terça-feira, 21 de março de 2017

Miríade de Histórias 2017: Philippe Parreno

A terceira edição de “Miríade de histórias” já está no terreno! Um projeto inclusivo de mediação no Museu de Serralves em estreita relação com a comunidade escolar da Escola da Ponte. Um projeto a três: Mediadores culturais da Laredo Associação Cultural, Educativo do Museu de Serralves e os professores da Escola. À semelhança dos anos anteriores, o desafio colocado às crianças é o de criarem um discurso próprio, autónomo, imaginado livremente e pesquisado em pequenos grupos, construindo um percurso expositivo a partilhar no dia 9 de Abril com os visitantes do Museu de Serralves. Nesse domingo, qualquer um (criança ou adulto) poderá escolher uma das três visitas/desafio preparadas pelos alunos desta escola de Santo Tirso. Os pequenos participantes criadores são do núcleo de iniciação da escola da Ponte. O grupo deste ano é composto por 18 crianças com idades entre os 8 e os 10 anos. É um grupo inclusivo, com alunos que apresentam uma grande diversidade de competências, níveis de participação, mas partilham entre si a curiosidade e entusiasmo que caracterizam os alunos desta escola singular. Os alunos da Escola da Ponte já visitaram o Museu de Serralves contactando com a obra de Philippe Parreno numa visita orientada pela Joana Mendonça (monitora do Museu de Serralves). Foi uma visita muito participada e do agrado de todos, como atestam os pequenos depoimentos recolhidos depois de uma manhã bem passada. Vejam só o que escreveu a Inês com as suas vírgulas: “O Museu não é só arte, é amor, porque é como a criatividade, o valor da vida, senti mais o valor que senti, foi não só o que eu disse mas sim o amor que sente o artista”. Miguel Horta e Joana Macedo orientaram junto com os docentes o segundo encontro de construção da visita. Foi uma manhã intensa em torno de uma grande mesa, com boa disposição e uma espantosa capacidade de concentração em torno do tema: trabalhámos quase três horas (com um intervalo para um lanchinho)… Escutámos pequenas histórias muito ilustradas que surgiram após a vista ao Museu. O Museu enquanto local de cultura deve ter sido muito debatido na nossa ausência, basta olhar para estes desenhos que publicamos para se entender a profundidade a que chegam estas crianças. 

Entretanto, citando Philippe Parreno, fiz uma pequena brincadeira de aquecimento com um conjunto de pequenos desenhos que fui fazendo a partir dos balões de Banda Desenhada – acho que gostaram e serviu para fazer a ponte com a proposta apresentada em Serralves pela Joana Mendonça. Depois começámos a debater a questão da mediação: Qual a diferença entre uma vista guiada e uma visita mediada? Qual a diferença entre um guia e um mediador? Terminámos com uma brincadeira com um balão esvoaçante. No terceiro encontro, no dia seguinte no Museu, os alunos regressaram à exposição dividindo-se em três grupos temáticos ou que congregavam um ponto de vista específico sobre a obra exposta. Cada aluno ficou com um balão colorido onde registou palavras/ sensações recolhidas durante o percurso. 
No final pareciam pequenos aikus escritos em balões. Lá fomos percorrendo as salas do Museu: surgiu um fantasma que assombrava a exposição chamando pelos alunos, uma dança elétrica cor de laranja, um chapéu de ideias… Sabe-se lá o que se vai preparando no interior daquelas fantásticas cabeças… Cada grupo vai imaginar e preparar uma intervenção, que poderá ser uma vista, uma performance, apenas uma leitura de um texto, um desafio de desenho ou uma mediação dramatizada, que surpreenderão os incautos visitantes no dia 9 de abril. Nessa última semana, ainda voltaremos à escola da Ponte para ajudar a afinar os detalhes deste desafio. Lá vos esperamos em Serralves!

Sobre a Escola da Ponte
 A Escola Básica da Ponte situa-se em S. Tomé de Negrelos, concelho de Santo Tirso, distrito do Porto. Abrangendo o Pré-escolar, 1º, 2º e 3º ciclo, a escola apresenta-se com práticas educativas que se afastam do modelo tradicional. Está organizada segundo uma lógica de projeto e de equipa, estruturando-se a partir das interações entre os seus membros (alunos orientadores educativos e encarregados de educação), alicerçando as suas práticas nos seguintes princípios orientadores:
-Concretizar uma efetiva diversificação das aprendizagens tendo por referência, uma política de Direitos Humanos;
-Garantir a igualdade de oportunidades educacionais e de realização pessoal a todos os cidadãos;
-Promover, nos diversos contextos em que decorrem os processos formativos, uma solidariedade ativa e uma participação responsável.
A sua estrutura organizativa (facilitada pela existência de espaços amplos), desde o espaço ao tempo e modo de aprender, exige uma maior participação dos alunos, em conjunto com os orientadores educativos, no funcionamento e organização de toda a escola, no planeamento das actividades, na regulação da sua aprendizagem e avaliação. Assim, a divisão por anos de escolaridade ou ciclos deu lugar à organização por Núcleos. Existem 3 Núcleos: Iniciação, Consolidação e Aprofundamento. Estes são a primeira instância de organização pedagógica e correspondem a unidades coerentes de aprendizagem e desenvolvimento.

sábado, 11 de março de 2017

Ser do mar - Aula pública na Fundação Calouste Gulbenkian

Registo vídeo da aula pública
Mais aqui

Djunta mon pa kaza di nos tudu!

Relembrando Eduardo Pontes
na data do seu nascimento


Djunta mon! É isso… Construir a casa comum com a ajuda de todos. Ousar a inquietação e a utopia, concretizando as ideias. Na imagem, Eduardo Pontes carrega um tijolo durante a construção da atual sede do Moinho da Juventude.  Assim era o nosso Nhu Eduardo.

Conheci o Eduardo quando tinha 16 anos, era eu militante do Movimento de Esquerda Socialista (no setor juvenil – Núcleos Estudantis de Intervenção Política) e ele referenciado por todos como sendo sábio. Acho que a primeira conversa foi nas escadas da sede do MES na avenida D. Carlos I… Ficará sempre a imagem do afeto, profundidade e sentido de humor, com tempo disponível para os mais novos, sempre com uma história a propósito de algo que dizíamos. Voltei a encontrar o Eduardo Pontes na Associação Cultural Moinho da Juventude. Juntamente com a sua companheira Lieve, tinham erguido, compondo de raiz, junto com outros moradores, o Moinho, referente para todos aqueles que fazem intervenção sociocultural em bairros desfavorecidos. Eduardo e Lieve são habitantes do bairro, com uma mesma força da palavra e da ideia concretizada. Juntamente com Isabel Marques e outros companheiros ergueram este espaço de defesa de uma textura social e humana ímpar no nosso país: O Moinho da Juventude no bairro da Cova da Moura. Desde o primeiro momento, a Biblioteca foi mote para uma transformação social profunda, apostando nos vizinhos como protagonistas da sua própria história e do lugar que habitam. Paradigmático deste afã é confirmação de um elevado número de jovens, oriundos do bairro, que se dedicam a este trabalho cultural e social dando força às traves mestras que sustentam esta ideia. Com o Eduardo, voltou a crescer dentro de mim o espírito Crioulo e um entendimento maior desta cultura que tem acompanhado o meu percurso, também passei a ter redobrada atenção à diáspora do povo cabo-verdiano, à realidade da imigração. Habituei-me a encontrar o Eduardo na nossa biblioteca António Ramos Rosa Havia sempre um novo livro para ler, uma opinião para conferir, uma peça de artesanato desconhecida e um vizinho com o qual seria importante falar, com tempo, o que quer mesmo dizer – sem pressa. Entendi o significado de Morabeza, cada vez que subia as escadas da sua casa para dois dedinhos de conversa (com direito a groguinho e uma risadinha no final de cada frase). Hoje sou mais um sócio do Moinho que colabora, quando a vida o permite (transporto comigo a mágoa de não poder estar sempre presente). Aprendi a ler as dinâmicas do bairro através do olhar do outro, antes de opinar e propor. O Eduardo partiu na mesma data em que assassinaram Amílcar Cabral (20 de janeiro 1973 - Guiné Conacri). Sobre Amílcar diz o povo: Bu more sedu! O Eduardo não podia ficar mais por aqui (o corpo trai-nos)… para nós, será sempre cedo demais. A única maneira de ele permanecer vivo na fundu da petu é continuar a lutar pela requalificação do bairro, preservando a textura social e cultural, tendo tempo disponível para o outro, o nosso vizinho e fazer crescer a ideia, sempre.
Às vezes um passeio pelo bairro ficava registado no meu Diário Gráfico:
Vizinhos jogando Uril no café de Nhu Vitorino

quinta-feira, 9 de março de 2017

Bairro Leitor: Já sou casado!

De sussurrador na mão ao lado da Professora de História.
No próximo dia vamos sussurrar poesia...
As janelas estão todas decoradas...

Ora cá estou dando notícias do Projeto Bairro Leitor. Na sequência da anterior intervenção no dia dos namorados, esta semana, no dia 8 (dia da Mulher) levei a “Máquina da poesia” aos alunos da turma Pief. Já calculam a energia da sessão… Surpreender, fazer pensar e levar à descoberta – foram os objetivos simples que segredei para mim logo no início da sessão, enquanto lia o texto “As gajas são lixadas” de José Fanha – fez-se um silêncio enorme no final. “A maneira como você leu… nunca vi nada assim”. Disse um dos rapazes de semblante sério e surpreso. E fui, por ali fora com a proposta, ajudando a vencer resistências, com dinâmicas de corpo e dando a palavra aos jovens e mantendo a autoridade do mediador. As dificuldades são muitas e as estratégias de educação não formal conseguem chegar mais próximo dos alunos. E não é que aquelas fantásticas e difíceis criaturas escreveram! Algumas frases poéticas surpreenderam-me pela qualidade do conteúdo. Quando quis tirar uma fotografia do grupo, colocou-se logo a questão das autorizações. Dois jovens insistiram em ser fotografados. Um deles disse-me “que já era casado e que os pais não se ralavam com esses assuntos”. “Nós (ciganos) temos mais responsabilidades que “os outros” da nossa idade, a idade não conta. É esta a densidade humana que encontramos quando nos disponibilizamos a partilhar a leitura em meios abandonados e sem acesso a bens culturais. O trabalho continua… e a sala da escola vai-se compondo, ganhando corpo como biblioteca híbrida (comunitária), graças à teimosia dos parceiros do projeto e de duas professoras bibliotecárias visionárias. A inauguração oficial está prevista para o dia 26 de abril. Ainda mais uma surpresa agradável: a sessão foi acompanhada por um grupo de 5 docentes participativos que estiveram lado a lado dos alunos ajudando a vencer obstáculos...

domingo, 5 de março de 2017

Oficina Improvável - Março

Escutando em estéreo o poema do Vento de António Torrado
Teve lugar no dia 2 de março no Centro escolar da Ventosa, na sua Biblioteca Escolar, mais uma sessão das “Oficinas improváveis” promovidas pela Biblioteca Municipal de Torres Vedras e dedicadas a crianças com necessidades educativas especiais. Ao longo do ano, têm lugar nas diferentes bibliotecas escolares, estas sessões de mediação leitora que são simultaneamente momentos formativos, com partilha efectiva de recursos e práticas úteis á biblioteca e às unidades de ensino especial. Na Ventosa, juntámos dois grupos distintos de meninos e meninas para trabalhar em torno do som; um grupo da multideficiência e outro do ensino estruturado. E lá fomos das histórias sonoras aos sussurradores passando pelas lenga-lengas. Partimos da obra de José Fanha e António Torrado para sussurrar em segredo ao ouvido e bem alto quando lançámos as palavras pelo ar: “E viva o V!”. Na ocasião, divulguei o trabalho que vem sendo desenvolvido nas Bibliotecas Escolares do Concelho Mafra em torno dos livros sensoriais. Um agradecimento especial ao Centro de Recursos Poeta José Fanha pelo empréstimo destes livros especiais. A propósito do livro da “Torneira” aqui fica mais informação sobre estas histórias multissensoriais e outros recursos: Brochura RBE