quinta-feira, 13 de julho de 2017

Na Biblioteca de Pombal com meninos e meninas ciganas...e muitos livros

O trabalho com as crianças ciganas de Pombal continua.  Esta segunda-feira continuei a trabalhar a concentração com alguns jogos de movimento, coordenação; depois, um exercício de voz e harmonias… não tiveram dificuldade nenhuma, claro. Já o trabalho em torno da escuta foi mais agreste. Trata-se de uma cultura muito afirmativa, onde todos os papeis sociais na comunidade são defendidos perentoriamente, com expressão e falando alto. Fala-se alto para que todos escutem o que estamos a dizer e haja, por isso, testemunhas. Falar alto por se ter conquistado o direito à opinião, passando da infância diretamente (quase) para o estado adulto. As crianças aprendem desde muito cedo a interromper as conversas dos pares, afirmando-se. Falar, desregradamente, fora de contexto e alto, tem ainda o sentido de todos saberem que estamos a gostar e a participar socialmente. Este ruído constante não dá jeito nenhum quando se trata de um espetáculo ou sessão de mediação: ninguém presta atenção. Obriga o mediador a ser expressivo, surpreender o grupo, captando a atenção. Mesmo assim, consegui realizar a oficina “Dos sons nascem histórias” e aquele grupo misto de jovens e crianças acabou por inventar algumas narrativas (escritas ou em desenho) surgidas pela escuta dos trechos sonoros que lhes apresentei. Ainda tivemos tempo para repegar “o livro com um buraco” (Hervé Tullet), começando a colorir a fotografia obtida, ponto de partida para um pequeno trabalho autobiográfico. Acabei por fazer, também, alguns desenhos com buraco para experimentarmos como ficava… Aproveito para agradecer a presença da animadora cultural Marli Silva que me tem ajudado nesta intervenção.~

terça-feira, 11 de julho de 2017

Caule condutor

Conceção e realização da oficina "Arte que lança sementes": Carlos Carrilho, Ana Pêgo, Miguel Horta, Sara Inácio, Paula Ribeiro e Patrícia Tiago. 
Da semente ao fruto e do fruto a novas sementes – como podemos semear um novo mundo?.A Fundação Calouste Gulbenkian tem um património muito rico e variado que inclui as suas coleções de arte e as suas “coleções” naturais - o jardim. Esta oficina inspira-se nesse património e nasce das relações entre arte e natureza, procurando lançar sementes artísticas e criativas ao mesmo tempo que nos faz pensar no mundo em que vivemos e sua biodiversidade e sustentabilidade. Durante uma semana, percorrendo o ciclo de vida de uma planta, vamos lançar sementes à terra, fazê-las germinar, cuidar da(s) planta(s) para que cresça(m) e atinja(m) a maturidade até dar(em) fruto. Através de diferentes experiências artísticas, visitas aos jardineiros, leituras, utilização de pigmentos naturais e utilização de técnicas variadas, exploraremos a relação entre arte e natureza até chegarmos a uma obra final, coletiva, de Land Art, fruto de uma simbiose com o jardim e das várias experiências realizadas.
 
 O fio condutor é um caule que nos une, da semente à floração e respetivos frutos. Trata-se de uma oficina holística, que tem como referente 3 espaços da Fundação Calouste Gulbenkian, a saber, Museu Gulbenkian (Coleção do Fundador), Museu Gulbenkian (Coleção Moderna) e Jardim (Coleção Natural). Começámos por nos juntar com uma história Indo Europeia contada no primeiro dia “a Semente”; todas as crianças guardaram a sua semente no bolso para florescer ao longo da semana (talvez a semeiem mais tarde no Inverno…)
Ficha técnica para uma planta imaginária, feita por uma menina bem disposta e imaginativa, durante esta nossa oficina de férias. Não era TPC... Atente-se no detalhe da fundamentação para uma planta imaginária… Relembra como estávamos corretos no projeto 10x10 do Descobrir (Fundação Calouste Gulbenkian) ao propor a abordagem dos temas científicos a partir do olhar dos artistas bem diálogo ativo com os professores de "Ciências". Ver exemplo Aqui.
lembrei-me muito de Seomara da Costa Primo (ilustradora e botânica)  ao longo desta oficina.
Mas voltemos à germinação e aos bolbos, sementes e rizomas que conhecemos no começo da semana. Depois de temos inventado (desenhando e moldando) bolbos e rizomas estranhos que deram a origem a plantas singulares, seguimos para os serviços do jardim para escutar os jardineiros que todos os dias conversam com as plantas. Germinaram as sementes dando origem a um caule, o caule tutor, como nas videiras. Pegando no caule, aproveitámos restos das plantas (ramos, folhas e pétalas caídas pelo chão) para fazer pinceis de diferentes consistências e rasto apenas com materiais naturais. Fomos até ao Oriente e pintámos com tinta-da-China um longo desenho, como o nosso caule, que apresentámos aos pais no último dia de oficina, junto com outras produções da semana. Outros desperdícios encontrados no jardim serviram para fazer ourivesaria faz de conta inspirada na obra de René Lalique (que, em menino e brincou com bichos, plantas e pedras) – expusemos o nosso trabalho num tronco. É verdade… Já alguma vez tentaste fazer um retrato usando apenas o que encontras no chão do jardim ou floresta? Sim! Uma espécie de Arcimboldo feito com colagem. 
Recolhemos  e experimentámos e criámos formas tridimensionais com essas sementes, ramos e folhas, e surgiram uns "deuses" estranhos... Não é que os Egípcios faziam o seu papel com o caule dos papiros do rio Nilo? Olhem! Olhem! Descobri papiros no jardim! O caule cresce e surgem folhas projetando a sua sombra pelo chão, misturando-se com a nossa; brincamos com as sombras como o fez Lurdes de Castro.  Paramos a descansar num ramo do caule que vai crescendo, e lemos Um livro sobre “Sombras” (Suzy Lee). Os mais velhos escutam uma história contada num caule grosso, um tronco, sobre uma “árvore generosa”, e ficam a pensar…
No dia em que apareceram as primeiras flores no caule e mais alguns frutos, fazemos uma grande mandala com o que encontrámos nas nossas deambulações pelo jardim.
 Rostos a lembrar Arcimboldo
 Sombras de folhas projetadas
No último dia um longo desenho, como um caule serpenteando pelo chão do jardim, uniu todas as crianças, encerrando mais uma oficina de Verão do Museu Gulbenkian. Não podemos terminar sem agradecer ao Senhor António, chefe dos jardineiros da Fundação Calouste Gulbenkian, pela sua generosidade e disponibilidade, ao receber os nossos três grupos nos bastidores secretos do Jardim, contado-nos histórias e curiosidades das plantas e animais que ali habitam.

domingo, 9 de julho de 2017

Bairro Leitor: Jardins Colaborativos

Os jardins, ruas e praças devem ser locais de fruição e não lugares de afirmação territorial ou de manifestação de tensões, geradas por um urbanismo que não teve em conta as pessoas na sua génese. Os Jardins Colaborativos são uma proposta para a criação de espaços verdes geridos livremente pelos habitantes/vizinhos, coordenados e apoiados pela Junta de Freguesia da Ajuda. Uma proposta da Laredo Associação Cultural no contexto do projeto Bairro Leitor BIPZIP 2016-2019. O gosto pelas plantas e a vontade de intervir num determinado espaço verde motivam a sua natural ocupação. Isto mesmo vem acontecendo do Bairro do Casalinho da Ajuda, de forma desordenada. Esta ideia simples pretende que os moradores se coresponsabilizem pelo espaço que habitam, sendo proactivos e criativos na gestão dos seus jardins de proximidade. Assim, propõe-se a construção/desenvolvimento de dois jardins colaborativos na Rua Fonseca Benevides, Bairro do Casalinho da Ajuda, conforme imagem. Para que a ideia tenha sucesso, é importante criar a figura do “padrinho” da “madrinha” responsável pelo pedaço de jardim, gerando ideias e propondo soluções com o máximo de autonomia possível. A Junta de Freguesia da Ajuda dará todo o apoio técnico, logístico e orgânico (plantas, bolbos…) necessário à concretização e manutenção do espaço verde. Será necessária alguma formação, nomeadamente no que diz respeito a regas racionais e planificação de canteiros, para além dos conceitos básicos de jardinagem, a proporcionar pela equipa técnica da Junta. A mediação desta ideia no terreno só será possível se realizada por ativistas associativos residentes no bairro do Casalinho da Ajuda, com respeitabilidade reconhecida, que assim poderão ajuizar a escolha dos “padrinhos” e “madrinhas” dos espaços verdes e desbloquear hipotéticos impasses. A academia de Jovens do Casalinho da Ajuda tem, neste processo, um papel central. A ideia agora proposta é extensível ao Jardim do Miradouro, alvo de recente trabalho de requalificação, com inauguração festiva prevista para dia 29 de julho. Atualmente parte da zona reservada a relvado foi ocupada, nos seus limites, por canteiros de flores, numa iniciativa autónoma dos moradores. A distribuição de espaços é apenas indicativa pois deverão ser os moradores, em diálogo com a Junta, a definir a forma de desenvolvimento possível da ideia, como aliás aconteceu no “ jardim do miradouro”. A ideia prevê a instalação de bancos, a construção de carreiros, o plantio de árvores, concomitantemente com as ideias para canteiros a apresentar pelos moradores aos técnicos da Junta de Freguesia. Depois de aprovada a proposta, pela Junta de Freguesia, a Associação local deverá fazer o levantamento dos interessados, das suas ideias e projetos para aprovação.