sexta-feira, 22 de setembro de 2017

"Dilfícil Leitura" leva mediação leitora especial ao FOLIO

Comecei esta semana uma intervenção no Centro Escolar da Ventosa (Torres Vedras) que une a biblioteca escolar à unidade de ensino especial, num projeto de mediação do livro e da leitura com crianças com necessidades educativas especiais, maioritariamente com características de autismo. Trata-se de um convite endereçado por Maria José Vitorino, curadora do FOLIO EDUCA, Festival Literário Internacional de Óbidos, que tem como tema, este ano, "Revoluções, Revoltas, Rebeldias". Efetivamente, vamos ter de nos preparar para a grande revolução da inclusão na educação, sabendo que a promoção das literacias e a mediação da leitura serão veículos para a construção dessa sociedade mais justa, tendo as bibliotecas um papel central a desempenhar nesta caminhada. Coisa difícil… Ou melhor, coisa DILFÍCIL, como dizia um menino com quem trabalhei, cada vez que se referia a uma situação complicada, mais do que difícil. Assim inspirado, batizei este laboratório partilhado de mediação leitora de “Dilfícil Leitura”. Este convite surge no seguimento da intervenção continuada da Biblioteca Municipal de Torres Vedras em mediação do livro e da leitura junto de famílias e crianças especiais, através do programa “Sentir especial”, que nos últimos dois anos acolheu as “Oficinas improváveis”, que têm visitado as bibliotecas escolares do concelho. Vamos trabalhar um conjunto de livros intencionalmente escolhidos e recorrer a dinâmicas criativas com os nossos alunos com necessidades educativas especiais e com mesmo número de meninos das turmas de inclusão. Formarão uma espécie de tandem, leitores a par, que se manterão ao longo do ano letivo, dando continuidade á ideia. Esta espécie de laboratório de comunicação e criação de literacias acontecerá na biblioteca escolar e na unidade de ensino estruturado. Os livros e as metodologias que se provarem acertadas com os nossos pares improváveis serão partilhados no Folio Educa com grupos de crianças, auxiliares e docentes equivalentes, de outras escolas do país, a convidar pela curadoria do evento. A partilha deste laboratório, em contexto de oficina, acontecerá no Folio (Óbidos) a 24 de outubro, com duas sessões (manhã e tarde). 

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

"Arribalé!" de novo na estrada...

Arribalé! é um espetáculo original de narração oral em torno do Mar, suas criaturas e gentes. Agora em reposição, disponível para ir a escolas (bibliotecas escolares), teatros e bibliotecas públicas. “Arribalé!” nasceu de uma residência criativa no’’ O Espaço do Tempo (Montemor-o-Novo) em março de 2015. Contos, poemas, pequenas canções, passando pelas pragas do Algarve e outras oralidades, tudo faz parte desta apresentação que tem como pano de fundo um conjunto de ilustrações do autor. Sessenta minutos, pensados para a família, onde o espetador é convidado a mergulhar nas histórias e seres da nossa costa. Paralelamente à apresentação, encontra-se disponível o livro que foi mote para este espetáculo, Rimas salgadas (PNL 2015), poesia e ilustração para a infância e juventude (Grácio Editor). No final, terá lugar um encontro com os leitores.

Poderíamos imaginar uma criança revirando pedras na maré vazia em busca de criaturas marinhas escondidas na sombra ou um adolescente afoito pescando sozinho num barco sacudido pelas vagas de barlavento. Este é Miguel Horta um pintor que se dedica à escrita e à ilustração. Mas também um mediador cultural em diferentes contextos humanos, fazendo sorrir e refletir quem o escuta através dos contos e desafios que lança. Depois de Pinok e baleote e Dacoli e dacolá, estas Rimas salgadas chegam-nos diretamente da sua infância num exercício de partilha da urgência de pensar o Mar.
Mais informação: horta700@gmail.com

segunda-feira, 4 de setembro de 2017

O filho do trolha

Ilustração: Miguel Horta 
(Direitos reservados)
Texto a pedido da minha amiga Paula Carvalho
sobre comportamentos de risco
a apresentar nas II Jornadas Templárias de Psiquiatria CHMT

-Ó senhora doutora, nem sei muito bem como lhe contar isto…
-Ahhh… Não é doutora.
-Como?
-Senhora enfermeira?
-Combinado.
- Entende-me na mesma…
- Pois bem… Eu já sou um Kota, como diz o meu neto. Fui avô muito cedo. Maluqueiras da minha juventude… Por isso, já tenho dois netos, lindos… São a luz dos meus olhos… sabe como é? Pois claro, fala com muita gente. Ou melhor – atende.
Como ia dizendo, eu nunca fui um santinho. Deixei de estudar muito cedo…
Logo depois da tropa desencaminhei-me. O trabalho era fácil, ganhávamos bem. Trabalhava nas obras. Vivendas! Aprendi o ofício muito cedo com o meu pai. Logo em pequeno comecei alinhar as botas sujas de cimento ao lado das botifarras do meu pai, à entrada de casa… e a minha Mãe aos berros a protestar contra a sujidade… A entender os desenhos dos arquitetos, era o maior! E depois, o fazer também era comigo… Tratava os tijolos e a argamassa por tu! Os sacanas dos vizinhos lá da Musgueira, chamavam o meu Pai de “trolha”. Não entendiam. Ele trabalhava como um galego. Aliás, vinha de famílias galegas. Era um bom homem. Bem melhor do que eu sou.
Desencaminhei-me. Pois foi…
Eram os tempos do Cavaco e fartou-se de entrar dinheiro neste “canteiro”. Era fácil ganhar graveto, ainda por cima, tinha uns “amigos da corda”, como dizia o meu Pai… (Que deus o tenha…que era galego). Chegava à sexta-feira e a malta tinha um molho de notas na mão – escudos, o dinheiro que havia dantes. Chamávamos ao nosso trio a “Chavalada Brava”… Eu, um moço chamado Toni e outro mais malino, o Chico. Comprámos um Wolksvagen a trielas, ficou em meu nome. Era o mais atinado, até tinha conta na Caixa... Depois, íamos à conquista do Cais do Sodré. Miúdas giras, uma ou outra cena de porrada (nada de grave…) muito whisky, absinto (era proibido, antes do 25 de Abril, mas dá cá uma pedrada que se fica a ver desenhos animados...) charros (era um campeão a enrolar…”Cónicas”! A malta adorava as minhas cónicas: umas perfeitas peças de artesanato fumegante….).
Uma noite, no Jamaica, conheci uma miúda fininha que engraçou comigo. Eu, um tosco dos bairros, ela uma janada de boas famílias das avenidas novas que cheirava a pele lavada e que me olhava com uns olhos redondos, gulosos. Embrulhei-me com ela e, em pouco tempo, já estava em festas na avenida de Roma, nuns apartamentos finos…dos pais, ausentes, claro… Um dia, numa dessas festas, a miúda chamou-me à parte e mostrou-me um pozinho branco em cima de um espelho. “Queres provar?” Foi nesse dia que aprendi a snifar. De snifadela em snifadela, com obras em todas as casas dos amigos dela – uma casa de banho ali, uma pintura de parede acolá. Uma vez gamei um vibrador de uma gaveta. Foi uma galhofa lá no café da Musgueira, com as miúdas todas a querer ver o que era, como funcionava… embora sabendo tudo, claro.
Numa noite de loucura lá no bairro, já com as narinas bem brancas, encontrámos um vizinho na tasca que se lamentava por lhe faltar ferro para acabar de construir o seu barraco, e “como é que iria ser com o Inverno à porta”…  Num gesto de cavalheirismo a “Chavalada Brava” decidiu resolver o assunto e fomos gamar ferro a um estaleiro de uma empresa famosa. Colocámos uma grelha em cima do “Carocha”  e lá fomos estrada fora, na bisga, em demanda das vigas de ferro. Havia um cão maldisposto no estaleiro da empresa… Nada que um bife de alcatra não resolvesse…. E depois, começámos a carregar a grelha do tejadilho com as vigas fininhas de ferro, acho que era viga de 8… ficaram a pender em redondo, muito bem presas à estrutura do carro. Quando achámos que tínhamos as suficientes, alegres ligámos o Wolksvagen. Nesse momento, com a vibração do motor e do movimento, o tejadilho abateu-se sobre nós encarcerando-nos no metal do carro, transformado em gaiola em forma de “V”. Foi uma vergonha ver chegar a polícia e depois os bombeiros (para nos desencarcerar). O pior foi a bófia encontrar o saquinho do pó para o fim de semana…. Até o juiz se riu de nós na audiência. O advogado, que era um estagiário, não nos ajudou. No nosso trio havia o Chico Cigano e isso foi o suficiente para nos olharem desconfiados…ainda por cima da Musgueira! Lembro-me de ter escutado a expressão: “coitados, são uns mitras…” Lá fui parar ao estabelecimento prisional de Lisboa. Perdi o rasto dos outros, e também, da fininha… mas os hábitos permaneceram, pois, lá dentro, não faltava quem me pusesse as narinas brancas e até de outras cores… Só que eu já estava farto daquela cena. Quando a educadora da prisão me perguntou se eu queria fazer o Ciclo lá dentro, aceitei. Até tive uma boa nota… Saí  da prisão com tanta raiva (ainda por cima o Chico disse ao Juiz que era tudo meu -o carro, o pó… - e o cobardolas do Toni calou-se), que decidi mudar de terra. Vim aqui para Tomar. Mas sabe, senhora enfermeira… Eu sou daninho. Sim. Constitui a minha família e tornei-me mestre-de-obras, até acabar por criar a minha pequena empresa. Só agora, em velho, me voltei a desviar. Como o gado : tresmalhado…
Por amor de Deus, a senhora enfermeira não diga nada ao meu filho, que deve estar lá fora a fumar cigarros uns atrás dos outros… pregos para o caixão dele…Já lhe disse.
O Toni, do nosso trio, deu comigo há dois anos. Veio numa excursão a Tomar, junto com uma data de zombies, velhadas da nossa idade, e choquei de frente com ele lá na Corredora. Eu sempre gostei dele, era o mais silencioso da Chavalada. Escutei com atenção a aventura da sua vida – safou-se, como eu. Embora tenha tido a tarefa de o levar em braços pelo centro de Tomar até à pensão onde ficou alojado com outros velhos como nós. Continuava a ser uma esponja. Mas ele é a única testemunha do que vivi – pode provar que tudo é verdade. Passei a ir ter com ele a Lisboa, para os bailes dos Alunos deApolo ou para as matinés da Ribeira. Ficava numa pensão jeitosa e pouco tempo depois ele começou a apresentar-me umas miúdas. Aquilo foi água no deserto para um camelo como eu. A minha mulher achava que ia à capital conversar com os fornecedores… Eu ia, era mesmo para a gandaia! Tinha dinheiro das minhas obras e senti-me rejuvenescer… Enfim… Já passou. Agora sinto-me mal, fraco… se calhar é gripe… Ando fraco…sabe? Quer ver, senhora enfermeira? Apareceram-me umas manchas no pescoço e também aqui no peito. Mas acho que tenho as vacinas todas em dia…

sábado, 2 de setembro de 2017

sexta-feira, 28 de julho de 2017

Biblioteca Municipal de Pombal: Refletindo sobre o trabalho com crianças ciganas


Decorreu na segunda-feira, na biblioteca municipal de Pombal, a última oficina deste verão, com as crianças ciganas da cidade. Havia muita eletricidade no ar, com as festas da cidade, época de muito trabalho para os pais desta comunidade. Foi, talvez, a oficina mais difícil, com a pior escuta, até agora. Em determinada altura perdi a mão do grupo. Agora procuro entender o que se passou. Levado pelo excesso de confiança pelo sucesso das sessões anteriores, não preparei um "Plano B" para o caso de eles estarem mais frenéticos... Também o nosso mediador cigano não soube gerir os meninos, muito por ter pouca consciência da natureza do trabalho em educação artística e mediação leitora que estava a ser desenvolvido naquele momento. Não tem mal, mas confirma a necessidade de formação intensa nas áreas artísticas, mediação leitora e da dinâmica de grupos. É preciso seduzir estes mediadores ciganos para a leitura e para as expressões, antes de os lançar no terreno, para trabalho com os seus pares mais novos. A grande maioria destes jovens pouco contacto teve com o livro infanto juvenil, tendo pouco convívio com outros produtos culturais. Sem um domínio básico das metodologias de educação não formal, difícil será gerir um grupo para além do habitual berro e puxão de orelhas que testemunhei dentro da biblioteca. Também, os técnicos responsáveis pela sala de leitura infantil não ganham nada com a comunicação em ralhete e aos berros devendo aprofundar conhecimento sobre o trabalho com esta comunidade, estabelecendo uma relação justa com estes utilizadores. Ainda outro dado fundamental – a constituição dos grupos. Deveria ter refletido sobre o assunto, mas quando cheguei, já os grupos estavam constituídos, com diversidade etária num rácio demasiado elevado para a natureza do trabalho que queríamos desenvolver, onde a escuta, a serenidade e a cooperação, são mote para o início das sessões. No lançamento de um trabalho com crianças ciganas é recomendável que a intervenção seja feira por dois profissionais da mediação cultural, preparada anteriormente em tandem, com os olhos postos na continuidade. Só promovemos o empréstimo domiciliário, criando leitores assíduos, com projectos em continuidade dotados de uma visão mais lata, que permita sair das quatro paredes das bibliotecas indo ao encontro das crianças e suas famílias, diretamente nos bairros de origem. O verão vai servir para aprofundar a reflexão. Um abraço forte para a Ana Maria Cabral que me lançou o desafio e para a Marli Silva que me tem coadjuvado – obrigado.

Uma metodologia simples para trabalhar adjetivos 
("Filactera, meu Amor" - direitos reservados Miguel Horta)
De qualquer forma, a sessão de 24 de Julho correu bem ao nível de alguns objetivos pensados. Começámos com uma dinâmica de concentração e palavra, baseada nos nomes das aves e no vendedor de passarinhos (Passarinheiro – jogo de roda) que dantes havia nas nossas feiras. As crianças sabiam o nome de imensos pássaros, muito mais que os meninos das grandes cidades… Para que se concentrassem no nome da ave escolhida e nas regras do jogo, dei a cada participante um tsuru, à medida que iam acertando na palavra. Depois partimos para a leitura de um álbum de imagens sobre um passarinho na gaiola (“Tom y el pássaro” – Patrick Lenz). Depois a sessão descambou e não consegui chegar a Jacques Prévert (“Como fazer o retrato de um pássaro). Passado o momento de dispersão e ruído voltámos ao trabalho, terminando os desenhos a propósito do “livro com um buraco”. A sessão terminou com um pequeno jogo de “adivinha o adjetivo” partindo dos “emoticons”.
A partir do "livro com um buraco" de Hervé Tullet.
Desenho sobre fotocopia a preto e branco, de fotografia.

terça-feira, 25 de julho de 2017

Construir a Narração: Inauguração do Convento do Carmo (Torres Novas)

Passo a vida a afinar o olhar, para poder reconhecer o outro. Sem este exercício é difícil entender uma comunidade. Vem esta constatação a propósito do meu último trabalho em Torres Novas, “A Visita”, uma intervenção em mediação cultural que partiu da memória do Hospital Velho desta cidade para chegar aos Torrejanos de agora. Quem me desafiou, foi  João Aidos, que conheço há uma boa mão cheia de anos. Sei que há uma coisa que nos une, o gostarmos de pessoas- ainda temos a capacidade de nos espantar com a expressão de quem habita os espaços, sejam eles latos urbanos ou pequenos e singulares bairros. Mais uma vez, este Engenheiro Improvável me lançou o desafio de pesquisar as histórias dos espaços para que as pudesse devolver à população que os possui, por legado. Andei em torno da memória do “Hospital Velho” (antigo Convento do Carmo), conversando com as mães que pariram naquela maternidade, com os filhos e com os profissionais que lá trabalharam. Neste trabalho de mineração da memória conheci alguns médicos ímpares. O Dr. José Manuel Bento Sampaio (que foi aluno do meu Pai na Faculdade de Medicina) veio de Almeirim, numa das noites que antecederam o evento, partilhou a sua visão do hospital, muito útil para a minha organização do conhecimento. Deixou ficar o seu livro “Memorial do Hospital Distrital de Torres Novas e do Serviço de Pediatria”, que li atentamente. A Dr.ª Ermelinda Júlia encheu-me com o seu afeto, facilitando contactos, acompanhando a construção da minha narração. E que dizer de um serão à conversa com um médico único, de elevado perfil intelectual, o Dr. Carlos Nuno? Também ele contactou com o meu Pai no Hospital de Santa Maria. Deu-me uma visão geral muito límpida da história do Hospital, sobretudo, o retrato humano, referido amiúde pelas mães que ali pariram e por outros doentes que ali foram tratados. No meu trabalho de pesquisa que incluiu residência na cidade, tive a preciosa ajuda do Serviço Educativo do Teatro Virgínia (daqui envio um abraço para a Cláudia Hortêncio!) que me fez chegar às mãos documentação histórica da Misericórdia e dos arquivos municipais. A equipa do Teatro recolheu um conjunto de depoimentos, na primeira pessoa (memórias/histórias), que foram projetados numa sala do Convento, como parte integrante na minha intervenção. 
A instalação incluía, ainda, uma árvore do claustro, que secara entretanto, e se transformou no lugar dos Tsurus, onde cada Torrejano nascido no “Hospital Velho” escreveu o seu nome, o nome de sua mãe, da parteira (quando sabiam) e do pediatra. No domingo à tarde já a árvore estava cheia de pássaros de papel. Cada pessoa que chegava com uma recordação acabava sempre por desfiar a memória, por vezes com bastante emoção. As histórias que recolhi e aquelas que inventei, tecendo um único conto, foram partilhadas ao longo do fim de semana, de mão dada com algumas canções onde a figura da Mãe é central.
Aqui fica um excerto do conto que foi narrado durante o fim de semana.
(...)
Irmãs de Leite

Maria Engrácia, a bela e frágil filha do dono da Farmácia, começou a ter as dores por volta do almoço. Às 10 de noite já entrava no Hospital Velho, não pela escadaria, mas sim pela rampa das urgências. Ao mesmo tempo Maria Sofia, uma moça rija da Meia Via, subia a escadaria, parando para soprar a cada lance. Quando chegou lá acima, quase estava parida. As duas mulheres ficaram no mesmo quarto apertado (que nem biombos tinha, à época) de duas camas em que bastava esticar a mão de um leito para o outro para fazer uma amizade, dando a mão à vizinha, nas horas de aflição. Engrácia pariu primeiro e foi reconduzida à sua cama onde tentou que a bebé que lhe puseram sobre o peito pegasse na maminha retirando aquele primeiro leite colostro com que a vida nos dá as boas vindas. Mas nada. Entretanto chega, desempoeirada Sofia, pelo seu próprio pé, senta-se na cama, a enfermeira põe-lhe a filha nos braços e a criaturinha logo começa a chupar raivosamente no mamilo da mãe. Escutou-se um Chup!Chup! sonoro que invadiu todo o quarto. E Engrácia naquele desespero: "Bebe filhinha, bebe!” Despachada Sofia daquela primeira parte da ceia da filha, virou-se para a vizinha e disse: “Ó mulher! Queres que a minha filha abra o caminho do leite para a tua? Com duas chupadelas ficas logo com as mamas desentupidas!” E assim foi. Sofia passou cuidadosamente a filha para os braços da vizinha e sentou-se na cama com a filha de Engrácia nos braços. A filha de Sofia nem estranhou um peito diferente: deu duas sacudidelas no mamilo de Engrácia, ao jeito dos cabritinhos e Chup! Chup! lá ficou o leite a escorrer. Retirou a filha e entregou a outra menina ao peito da vizinha, que logo sorveu esfomeada o peito de sua mãe. E repetiram a operação para o outro peito. Ao longo dos dois dias que estiveram no hospital as meninas saltaram pelas quatro maminhas sem qualquer problema. “Queres que ela agora prove desta?”. Ficou ali selada a leite uma amizade improvável e duradoura. Anos mais tarde (20 anos), deram entrada no Hospital Velho duas jovens mulheres com o mesmo tempo de gestação, entrando em trabalho de parto quase em simultâneo. Exigiram ficar em camas vizinhas e pariram quase ao mesmo tempo. Primeiro a filha de Engrácia e depois a de Sofia. Não tiveram nenhuma dificuldade em amamentar, mas deu-se a mesma dança de bebés entre maminhas. A enfermeira de turno comenta com a Doutora: “Até parecem irmãs, pela forma como se dão…” “Sim! Irmãs de leite!” - retorquiu a médica. (...)
O Dr. Carlos Nuno
muito atento às histórias que iam surgindo