quarta-feira, 11 de abril de 2018

Necessidades educativas especiais: Regresso à Galiza


Depois do Encontro de 20 de fevereiro em Santiago de Compostela, “Biblioteca Inclusiva, Leitura e diversidade”, onde apresentei o Projeto Dilfícil Leitura, numa formação dedicada a professores bibliotecários (Rede de Bibliotecas Escolares da Galiza) e, também, a professores de educação especial, estarei de regresso amanhã para nova intervenção, desta vez no “Encontros Plan de Mellora de Bibliotecas Escolares”. Espero que esta formação relâmpago seja tão produtiva e descontraída como a anterior.
Este projeto que partilharei na Galiza, atualizado com as últimas iniciativas pedagógicas, teve início há 3 anos por iniciativa de Goretti Cascalheira, Biblioteca Municipal de Torres Vedras, lançando as Oficinas improváveis que têm percorrido as bibliotecas escolares do concelho promovendo a leitura inclusiva e a acessibilidade aos livros. Trata-se de um projeto colaborativo que decorreu durante 2 meses intensos numa biblioteca escolar rural (no meio das vinhas) no Centro Escolar da Ventosa (Torres Vedras) e envolveu crianças com necessidades educativas especiais, maioritariamente do perfil autista (severo), crianças das diferentes turmas que se constituíram em tandem para leitura a par e mediação da leitura, 1 professora bibliotecária, 3 professoras de educação especial e 3 auxiliares de educação (muito experientes neste campo) e eu como mediador da leitura no contexto das necessidades educativas especiais. Esta iniciativa teve um forte envolvimento da Rede de Bibliotecas Escolares e da Laredo Associação Cultural e do Agrupamento de escolas de S. Gonçalo (Torres Vedras). O trabalho foi desenvolvido em laboratório, na biblioteca escolar onde foram criadas as condições para o seu desenvolvimento a par da aquisição de um conjunto de livros que foram testados pelas crianças e adultos. Um dos objetivos do projeto, para além da pesquisa pedagógica, é contribuir para retirar as unidades de ensino estruturado (multideficiência e autismo) do isolamento que vivem na escola. Por outro lado, interessava-nos clarificar a diferença entre acessibilidade e inclusão, e foi com este fito que pensámos a escolha dos livros, permitindo a fruição, tanto pela criança autista, quer pelo seu par. Sobretudo importava mostrar que a biblioteca é um lugar onde cabe toda a gente e que as metodologias não-formais usadas na “casa dos livros” tinham um efeito positivo sobre as crianças, propondo um caminho mais aberto, diverso das práticas correntes do ensino especial no nosso país. Também valorizámos o empréstimo domiciliário no contexto da sala de ensino especial, mesmo sabendo que algumas das nossas crianças poderiam danificar os livros. Outra decisão deste projeto, foi valorizar o papel das auxiliares de educação, referentes sólidos das crianças especiais (autismo e multideficiência) no interior da escola, como mediadoras de leitura especializadas, a par dos docentes e do mediador da leitura. Este projeto envolveu toda a comunidade escolar, incluindo as famílias, e aponta um caminho possível para a inclusão, onde a biblioteca escolar desempenha um papel proactivo e central. Este projeto, que tem permitido aprofundar o debate em torno do papel das bibliotecas escolares e propor novos caminhos na educação especial, tem gerado reações positivas, estando prevista uma nova intervenção especializada noutro concelho do distrito de Lisboa.
Em Fevereiro foi assim...


segunda-feira, 2 de abril de 2018

Centro de Apoio Social do Pisão: Doença mental e mediação criativa


Já há algum tempo que venho colaborando com o Centro de Apoio Social do Pisão (Alcabideche/Santa Casa da Misericórdia de Cascais), experimentando estratégias criativas que contribuam para a reconstrução e estabilização interior dos utentes desta histórica instituição. É um trabalho que desenvolvo com muito gosto, lado a lado com um pequeno grupo de técnicos que aprendi a admirar. Uma relação que surgiu nas oficinas de mediação com públicos especiais do Museu Gulbenkian e teve continuidade em sessões formativas que decorreram em Alcabideche. Da educação artística à mediação do espaço museológico do Pisão, passando pela mediação do livro e da leitura. A nossa última sessão, que decorreu numa bela sala, cheia de luz e vista desafogada para a serra, incidiu sobre as memórias esquecidas ou longínquas dos residentes na instituição. Usando os diferentes sentidos (nesta oficina o olfato e o paladar) promovemos a palavra, a verbalização do que foi vivido. Um pequeno exercício de desenho ajudou na tarefa de procurar no passado. O próximo ateliê das memórias será sobre a escuta (audição).







De repente ficou um vazio. Deixámos de ouvir a voz do Senhor Amadeu, companheiro utente do Pisão, sempre opinativo, participante e muito criativo. A minha pequena homenagem a esta boa pessoa que passou pelas nossas vidas.

quinta-feira, 29 de março de 2018

Quintal das Palavras



Acaba de ser lançado, o projeto de intervenção e capacitação de mediadores culturais “Quintal das palavras”, uma iniciativa da Biblioteca Municipal de Oeiras e Fundação Aga Khan Portugal, no qual participarei como mediador/formador através da Laredo Associação Cultural. Trata-se de uma iniciativa em torno da mediação leitora e educação artística, acolhida pelo Projeto Embarca e grupos informais no Moinho das Rolas e Ribeira da Laje (Porto Salvo/Oeiras). Foi a incansável Rita Dornellas que, em boa hora, me trouxe para este território. Um projeto faseado, tranquilo, capacitador que pretende promover o conceito de Ludobiblioteca de proximidade, um espaço de comunicação e desenvolvimento de literacias. O projeto prevê a realização de workshops itinerantes pelos 3 núcleos de  Porto Salvo, e ainda, um conjunto de intervenções diretas em mediação do livro e da leitura e mediação pela arte junto dos habitantes dos bairros. Tudo isto, a par de uma intervenção específica da Biblioteca de Oeiras na estruturação do espaço de leitura.

quarta-feira, 28 de março de 2018

8 de Março em Almada


Há sempre uns momentos na vida em que tudo segue com demasiada pressa, nem sequer dando tempo para conferir as práticas e os dias aqui no blogue. Com algum atraso, cá seguem notícias da mediação pela arte e pela leitura.
Passei o dia 8 de março em Almada. De manhã, na Escola Secundária do Monte da Caparica e de tarde na Biblioteca Municipal Maria Lamas (Monte da Caparica/Raposo). A minha anfitriã da manhã foi a professora bibliotecária Ludovina Pereira. Foi gratificante trabalhar com crianças e jovens de diferentes origens, desaguando todos na nossa língua. Trabalhei essencialmente a poesia portuguesa, de forma dinâmica e divertida, não me esquecendo de homenagear as mulheres… Se conseguirmos estabelecer a energia correta numa sessão, isso pode ter resultados surpreendentes – e assim foi, com a ajuda de Alexandre O’ Neill, Gedeão, José Fanha e de todo o mar que consegui trazer dentro dos meus livros. Ainda brinquei com dois textos em crioulo para gáudio de um grupo de raparigas e rapazes com origens nas “ilhas”. De tarde rumei à Biblioteca Municipal Maria Lamas onde fui recebido por amigos da rede pública de leitura, a João Ferro e o Luís Barradas. Aguardavam-me duas turmas de jovens, igualmente variadas. Tarefa da tarde: transformar aqueles amigos irreverentes em poetas. Foi aí que entrou a Máquina da Poesia a funcionar em pleno! Escrevemos alguns versos e terminei com dois poemas: um do Fanha e outro de Álvaro de Magalhães. No final estava cansado mas contente pela energia que a malta nova me passou ao longo daquele dia.

terça-feira, 13 de março de 2018

OFICINAS IMPROVÁVEIS: Quando uma Biblioteca Escolar se transforma num laboratório criativo...


No dia 7 de março, na Biblioteca Escolar da Ventosa (Agrupamento de Escolas de S. Gonçalo/ Torres Vedras) teve lugar mais uma Oficina Improvável. De repente, tive a certeza de estarmos a viver um momento especial, quase fundador, ali na biblioteca escolar transformada em oficina inclusiva, com as crianças apropriando-se livremente dos recursos de expressão. A composição do grupo mantém-se transversal: as crianças em tandem (aluno especial e aluno regular, também muito especial); auxiliares de educação empenhadas; professoras de ensino especial; professora bibliotecária e mediador do livro e da leitura junto com duas companheiras da Biblioteca Municipal (promotora destas oficinas). Estas mediadoras do livro e da leitura, do Serviço Educativo da Biblioteca Municipal de Torres Vedras, têm vindo a fazer o seu percurso formativo comigo, acompanhando e intervindo ativamente nestas oficinas improváveis. Resolvemos levar o velhinho retroprojetor para a nossa sessão, começando por projetar (em grande) um livro de Hervé Tullet, captando o foco dos nossos meninos e meninas da Educação Especial. Naturalmente, as crianças começaram a brincar com as sombras, tal como Peter Pan, depois introduzi na projeção algumas personagens móveis, que já tinha recortado em papel. A brincadeira prosseguiu entre o retroprojetor e a imagem projetada na parede da biblioteca. A seguir, coloquei a água num pirex, onde nadaram as criaturas recortadas, acompanhadas de papel celofane colorido, muito agradável de tocar, quando está molhado. Pouco depois, já as crianças mergulhavam as mãos na água (quente da lâmpada de projeção) e manipulavam aquelas marionetas de papel colorido, imprimindo um movimento ondulatório ao recipiente de vidro-as ondas do mar… 
Rapidamente entraram em autogestão organizada em torno do retroprojetor. Dei por mim a interagir com outras crianças, noutra tarefa, enquanto os pares dos nossos meninos coordenavam, naturalmente, a parte técnica. Foi neste momento que surgiu projetado o movimento do meu spinner girando sobre a superfície luminosa. Todos gostaram do meu novo brinquedo que continuou a girar no chão, emitindo as suas cores vivas, acompanhadas de um som veloz. Neste ponto, introduzi um outro recipiente cheio de espuma de detergente e a “reinação” continuou naquela biblioteca transformada em laboratório estético e pedagógico. A sessão terminou com as crianças interagindo com a projeção do livro “Excentric Cinema” (Béatrice Coron). Consegui ler no rosto dos adultos um contentamento genuíno por aquela sessão que fez sorrir um menino autista por duas vezes e proferir algumas palavras. Enfim, uma manhã bem passada…


segunda-feira, 5 de março de 2018

O que nos diz um retrato?



A visita/oficina O que nos diz um retrato vai acontecendo no Museu Gulbenkian (Coleção do Fundador), agora com o percurso consolidado e abraçando o desafio de receber alunos do universo autista e multideficiências de baixo teor comunicativo. Tenho sempre o desafio de trabalhar com estes grupos com dificuldades de foco, num  museu carregado de visitantes. Há 3 anos atrás, tinha a possibilidade de trabalhar em sossego, com estes grupos especiais, no dia em que o museu está fechado aos visitantes – Era uma primeira ida (protegida) ao Museu, com resultados visíveis na segunda deslocação à Coleção, já no meio do público regular. Mesmo assim, os resultados são bem positivos, sobretudo graças ao recurso a Photoshop, criando imagens onde aparecem os nossos visitantes especiais encarnando as personagens das pinturas expostas. Ao mergulharem na pintura, acabam por consolidar os conhecimentos surgidos na mediação fixando imagens destinadas a permanecer na memória.


Em Sines com a Associação Cabo-Verdiana


No dia 27 de fevereiro, participei no interessante Seminário de Educação Intercultural que teve lugar no Centro Cultural de Sines. Compareci a convite da Associação Cabo-Verdiana de Sines e Santiago do Cacém, a quem agradeço na pessoa da sua presidente Gracinda Luz com um abrasu pertadu extensível a todos os companheiros desta IPSS. Falei sobre a importância da mediação leitora junto das pessoas excluídas e do seu poder inclusivo, dos livros à narração oral. Aliás, aproveitei para contar uma história em crioulo e outra da tradição cigana. Gostei particularmente de escutar o Bruno Gonçalves sobre os projetos que decorrem com a comunidade cigana e os docentes das escolas do Concelho de Sines que partilharam as suas iniciativas, algumas decorrendo na Biblioteca escolar. Agradeço à Tânia Brito (serviço educativo do Município de Sines) pelos pequenos textos e moderação do painel. Findo o seminário, fui conhecer o bairro Amílcar Cabral. Isso mesmo! Sines tem um bairro com as ruas batizadas com nomes fundamentais da história Cabo-Verdiana, não faltando uma artéria com o nome de Baltazar Lopes. Foi no coração desta comunidade que se ergueu a sede da Associação Cabo-Verdiana de Sines e Santiago do Cacém – um espaço intercultural de qualidade, servindo toda uma comunidade envolvente. Ficou a simpatia e a vontade de realizarmos em conjunto algumas iniciativas. Até breve.