa - Bip/Zip), um dos problemas identificados por promotores e parceiros do projecto, nomeadamente pela  Academia de Jovens do Casalinho da Ajuda, era o evidente isolamento da única escola pública do bairro, a E B Homero Serpa, face à comunidade envolvente. Um ano depois, grande contraste este, que agora reconhecemos: ver a escola aberta, ocupada por uma formação que está a decorrer aos sábados, ou por uma sessão de contos ("Na boka note") que fez entrar pela porta da frente um pequeno grupo da comunidade de origem cabo-verdiana, na última sexta-feira… Acreditamos que o desenvolvimento da Biblioteca do Bairro, transformando gradualmente a biblioteca escolar, vem contribuindo para esta mudança, melhorando a vida do bairro e desenhando um modelo saudável e sustentável. Para tal, a par das sessões de mediação em torno do livro da leitura e das artes, contámos com a presença regular de uma mediadora, formadora e bibliotecária, em cooperação estreita com as professoras bibliotecárias, os docentes e não docentes da escola, a gestão do agrupamento, com envolvimento directo da Academia de Jovens do Casalinho da Ajuda, da agir XXI e da Estal. A biblioteca do bairro, gerada e nascida na escola, poderá assumir-se como plataforma de mediação para todas as literacias, propondo-se à comunidade envolvente.  
Gesta lenta e persistente, como combustão sem chama.
"Ler, escrever e contar" - Formação da Biblioteca do Bairro/Casa das Artes, creditada pela ESTAL
Primeira sessão 07/10/2017
A formação, que começou no sábado passado e se prolonga no próximo, incide sobre práticas de mediação da leitura, do livro ao conto, passando pelo corpo com destaque para a voz, o movimento e a escuta. A compreensão do fenómeno da leitura em contexto de comunicação com o outro é fundamental em qualquer acto de mediação cultural. Comecei o curso com algumas dinâmicas simples (micropedagogias) muito úteis na gestão de grupos; de seguida, partilhei diferentes livros e sobre eles debatemos, trabalhámos e levantámos questões incontornáveis em educação no contexto dos bairros. Parceiros do projecto envolvidos diretamente na proposta: Estal - Centro de Formação, Laredo Associação Cultural e  Agrupamento de Escolas Francisco Arruda. O grupo participante está bem composto por docentes, mediadores da leitura, técnicos da Rede de Bibliotecas Municipais de Lisboa (BLX), uma professora bibliotecária e uma mediadora da associação local Academia de Jovens do Casalinho da Ajuda. Um curso intenso, com um belo ambiente.... 

quarta-feira, 4 de outubro de 2017

"Dilfícil Leitura" : Os alunos tutores

Personagem para comunicação com crianças especiais em momentos fundamentais
.
Uma espécie de fantoche/mão
 Mais uma crónica de projeto em Biblioteca Escolar 
a acontecer no mês das Bibliotecas Escolares. 
Porque há Bibliotecas Escolares corajosas, 
que propõem ideias de inclusão e leitura, 
onde a maioria acha impossível
a presença dos livros.
Uma revolução que emerge lentamente
de um coletivo consciente, 
que deseja a escola pública ainda mais inclusiva.

Ontem foi um dia emocionante no projeto “Dilfícil leitura” que vou apresentar no FOLIO/Educa em conjunto com a comunidade educativa do Centro Escolar da Ventosa (Agrupamento de escolas de S. Gonçalo/Torres Vedras). A equipa que vem desenvolvendo a ideia, é composta por alunos com necessidades educativas especiais e por colegas das turmas de inclusão, auxiliares de educação, professores de ensino especial e a professora bibliotecária Joana Rodrigues. Emocionado, porque conheci uma mão cheia de crianças generosas e participativas que estão a dar sentido à palavras Inclusão. Ontem reunimos os alunos tutores, responsáveis pela leitura a par, com alguns colegas do ensino especial. Foi muito divertido! Explicámos a nossa ideia, contando o que temos feito. Experimentámos livros, partilhámos as “leituras dilfíceis” das anteriores sessões. Os tutores puderam folhear os livros e rindo-se muito de algumas brincadeiras de comunicação que mostrei, como os meus dedos falantes, intrigantes e luminosos  (personagens para comunicação)… Que bom é reconhecer o envolvimento das “assistentes operacionais”, que são quase família destes meninos e meninas, neste projeto que aos poucos vai fazendo o seu caminho.
Ler publicações anteriores:

sexta-feira, 29 de setembro de 2017

O FOLIO Educa já está a acontecer no Centro Escolar da Ventosa


Ventosa - Agrupamento de Escolas de S. Gonçalo
Ao fim de três sessões do “Dilfícil Leitura”, Folio Educa, conseguimos juntar à volta da mesma mesa, professores de ensino especial, auxiliares de ensino especial, professores bibliotecários e um grupo de meninos com necessidades educativas especiais, onde prevalecem crianças com características (espectro) do autismo e… livros! Conseguimos identificar um primeiro grupo de livros que formam uma unidade pedagógica, explorando com coerência as questões da motricidade fina, gramática emergente, de perceção limpa, propondo narrativas simples e, num dos casos, partindo para a criação tridimensional. Trabalhamos em círculo, à volta de uma mesa, entremeando crianças e adultos. Ao longo da sessão vamos propondo diferentes livros, tendo o cuidado de não deixar ficar em cima da mesa outros exemplares, para não dispersar as crianças. Observamos atentamente as reações a cada livro apresentado. A mediação muda, torna-se variada, misturando lengalengas com livros e, também, pequenos objetos sonoros que servem para estimular a atenção ou pequenas lanternas de dedo para ajudar na leitura a par. Vamos afinando estratégias de trabalho com as crianças; cada uma é única, especial, requerendo uma forma de comunicar específica. Gosto de me sentar nesta mesa da biblioteca escolar e trabalhar com este grupo grande e variado de profissionais de educação e meninos, numa proposta prática, um laboratório que aos poucos vai chegando a algumas conclusões. Estou contente. Hoje decidimos que vamos fazer fichas/guiões de exploração para cada um dos livros “aprovados” pelas crianças e analisados pelos docentes.

À medida que as sessões se forem sucedendo, aqui darei mais notícias do que andamos a fazer no Centro Escolar da Ventosa (Torres Vedras)
Leitura a par com ajuda de uma ferramenta luminosa
Dilfícil leitura - Não é gralha. O título é mesmo assim., DILFÍCIL, como dizia um menino com quem trabalhei, cada vez que se referia a uma situação complicada, mais do que difícil

quarta-feira, 27 de setembro de 2017

Formação Bairro Leitor

Bairro Leitor. Formação. Oportunidade a não perder. ENTRADA LIVRE.
Atividade do Bairro Leitor, projeto BIPZIP 2016-2019, para que a Biblioteca do Bairro tenha mais valor e se torne sustentável e interessante para toda a comunidade. Aberto a profisisonais e não profissionais. Frequência grátis, sujeita inscrição por email para bibliotecadobairro@gmail.com (nome e contactos, incluindo email). Formação em processo de creditação para docentes (12h). Formadores: Isabel Branco, Maria José Vitorino, Miguel Horta. Parceiros envolvidos na proposta: ESTAL-Centro de Formação, Laredo Associação Cultural,.Agrupamento de Escolas Francisco de Arruda.

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

Sofia Troni escreve sobre a Laredo Associação Cultural no jornal digital "Escritores.online"

Resistente e ecológica como a lapa, a Laredo Associação Cultural permanece na “zona entre marés” para promover as literacias e a cidadania através da educação não formal em museus, bibliotecas, prisões, bairros sociais e festivais literários.
Miguel Horta, presidente da Laredo Associação Cultural, conta que tentaram vários nomes para a associação até chegarem à palavra “laredo”: “Laredo tem uma definição um pouco lata. Laredo é a zona entre marés. É o limite máximo da maré cheia e o limite máximo da maré vazia. É uma expressão utilizada pelos pescadores do barlavento algarvio e dos Açores, no Faial e no Pico, que costumam dizer «esse laredo é bom para a lapa», que habitualmente é uma zona rochosa junto ao mar, uma zona onde os pescadores recolectores fazem o seu trabalho”. Por isso a lapa como símbolo da associação: “A lapa também, porque é super resistente. É um animal herbívoro, ecológico. Uma praia com lapas é uma praia ecologicamente equilibrada, com pouca poluição, porque a lapa é um bicho muito sensível, mas ao mesmo tempo extremamente resistente. E depois significa esta coisa da persistência das ideias… e tem também esta ligação ao mar que é um dos campos do nosso trabalho”.

Na boka note - Sessão de conto no Bairro Leitor



A Biblioteca do Bairro
Escola Básica Homero Serpa
Bairro do Casalinho da Ajuda
do projeto Bairro Leitor
acolhe sessão de conto e de convívio

No dia 6 de outubro pelas 18.30h venha escutar Adriano Reis e Miguel HortaNa boka note” contando histórias de Cabo Verde e não só… Esta sessão de conto e convívio pretende dar visibilidade e promover a inclusão da comunidade de origem africana, nomeadamente cabo-verdiana, através da escuta e da partilha de histórias. Este encontro prossegue a linha de trabalho das Conversas do Casalinho, iniciada em janeiro de 2017 com a comunidade cigana num dos cafés do Bairro, propiciando desenvolvimentos futuros tendo em vista a sustentabilidade do projeto. Pretende, igualmente, estimular a apropriação da escola básica Homero Serpa e da Biblioteca do Bairro como um bem comum e um serviço público em setores cada vez mais latos da comunidade e entre os profissionais de educação envolvidos. Sobre o nosso convidado especial, Adriano Reis, podemos dizer que é actor, trabalhador sociocultural e contador de Storia de Lá. Sabemos que a paixão e o amor pelas estórias o cativaram para a transmissão da palavra, partilhando a sua identidade crioula (Africana). Mais sobre este comunicativo narrador crioulo aqui, no seu Palco da Vida.

Bem skuta storia di lá! Nu ta spera bo na Biblioteka di Bairu!

Para chegar à escola Homero Serpa:

sexta-feira, 22 de setembro de 2017

"Dilfícil Leitura" leva mediação leitora especial ao FOLIO

Comecei esta semana uma intervenção no Centro Escolar da Ventosa (Agrupamento de escolas de S. Gonçalo -Torres Vedras) que une a biblioteca escolar à unidade de ensino especial, num projeto de mediação do livro e da leitura com crianças com necessidades educativas especiais, maioritariamente com características de autismo. Trata-se de um convite endereçado por Maria José Vitorino, curadora do FOLIO EDUCA, Festival Literário Internacional de Óbidos, que tem como tema, este ano, "Revoluções, Revoltas, Rebeldias". Efetivamente, vamos ter de nos preparar para a grande revolução da inclusão na educação, sabendo que a promoção das literacias e a mediação da leitura serão veículos para a construção dessa sociedade mais justa, tendo as bibliotecas um papel central a desempenhar nesta caminhada. Coisa difícil… Ou melhor, coisa DILFÍCIL, como dizia um menino com quem trabalhei, cada vez que se referia a uma situação complicada, mais do que difícil. Assim inspirado, batizei este laboratório partilhado de mediação leitora de “Dilfícil Leitura”. Este convite surge no seguimento da intervenção continuada da Biblioteca Municipal de Torres Vedras em mediação do livro e da leitura junto de famílias e crianças especiais, através do programa “Sentir especial”, que nos últimos dois anos acolheu as “Oficinas improváveis”, que têm visitado as bibliotecas escolares do concelho. Vamos trabalhar um conjunto de livros intencionalmente escolhidos e recorrer a dinâmicas criativas com os nossos alunos com necessidades educativas especiais e com mesmo número de meninos das turmas de inclusão. Formarão uma espécie de tandem, leitores a par, que se manterão ao longo do ano letivo, dando continuidade á ideia. Esta espécie de laboratório de comunicação e criação de literacias acontecerá na biblioteca escolar e na unidade de ensino estruturado. Os livros e as metodologias que se provarem acertadas com os nossos pares improváveis serão partilhados no Folio Educa com grupos de crianças, auxiliares e docentes equivalentes, de outras escolas do país, a convidar pela curadoria do evento. A partilha deste laboratório, em contexto de oficina, acontecerá no Folio (Óbidos) a 24 de outubro, com duas sessões (manhã e tarde). 

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

"Arribalé!" de novo na estrada...

Arribalé! é um espetáculo original de narração oral em torno do Mar, suas criaturas e gentes. Agora em reposição, disponível para ir a escolas (bibliotecas escolares), teatros e bibliotecas públicas. “Arribalé!” nasceu de uma residência criativa no’’ O Espaço do Tempo (Montemor-o-Novo) em março de 2015. Contos, poemas, pequenas canções, passando pelas pragas do Algarve e outras oralidades, tudo faz parte desta apresentação que tem como pano de fundo um conjunto de ilustrações do autor. Sessenta minutos, pensados para a família, onde o espetador é convidado a mergulhar nas histórias e seres da nossa costa. Paralelamente à apresentação, encontra-se disponível o livro que foi mote para este espetáculo, Rimas salgadas (PNL 2015), poesia e ilustração para a infância e juventude (Grácio Editor). No final, terá lugar um encontro com os leitores.

Poderíamos imaginar uma criança revirando pedras na maré vazia em busca de criaturas marinhas escondidas na sombra ou um adolescente afoito pescando sozinho num barco sacudido pelas vagas de barlavento. Este é Miguel Horta um pintor que se dedica à escrita e à ilustração. Mas também um mediador cultural em diferentes contextos humanos, fazendo sorrir e refletir quem o escuta através dos contos e desafios que lança. Depois de Pinok e baleote e Dacoli e dacolá, estas Rimas salgadas chegam-nos diretamente da sua infância num exercício de partilha da urgência de pensar o Mar.
Mais informação: horta700@gmail.com

segunda-feira, 4 de setembro de 2017

O filho do trolha

Ilustração: Miguel Horta 
(Direitos reservados)
Texto a pedido da minha amiga Paula Carvalho
sobre comportamentos de risco
a apresentar nas II Jornadas Templárias de Psiquiatria CHMT

-Ó senhora doutora, nem sei muito bem como lhe contar isto…
-Ahhh… Não é doutora.
-Como?
-Senhora enfermeira?
-Combinado.
- Entende-me na mesma…
- Pois bem… Eu já sou um Kota, como diz o meu neto. Fui avô muito cedo. Maluqueiras da minha juventude… Por isso, já tenho dois netos, lindos… São a luz dos meus olhos… sabe como é? Pois claro, fala com muita gente. Ou melhor – atende.
Como ia dizendo, eu nunca fui um santinho. Deixei de estudar muito cedo…
Logo depois da tropa desencaminhei-me. O trabalho era fácil, ganhávamos bem. Trabalhava nas obras. Vivendas! Aprendi o ofício muito cedo com o meu pai. Logo em pequeno comecei alinhar as botas sujas de cimento ao lado das botifarras do meu pai, à entrada de casa… e a minha Mãe aos berros a protestar contra a sujidade… A entender os desenhos dos arquitetos, era o maior! E depois, o fazer também era comigo… Tratava os tijolos e a argamassa por tu! Os sacanas dos vizinhos lá da Musgueira, chamavam o meu Pai de “trolha”. Não entendiam. Ele trabalhava como um galego. Aliás, vinha de famílias galegas. Era um bom homem. Bem melhor do que eu sou.
Desencaminhei-me. Pois foi…
Eram os tempos do Cavaco e fartou-se de entrar dinheiro neste “canteiro”. Era fácil ganhar graveto, ainda por cima, tinha uns “amigos da corda”, como dizia o meu Pai… (Que deus o tenha…que era galego). Chegava à sexta-feira e a malta tinha um molho de notas na mão – escudos, o dinheiro que havia dantes. Chamávamos ao nosso trio a “Chavalada Brava”… Eu, um moço chamado Toni e outro mais malino, o Chico. Comprámos um Wolksvagen a trielas, ficou em meu nome. Era o mais atinado, até tinha conta na Caixa... Depois, íamos à conquista do Cais do Sodré. Miúdas giras, uma ou outra cena de porrada (nada de grave…) muito whisky, absinto (era proibido, antes do 25 de Abril, mas dá cá uma pedrada que se fica a ver desenhos animados...) charros (era um campeão a enrolar…”Cónicas”! A malta adorava as minhas cónicas: umas perfeitas peças de artesanato fumegante….).
Uma noite, no Jamaica, conheci uma miúda fininha que engraçou comigo. Eu, um tosco dos bairros, ela uma janada de boas famílias das avenidas novas que cheirava a pele lavada e que me olhava com uns olhos redondos, gulosos. Embrulhei-me com ela e, em pouco tempo, já estava em festas na avenida de Roma, nuns apartamentos finos…dos pais, ausentes, claro… Um dia, numa dessas festas, a miúda chamou-me à parte e mostrou-me um pozinho branco em cima de um espelho. “Queres provar?” Foi nesse dia que aprendi a snifar. De snifadela em snifadela, com obras em todas as casas dos amigos dela – uma casa de banho ali, uma pintura de parede acolá. Uma vez gamei um vibrador de uma gaveta. Foi uma galhofa lá no café da Musgueira, com as miúdas todas a querer ver o que era, como funcionava… embora sabendo tudo, claro.
Numa noite de loucura lá no bairro, já com as narinas bem brancas, encontrámos um vizinho na tasca que se lamentava por lhe faltar ferro para acabar de construir o seu barraco, e “como é que iria ser com o Inverno à porta”…  Num gesto de cavalheirismo a “Chavalada Brava” decidiu resolver o assunto e fomos gamar ferro a um estaleiro de uma empresa famosa. Colocámos uma grelha em cima do “Carocha”  e lá fomos estrada fora, na bisga, em demanda das vigas de ferro. Havia um cão maldisposto no estaleiro da empresa… Nada que um bife de alcatra não resolvesse…. E depois, começámos a carregar a grelha do tejadilho com as vigas fininhas de ferro, acho que era viga de 8… ficaram a pender em redondo, muito bem presas à estrutura do carro. Quando achámos que tínhamos as suficientes, alegres ligámos o Wolksvagen. Nesse momento, com a vibração do motor e do movimento, o tejadilho abateu-se sobre nós encarcerando-nos no metal do carro, transformado em gaiola em forma de “V”. Foi uma vergonha ver chegar a polícia e depois os bombeiros (para nos desencarcerar). O pior foi a bófia encontrar o saquinho do pó para o fim de semana…. Até o juiz se riu de nós na audiência. O advogado, que era um estagiário, não nos ajudou. No nosso trio havia o Chico Cigano e isso foi o suficiente para nos olharem desconfiados…ainda por cima da Musgueira! Lembro-me de ter escutado a expressão: “coitados, são uns mitras…” Lá fui parar ao estabelecimento prisional de Lisboa. Perdi o rasto dos outros, e também, da fininha… mas os hábitos permaneceram, pois, lá dentro, não faltava quem me pusesse as narinas brancas e até de outras cores… Só que eu já estava farto daquela cena. Quando a educadora da prisão me perguntou se eu queria fazer o Ciclo lá dentro, aceitei. Até tive uma boa nota… Saí  da prisão com tanta raiva (ainda por cima o Chico disse ao Juiz que era tudo meu -o carro, o pó… - e o cobardolas do Toni calou-se), que decidi mudar de terra. Vim aqui para Tomar. Mas sabe, senhora enfermeira… Eu sou daninho. Sim. Constitui a minha família e tornei-me mestre-de-obras, até acabar por criar a minha pequena empresa. Só agora, em velho, me voltei a desviar. Como o gado : tresmalhado…
Por amor de Deus, a senhora enfermeira não diga nada ao meu filho, que deve estar lá fora a fumar cigarros uns atrás dos outros… pregos para o caixão dele…Já lhe disse.
O Toni, do nosso trio, deu comigo há dois anos. Veio numa excursão a Tomar, junto com uma data de zombies, velhadas da nossa idade, e choquei de frente com ele lá na Corredora. Eu sempre gostei dele, era o mais silencioso da Chavalada. Escutei com atenção a aventura da sua vida – safou-se, como eu. Embora tenha tido a tarefa de o levar em braços pelo centro de Tomar até à pensão onde ficou alojado com outros velhos como nós. Continuava a ser uma esponja. Mas ele é a única testemunha do que vivi – pode provar que tudo é verdade. Passei a ir ter com ele a Lisboa, para os bailes dos Alunos deApolo ou para as matinés da Ribeira. Ficava numa pensão jeitosa e pouco tempo depois ele começou a apresentar-me umas miúdas. Aquilo foi água no deserto para um camelo como eu. A minha mulher achava que ia à capital conversar com os fornecedores… Eu ia, era mesmo para a gandaia! Tinha dinheiro das minhas obras e senti-me rejuvenescer… Enfim… Já passou. Agora sinto-me mal, fraco… se calhar é gripe… Ando fraco…sabe? Quer ver, senhora enfermeira? Apareceram-me umas manchas no pescoço e também aqui no peito. Mas acho que tenho as vacinas todas em dia…