segunda-feira, 27 de novembro de 2017

quinta-feira, 23 de novembro de 2017

A ilha do Amor - Museu Gulbenkian

Último texto, num total de três, que aqui se publicam, referindo obras do Museu Gulbenkian, Coleção do Fundador, nasceram de um desafio que me foi lançado para criação de suporte escrito para áudio-guias. Agradeço este interessante desafio, apesar de ainda não se ter concretizado. Deu-me oportunidade de estudar, e de apresentar um ponto de vista vivo sobre a coleção, escrevendo interpelações a cada visitante. Aqui vos deixo esta pequena viagem pelos olhos de um pintor/mediador.

Festa em Rambouillet ou A Ilha do Amor
Jean-Honoré Fragonard ; (1732-1806) ; França; c. 1770; Óleo sobre tela

Deixemos que o olhar deambule por esta pintura a óleo de Jean-Honoré Fragonard, repleta de estímulos visuais, gerando a sensação de conter um secreto mistério que nos obriga a vaguear pela poderosa floresta retratada, procurando um sentido para a obra. A atmosfera misteriosa adensa-se em recônditos escuros; no meio do arvoredo denso que domina quase toda a tela, uma árvore nua ergue os seus ramos rasgados em direção ao céu; outra parece assumir as formas de um torso de mulher. Uma outra figura feminina aparece recortada pela luz, sem se deixar identificar, talvez assinale o lugar onde se forma um rio caudaloso que se precipita em cascata sobre o mar. Quem são os passageiros elegantes que chegam em barcos de passeio à foz do pequeno rio? Talvez venham para uma festa… Outro grupo, quase engolido pelo constante jogo do claro e do escuro, desce uma escadaria, observando as águas. A paisagem natural é transfigurada por uma cenografia fantasiosa, quase anunciando o Romantismo ,dominando o nosso olhar incauto ao percorrer o quadro. Provavelmente, o essencial não é visível... Acredita-se que Fragonard não procurou representar nenhum lugar específico nesta abordagem Rococó ao tema da Festa Galante, neste caso campestre, apenas deixou fruir a sua gramática pessoal na representação da natureza. Calouste Gulbenkian adquiriu esta pintura em 1928 e, dois anos mais tarde, comprou outra com o mesmo tema da Festa Galante, de Nicolas Lancret, que para além de revelar uma intencionalidade colecionadora, permite ao visitante estabelecer um contraste entre dois estilos plásticos distintos.

"Festa Galante",Nicolas Lancret, Museu Gulbenkian

quarta-feira, 22 de novembro de 2017

Libelinha de René Lalique - Museu Gulbenkian

Este é o segundo texto, num total de três, que aqui se publicam, referindo obras do Museu Gulbenkian, Coleção do Fundador, nasceram de um desafio que me foi lançado para criação de suporte escrito para áudio-guias. Agradeço este interessante desafio, apesar de ainda não se ter concretizado. Deu-me oportunidade de estudar, e de apresentar um ponto de vista vivo sobre a coleção, escrevendo interpelações a cada visitante. Aqui vos deixo esta pequena viagem pelos olhos de um pintor/mediador.

Peitoral – Libélula
René Lalique; (1860-1945); França; c. 1897-1898; Ouro, esmalte, crisópraso, calcedónia, pedras de lua e diamantes


Ao entrar na sala dedicada ao ourives francês René Lalique, notamos que a “Mulher-Libélula” ocupa um lugar de destaque. Foi apresentada com enorme sucesso na Exposição Universal de Paris de 1900, consagrando o artista como joalheiro de referência no estilo Arte Nova. O olhar percorre esta peça de ourivesaria, um peitoral, surpreendendo-se com a miríade de materiais que compõem este inseto híbrido. Materiais nobres ou raros convivem harmoniosamente ao lado de outros mais comuns, dando corpo a esta peça de asas abertas, onde o esmalte vitral brilha, enriquecido por diamantes finamente encastoados numa estrutura de ouro. O longo abdómen deste odonata é pontuado por pedras de lua sobre a base de esmalte e ouro. Duas grandes garras em ouro, para prender o peitoral aos generosos vestidos da época, sugerem poder á mulher que o usar. Do interior do corpo da libélula, surge uma bela mulher adormecida, suavemente talhada em crisópraso com dois escaravelhos em ouro esmaltado de cada lado da cabeça, no lugar biológico dos olhos do inseto. Esta metamorfose de libelinha, alude ao estágio de ninfa destes insetos e cita subtilmente as náiades, divindades gregas das águas de rios e lagos, que sempre interagiram misteriosamente com os homens. 
Calouste Sarkis Gulbenkian colecionou metodicamente quase toda a produção do seu amigo René Lalique. Mas quem foram as mulheres que usaram todas estas joias do colecionador, como por exemplo, a “Mulher- libélula”?  Apenas temos notícia da atriz Sarah Bernhardt, amiga de Gulbenkian, confirmada por fotografias onde aparece com peças de Lalique, como é o caso da tiara das serpentes, ao incorporar a personagem Cleópatra
Libelinha emergindo do seu invólucro de ninfa.
Sarah Bernhardt no papel de Cleópatra. 

terça-feira, 21 de novembro de 2017

Cabeça do rei Senuseret III - Museu Gulbenkian

Os três textos que aqui se publicam, referindo obras do Museu Gulbenkian, Coleção do Fundador, nasceram de um desafio que me foi lançado para criação de suporte escrito para áudio-guias. Agradeço este interessante desafio, apesar de ainda não se ter concretizado. Deu-me oportunidade de estudar, e de apresentar um ponto de vista vivo sobre a coleção, escrevendo interpelações a cada visitante. Aqui vos deixo esta pequena viagem pelos olhos de um pintor/mediador.
Fundação Calouste Gulbenkian

Cabeça do rei Senuseret III
Egipto; Império Médio; XII dinastia; c. 1860 a.C.; Obsidiana
Museu Gulbenkian

Quase de imediato, apercebemo-nos que a cabeça exposta pertencerá a uma pequena escultura de corpo inteiro representando um faraó. Trata-se de Senuseret III que reinou no Egipto durante a XII dinastia, do Império Médio, aqui retratado como um homem mais velho, sabiamente humano, ao contrário das representações tradicionais dos monarcas do Nilo que aparentavam a juventude eterna dos deuses. Existem numerosas esculturas com a imagem deste faraó e todas elas revelam um mesmo olhar de pálpebras proeminentes, descidas, semicerrando os olhos conferindo-lhe uma espécie de serenidade adormecida. O faraó apresenta um toucado (nemes) encimado por Uraeus, serpente sagrada que representa o poder régio. Para retratar o monarca, nesta peça criada cerca de 1860 AC, o escultor/artesão utilizou obsidiana, uma rocha ígnea fruto de erupções, mas difícil de trabalhar pela sua clivagem caprichosa. No Egipto dos faraós não existia a noção de artista, sendo estes homens tratados como artesãos, vivendo em comunidades próprias, subvencionadas pelos monarcas. No momento da sua morte, eram encerrados nos túmulos junto com as suas ferramentas.
 Artesãos. Embora sendo um afresco do túmulo de Nebamun (Tebas, XVIII Dinastia) 
executado 470 anos mais tarde, resolvi introduzir a imagem 
pela riqueza descritiva dos diferentes ofícios dos artesãos do Antigo Egipto. 

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

Oficinas improváveis no A E Madeira Torres.

Ana Gonçalves trabalhando o livro "Zoom"
As oficinas improváveis continuam pelas Bibliotecas Escolares do concelho de Torres Vedras. A última sessão foi no Agrupamento de Escolas Madeira Torres, e constituiu-se como um momento inclusivo na Biblioteca Escolar. Os alunos do ensino especial estiveram lado a lado com os colegas de uma turma do  ano. Boa parte da sessão foi conduzida pelas mediadoras Vera Fortunato e Ana Gonçalves que deram bem conta do recado. Estas intervenções nas escolas têm sido aproveitadas para formar as técnicas da Biblioteca Municipal de Torres Vedras em mediação leitora e divulgar metodologias e livros muito úteis junto dos alunos com necessidades educativas especiais. Mais aqui.

domingo, 12 de novembro de 2017

Na rota dos contadores...

Na sexta-feira à noite participei na Rota dos Contadores, promovida pelas Bibliotecas de Lisboa (BLX). A sala da Biblioteca Camões estava bem composta e o público com uma boa escuta. Contei na sala mais misteriosa, a mais antiga… Com o ambiente certo para contar a história dos dois fantasmas. A Cristina Flor tirou as fotografias que dão ideia da atmosfera da biblioteca. Comecei por um trio de contos de África e depois perdi-me alegremente com o público, escolhendo as histórias e poemas, ao correr da água. Na assistência, muitas caras conhecidas, amigas, dando conforto ao narrador. Obrigado ao Luís e aos outros técnicos da biblioteca. Temos de repetir!...

quinta-feira, 9 de novembro de 2017

10x10: Uma locomotiva pedagógica no Entroncamento

 De parede em parede, antes de um Mógóró!
Em grupo
25 de outubro de 2017
A vida corre sempre muito veloz… Antes que me esqueça, quero dar-vos notícia de uma oficina do Projecto 10x10 (Gulbenkian/Descobrir) que nesta reta final do ano promove o livro “Ensaios entre e arte e educação” com especial enfoque nas micropedagogias propostas. Desta vez, coube-me a mim e à Maria Gil, promover a oficina na Escola profissional Gustave Eiffel (Entroncamento) junto de um grupo de professores motivado e bem-disposto. A formação decorreu num fantástico ateliê de expressões, com porta virada para a rua. Já conhecia a escola de um encontro anterior e tinha ficado agradavelmente surpreendido pela qualidade do espaço (e espantado ao ver uma bela locomotiva a vapor, adormecida no meio das árvores) e pelo interesse demonstrado por um pequeno grupo de docentes que lançou este pedido à Fundação Calouste Gulbenkian. Esperemos agora que frutifique. Podem contar com a minha colaboração!

quarta-feira, 8 de novembro de 2017

Encontro Mithos a Ler

Teve lugar no fim de semana passado, sexta e sábado, o primeiro encontro da Mithos a ler, uma Biblioteca sediada na Mithos- histórias exemplares em Vila Franca de Xira. A Laredo está profundamente empenhada neste projeto que conta com o apoio da Fundação Jumbo. Uma biblioteca em construção (na coleção e nas propostas) que vai crescendo, aberta a toda a gente, comunitária e inclusiva. Este espaço de leitura e empréstimo está dedicado à população com deficiência e não só, pretende desenvolver cada vez mais as vertentes formativas e informativas, não esquecendo a fruição de momentos lúdicos. Ao longo deste ano, tenho desenvolvido uma formação regular de mediadores da leitura voluntários, que assim, poderão intervir junto de utilizadores com necessidades educativas especiais. Um dos projetos mais interessantes, desenvolvidos nesta associação é o “Vem calçar os sapatos do outro” da responsabilidade de Joana Maia, que pretende sensibilizar a comunidade escolar para as problemáticas da deficiência, nomeadamente o que diz respeito às acessibilidades. A Biblioteca Municipal de Vila Franca de Xira, “Fábrica das Palavras”, foi a anfitriã deste encontro que abriu com a presença da secretária de estado da inclusão, Ana Sofia Antunes e Manuela Ralha, a inspiradora presidente da Mithos, agora na condição de vereadora do município. Assim, as honras da casa foram feitas pelo Sérgio Lopes e pela Joana Maia. A equipa esteve toda presente e empenhada neste encontro que abordou temas muito variados, como refere, on line, Manuela Barreto Nunes “Falou-se de bibliotecas públicas e escolares, leitura, acessibilidade e inclusão. Hoje as tertúlias dedicam-se às políticas sociais para a vida independente, ao associativismo e participação juvenil, e à educação e mediação leitora. Tanto que se faz e é desconhecido, tanto que há para fazer. E tanto que os bibliotecários têm que aprender para que a inclusão não seja palavra vã.” Gostei bastante da mesa moderada por Vitor Figueiredo, diretor da Biblioteca Municipal e nosso anfitrião, nunca tinha dialogado com Manuela Barreto Nunes e, a avaliar pela participação do público, correu-nos bem…  A noite foi de dia 3 de novembro pertenceu aos contos! Ao lado do meu amigo Thomas Bakk e de Maria Abelha (biblioteca municipal), fomos noite fora, abrigados do temporal no Museu do Neorrealismo. Estava quase sem voz, mas fui salvo por um chá de gengibre e mel, prontamente preparado pela Joana Maia à hora do jantar. Foi uma bela sessão, adocicada pela abelha… Thomas Bakk encerrou o serão com o "Romance de Pedro Alemão", fazendo com que Maria Abelha perdesse a cabeça no meio de uma risada geral. No dia seguinte estava sem pio. E foi uma grande mesa, aquela a que assisti, moderada pela Manuela Ralha, com o deputado Jorge Falcato (amigo de antigos combates culturais), a maravilhosa Margarida Fonseca Santos e a professora bibliotecária Maria João Filipe que tem desenvolvido um trabalho notável de acessibilidade a conteúdos e inclusão nas bibliotecas do Agrupamento de Escolas de Mafra. No encerramento do encontro, Maria José Vitorino sorria: A falta que faz uma bibliotecária!…